terça-feira, 22 de agosto de 2017

24/08/2017
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SÃO BARTOLOMEU, APÓSTOLO
24 de Agosto


Primeira Leitura: Ap 21,9b-14
9b Um anjo falou comigo e disse: “Vem! Vou mostrar-te a noiva, a esposa do Cordeiro”. 10 Então me levou em espírito a uma montanha grande e alta. Mostrou-me a cidade Santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, 11 brilhando com a glória de Deus. Seu brilho era como o de uma pedra preciosíssima, como o brilho de jaspe cristalino. 12 Estava cercada por uma muralha maciça e alta, com doze portas. Sobre as portas estavam doze anjos, e nas portas estavam escritos os nomes das doze tribos de Israel. 13 Havia três portas do lado do oriente, três portas do lado norte, três portas do lado sul e três portas do lado do ocidente. 14 A muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.


Evangelho: Jo 1,45-51
45 Filipe encontrou-se com Na­tanael e lhe disse: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. 46 Natanael disse: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Filipe respondeu: “Vem ver!” 47 Jesus viu Nata­nael que vinha para ele e comentou: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. 48 Natanael perguntou: “De onde me conheces?” Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”. 49 Na­ta­nael respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. 50 Jesus disse: “Tu crês porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” 51 E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.
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Hoje é a festa de São Bartolomeu, Apóstolo. Seu nome é patronímico porque é formulado com uma referência explicita ao nome do pai.  Bartolomeu quer dizer filho de Tholmay (Bar Tholmay). Tholmay quer dizer arado ou agricultor. O nome de Bartolomeu aparece nos evangelhos sinóticos e nos Atos dos Apóstolos dentro da lista dos Apóstolos (Mt 10, 3; Mc. 3, 18; Lc. 6, 14; At. 1, 13). No Quarto Evangelho (evangelho de João) não se encontra o nome de Bartolomeu. Encontra-se apenas o nome de Natanael duas vezes. A tradição identifica o Apóstolo Bartolomeu com Natanael (Natanael significa dom de Deus ou Deus deu).


Bartolomeu, que era um dos doze apóstolos, foi pintado pelos antigos com a pele em seus braços, porque a tradição diz que seu martírio consistia em que a pele fosse arrancada de seu corpo, enquanto ele ainda estava vivo.


“Da sucessiva atividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento (sua pele é tirada de seu corpo), que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte” (Bento XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006).
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O texto do evangelho de hoje é lido em função do apóstolo Bartolomeu. E o texto fala sobre Filipe e Natanael em relação com Cristo. A necessidade de comunicar a experiência de Jesus faz com que Filipe vá buscar Natanael, como fez André para Simão Pedro, seu irmão. Filipe identifica Jesus pela sua família e lugar de procedência: “Jesus, Filho de José de Nazaré” (v. 45).


De imediato, a reação de Natanael é negativa: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (v.46). É possível que com a frase de desprezo pronunciada por Natanael o evangelista queira refletir sobre a desconfiança que tinham provocado os movimentos de libertação messiânicos, surgidos, sobretudo, na região da Galiléia, aos quais se oporá o messianismo de Jesus.


Diante do ceticismo de Natanael, Filipe remete-se à experiência. Convida Natanael com palavras quase iguais às que Jesus usou para convidar os dois discípulos de João a irem ver onde residia (Jo 1,39). Mas o convite aqui refere-se à pessoa e não ao lugar. Os que não conhecem a Jesus têm que primeiro conhecê-lo. Jesus jamais se define a si mesmo; o contato com ele é que fará compreender sua pessoa.


Natanael demonstra seu desejo de ver Jesus e está disposto a comprovar pessoalmente a afirmação de Filipe.


Jesus assume a iniciativa e descreve Natanael como modelo de israelita porque nele não existe falsidade. A qualificação “verdadeiro israelita” que Jesus aplica a Natanael, o homem sem falsidade, qualifica-o como alguém que conserva a autenticidade da primeira época e não atraiçoou ao seu Deus. Com isso, Jesus mostra sua intenção de integrar o verdadeiro Israel na comunidade de Jesus/messiânica, renovando a eleição feita outrora por Deus (Os 9,10).


O verdadeiro encontro com Jesus sempre muda a vida de qualquer pessoa completamente. Vários relatos dos evangelhos nos mostram essa verdade. Quando se encontrou com Jesus Natanael/Bartolomeu mudou completamente de vida: de uma atitude insolente quase agressiva: “De Nazaré pode sair coisa boa?” para uma rendida confissão de fé: “Mestre, Tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel”. O verdadeiro encontro com Jesus transforma: uma pessoa agressiva em uma pessoa doce, gentil, educada; uma pessoa dura em uma pessoa flexível; uma pessoa que ataca em uma pessoa que reconcilia; uma pessoa que atrapalha em uma pessoa que ajuda; uma pessoa preocupada em uma pessoa serena; uma pessoa violenta em uma pessoa pacífica; um bandido crucificado com Ele em companheiro de viagem para o Paraíso: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43); Zaqueu, de ladrão em amigo de Jesus (Lc 19,2-10); a Samaritana, de uma mulher frívola em evangelizadora (Jo 4,28-30.39-42); São Paulo, de um assassino em grande evangelizador (At 9,1-19); até a água Jesus transformou em vinho saboroso (cf. Jo 2,1-11), pois “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Basta ler a Bíblia, poderíamos aumentar esta lista.


A mudança da vida de Natanael/ Bartolomeu brotou de um testemunho, da mediação de Felipe: “Vem e verás!”. Com estas palavras Natanael/ Bartolomeu ficou plasmado e foi ao encontro de Jesus e a partir daquele encontro sua vida mudou completamente; ele passou a ser um dos apóstolos de Jesus, aquele que é enviado para levar o que é digno, o que salva para os outros homens. “Venha e você verá!”. O apóstolo Bartolomeu, plasmado nesta frase, ilumine também nosso viver.


No evangelho de hoje Jesus faz o elogio sobre Natanael/ Bartolomeu: “Ai vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. É muito difícil ser buscador da verdade e estar disposto a ser fiel à mesma, inclusive até sentir o desprezo e abandono de muitos em nome da verdade: tudo para ser apostolo, missionário. Os apóstolos ouviram dos lábios de Jesus: “Ide e pregai, batizai e perdoai, curai e sarai. A primeira missão da Igreja é evangelizar: levar e espalhar o que é bom para a dignidade da vida humana e para sua salvação.


Os apóstolos acabaram sua vida no martírio como Bartolomeu. Foram testemunhas da verdade, e fieis até a morte. Graças ao testemunho dos apóstolos o evangelho chegou até nós. Nós formamos uma cadeia com eles pelo evangelho. É preciso que continuemos essa obra tirando o que é bom dentro de nós para que todos possam viver felizes como irmãos de uma família evangelizadora apesar da resistência do mundo. O sentido de nossa vida está na partilha do bem e da alegria, na solidariedade e na compaixão com os necessitados e na certeza de nosso futuro com Deus que se inicia já agora neste mundo sendo evangelizadores. O apostolo Bartolomeu interceda por nós!


A memória dos Apóstolos nos fala de nossa própria vocação. Também fomos chamados por Cristo para ser enviados. Alguém nos apresentou Jesus, um dia, ou alguém nos introduziu na presença de Jesus Cristo, como Filipe para Natanael, ou simplesmente fomos chamados por Cristo através de outros meios, como um retiro ou um encontro de espiritualidade, ou simplesmente ouvimos o que Jesus nos disse: “Segue-me!”. A nós, como para cada um dos Apóstolos, foi confiada uma missão na Igreja conforme nossas capacidades ou talentos e nossas responsabilidades. Não podemos deixar que nossa vocação fique adormecida. Ser enviado (ser apóstolo) para anunciar o bem e servir a Igreja do Senhor nos irmãos faz parte de nosso ser Igreja. Sejamos colaboradores da fé e da Igreja e não consumidores da fé!


P.Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

23/08/2017
Imagem relacionadaResultado de imagem para 44'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo.
SANTA ROSA DE LIMA
(1586-1617) 


Primeira Leitura: 2Cor 10,17–11,2
Irmãos, 17 quem se gloria, glorie-se no Senhor. 18 Pois é aprovado só aquele que o Senhor recomenda e não aquele que se recomenda a si mesmo. 11,1 Oxalá pudésseis suportar um pouco de insensatez, da minha parte. Na verdade, vós me suportais. 2 Sinto por vós um amor ciumento semelhante ao amor que Deus vos tem. Fui eu que vos desposei a um único esposo, apresentando-vos a Cristo como virgem pura.


Evangelho: Mt 13,44-46
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.
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Isabel se torna Rosa
Santa Rosa de Lima, a primeira santa canonizada da América (canonizada pelo Papa Clemente X em 1671), nasceu da descendência espanhola na capital de Peru, Lima, em 20 de abril de 1586 do casal Gaspar de Flores e Maria de Oliva (um casal humilde. O pai de Rosa fracassou na exploração de uma mina e a família se viu nas circunstancias econômicas difíceis).


Rosa de Lima tinha como nome de Batismo Isabel. Os anos passaram Isabel se revelou cada vez mais bonita, sorridente e formosa como uma rosa. Por causa de sua beleza tão encantada, em todos os sentidos, Isabel começou a ser chamada de Rosa. Na hora de receber o sacramento da confirmação (Crisma) o arcebispo na época deu-lhe o nome de Rosa definitivamente.


Renunciando a Um Amor
Um jovem de alta classe social se apaixonou pela Rosa e queria casar-se com ela. Seus pais estavam muito entusiasmados porque eles eram pobres e isso daria à jovem um porvir brilhante. Porém, ela falou para seus que havia prometido a Jesus que seu amor seria totalmente para Deus e que renunciava completamente ao matrimônio por brilhante que ele fosse. Podemos entender porque Rosa rezava: Meu Deus, podes aumentar os sofrimentos, contanto que aumentes meu amor por Ti”.


Um dia rezando diante de uma imagem da Virgem Maria apareceu a Rosa o Menino Jesus dizendo-lhe: “Rosa, consagra-me a mim todo teu amor”. A partir de então, ela dedicou sua vida só para amar a Jesus Cristo. Seu irmão lhe disse que muitos homens estavam apaixonados perdidamente por causa de seus longos cabelos. Rosa decidiu, então, cortar seus cabelos e usar o véu para cobrir o rosto para não ser motivo de tentações para nenhum homem.


Desejo de ser monja agustiniana
Rosa queria ser monja agustiniana. Um dia em que ela estava, de joelho, diante da imagem da Virgem Maria para pedir-lhe a intercessão que a iluminasse se devia ir ao convento das monjas agostinianas ou não. Naquele momento ela começou a sentir que não podia levantar-se do lugar onde ela estava de joelho. Rosa chamou seu irmão para que este a levantasse, mas nada aconteceu. Como se o joelho de Rosa ficasse colado no chão firmemente. Então se deu conta de que não era a vontade de Deus de entrar no convento. Rosa rezou, então, à Nossa Senhora: “Ó Mãe celeste, se Deus não quer que eu vá a um convento, eu desisto agora desta idéia”. Assim que terminou a oração, Rosa conseguiu se levantar.


Rosa continuava pedindo a Deus que lhe indicasse a que associação religiosa deveria ingressar. Finalmente ela pediu para ser admitida entrar na ordem terceira das dominicanas. E o pedido foi aceito. A partir de então Rosa se vestia com túnica branca e manto negro e levava a vida como a de religiosas, mas os membros viviam em suas próprias casas.


Ganhando Pão Com o Próprio Suor
O pai de Rosa fracassou no negócio de uma mina e a família ficou em grande pobreza. Rosa se dedicou, então, durante várias horas de cada dia a cultivar uma horta e várias horas da noite a fazer costuras para ajudar o orçamento da casa.


Suas Penitências
É difícil encontrar na América outro caso de mulher que fez maiores penitências. A primeira penitência de Rosa era mortificar seu orgulho, seu amor próprio, seu desejo de aparecer e de ser admirada e conhecida.


A segunda penitência de Rosa de Lima foi a dos alimentos. Seu jejum era quase contínuo. E sua abstinência de carne era perpétua. Ela comia o mínimo necessário para não desfalecer de debilidade. Mesmo nos dias de maiores calores ela não tomava bebidas refrescantes de nenhum tipo mesmo que, às vezes, a sede a atormentava. Ela olhava apenas para o crucifixo e recordar a sede de Jesus na cruz para continuar agüentando sua sede, por amor a Deus.


Ela dormia sobre duras tábuas com uma madeira que servia como almofada. Uma vez ela teve desejo de mudar suas tábuas por um colchão e uma almofada, mas ela olhou para o crucifixo e lhe pareceu que Jesus lhe dizia: “Minha cruz era muito mais cruel do que tudo isso”. A partir de então Rosa de Lima nunca mais voltou a pensar em buscar uma leito mai cômodo.


Distintas enfermidades atacaram Rosa de Lima por muito tempo. Quando as pessoas a criticavam por suas demasiadas penitências, lhes respondia: “Se vocês soubessem o formoso que é uma alma sem pecado, estariam dispostos a sofrer qualquer martírio para manter a alma na graça de Deus”.


Os últimos anos Rosa de Lima vivia continuamente num ambiente de oração mística com a mente quase já mais no céu do que na terra. Sua oração e seus sacrifícios e penitências conseguia numerosas conversões de pecadores, e o aumento de fervor em muitos religiosos e sacerdotes. Não é por acaso que o Papa Inocêncio IX dizia: “Provavelmente não teve na América um missionário que com suas pregações alcançou mais conversões do que as conversões que Rosa de Lima obteve com suas orações e suas mortificações” . Na cidade de Lima havia já uma convicção geral de que a moça Rosa de Lima era uma verdadeira santa.


Desde 1614 já cada ano ao chegar a festa de São Bartolomeu (24 de agosto), Rosa de Lima demonstra sua grande alegria. E explica o porquê deste comportamento: “É que numa festa de São Bartolomeu irei para sempre a estar perto do meu Redentor, Jesus Cristo”. E assim sucedeu. No dia 24 de agosto de 1617, depois de terrível e dolorosa agonia, Rosa de Lima expirou com alegria, pois estava indo para estar eternamente com o amaríssimo Salvador. Tinha 31 anos de idade.


Desde pequena Rosa de Lima teve uma grande inclinação para a oração e a meditação. Se os homens soubessem o que é viver em graça (de Deus), não se assustariam com nenhum sofrimento, e padeciam de bom grado qualquer pena porque a graça é o fruto da paciência”, dizia Santa Rosa de Lima.


A graça é aquilo que nos dá alegria. A graça é também a razão principal de nossa coragem. O que foi que Deus respondeu a São Paulo, quando se queixava do aguilhão em sua carne? Deus respondeu: “Basta-te a minha graça” (2Cr 12,9). Todos podem abandonar-nos, também pai e mãe, diz um Salmo, mas Deus nos acolhe sempre (cf. Sl 27,10). Por isso, nós podemos afirmar com o salmista: “A graça e a fidelidade hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida” (Sl 23,6).


Ela também ajudava os pobres e os enfermos. No dia em que sua mãe repreendeu Rosa por atender, na casa, pobres e enfermos, Rosa lhe contestou: “Quando servimos aos pobres e aos enfermos, servimos a Jesus. Não devemos nos cansar de ajudar nosso próximo, porque neles servimos a Jesus” (cf. Novo Catecismo no. 2449).


O amor de Santa Rosa de Lima a Deus era tão ardente que, quando falava d’Ele, mudava o tom de sua voz e seu rosto se acendia como um reflexo do sentimento que embargava sua alma. Esse fenômeno se manifestava, sobre tudo, quando Rosa se falava na presença do Santíssimo Sacramento ou quando na comunhão unia seu coração à Fonte de Amor. Na linguagem do evangelho lido na festa desta Santa, Santa Rosa de Lima encontrou sua perola preciosa que é seu amor total por e para Deus.
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O evangelho lido na festa de Santa Rosa de Lima fala do tesouro ou de pérola preciosa. Do ponto de vista de um homem que busca o sentido de sua vida, o tesouro de sua existência ou de sua vida é como uma utopia: não sabe onde está, nem sequer sabe se está em algum lugar ou em nenhum lugar. A busca é um esforço para encontrar algo que não se tem. Quem busca reconhece uma carência de algo. É uma atitude humilde por si mesma.


Nesta busca o homem somente conhece a inquietude de seu coração, porque “onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21). Um homem que ainda não encontrou seu tesouro fica inquieto e busca incessantemente um sentido para sua vida. O coração errático do homem, sua vontade, pode, nestas circunstancias, fixar-se em qualquer coisa e agarrar-se a ela como se tivesse encontrado seu tesouro. Mesmo assim, ele continua inquieto, pois o tesouro do homem não é qualquer coisa. O homem pode ter tudo, mas se carecer o essencial, ele continuará inquieto.


A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida, carência que nos impulsiona a sair de nós mesmos e não repousará até que encontremos essa realidade que faz completo nosso ser. Por isso, não é a riqueza, nem o êxito, nem o poder, nem a fama, mas o próprio Deus é o tesouro supremo do homem que o faz completo. Escondido no nosso mundo, coberto pela carne crucificada de Jesus de Nazaré, perdido entre os pobres, identificado com eles, está o tesouro do homem. Jesus é o “lugar de Deus”, e o irmão, o próximo é o “lugar” de encontro com Jesus. O próximo se transforma, então, em ocasião de salvação. Não é nada que o homem pode alcançar por si mesmo e somente para si mesmo, pois ele foi feito por Deus e para Deus na convivência fraterna com os outros. Por isso, Santo Agostinho rezava: “... Senhor, inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Confissões I,1). O homem só se encontrará a si mesmo, somente chegará à sua plena realização na medida em que ele buscar e viver e conviver de acordo com o Amor que é Deus (cf. 1Jo 4,8.16).


Somente o Reino de Deus, o Reino de amor, descoberto como o supremo valor da existência, coloca o homem na possibilidade de descobrir o sentido dos restantes bens que se possui. A vida em Deus ou ser filhos e filhas de Deus é um valor incalculável, um dom do céu, e quem desfruta dele, por meio da fé, é um autentico afortunado. A possessão, desta forma, se apresenta como algo relativo. A experiência do amor de Deus relativiza o resto sem desprezar seu valor no seu próprio lugar. A partir deste tesouro que é O Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. Como aquele que encontrou a pérola preciosa foi capaz de colocar todas as demais coisas em uma escala justa de valores, de relativizá-las em relação com a pérola preciosa. E ele o fez com a extrema simplicidade porque, ao ter como pedra de comparação, a pedra preciosa, sabe compreender melhor o valor de todas as demais pedras.  Quem encontrar um valor supremo de sua vida, a experiência de fazer parte da família de Deus em Jesus Cristo não desprezará outros valores, mas colocá-los em seu devido lugar. O bem relativo pode ser, mais ou menos, importante para a satisfação das necessidades humanas, porém, deve ser sempre confrontado com o bem supremo que é a experiência do amor de Deus, a experiência de serem filhos e filhas de Deus. Desta forma, as parábolas do tesouro escondido e a pérola preciosa conectam com a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3).


O homem que encontrou o sentido de sua vida em Deus é um homem alegre e dinâmico, como os dois homens na parábola que encontraram seu tesouro. Por este tesouro, ele é capaz de se desprender de tudo, de se despojar de tudo, de compreender a fraqueza do outro, de perdoar, de reconciliar-se com todos, de ser justo e honesto nos seus negócios, de ser correto e coerente no seu modo de ser, pois sua vida é direcionada por este supremo valor. A busca do Reino de Deus modifica nosso esquema de vida e não pode ser levado adiante sem uma absoluta sinceridade de coração numa serenidade de oração.


Quem se gloria, glorie-se no Senhor. Pois é aprovado só aquele que o Senhor recomenda e não aquele que se recomenda a si mesmo”, escreveu São Paulo aos Coríntios que lemos na Primeira Leitura (2Cor 10,17-18).


Julgar-se melhor do que os outros pode ser uma expressão de vaidade e mentira, mas pode ser também uma franqueza. Para são Paulo as qualidades que uma pessoa tem devem ser usadas ou utilizadas para o serviço e a edificação da comunidade (cf. 1Cor 14,12). São Paula censura quem finge ter qualidades e se faz passar por mestre, sábio ou entendido. Este tipo de pessoa engana a comunidade, pois vive para aparecer e não para edificar a comunidade. Todas as qualidades ou dons têm sua origem em Deus e por isso, temos que colocá-los para a edificação da comunidade e não para a autopromação.


P. Vitus Gustama,svd

domingo, 20 de agosto de 2017

22/08/2017
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NOSSA SENHORA RAINHA
22 de Agosto
Primeira Leitura: Is 9,1-6
1 O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. 2 Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos. 3 Pois o jugo que oprimia o povo, — a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais — tu os abateste como na jornada de Madiã. 4 Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas. 5 Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz. 6 Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para todo o sempre. O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas.


Evangelho: Lc 1,26-38
Naquele tempo: 26 O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, 27 a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria 28 O anjo entrou onde ela estava e disse: 'Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!' 29 Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30 O anjo, então, disse-lhe: 'Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32 Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33 Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim'. 34 Maria perguntou ao anjo: 'Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?' 35 O anjo respondeu: 'O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra.  Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36 Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37 porque para Deus nada é impossível'. 38 Maria, então, disse: 'Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!' E o anjo retirou-se.
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Nossa Senhora Rainha


Celebramos hoje (22 de Agosto) a festa de Nossa Senhora Rainha. O título “Rainha”, dado a Maria, já começou na Idade Média que podemos encontrar em vários hinos que ainda são usados até hoje como: Salve Rainha (Salve Regina), Rainha do Céu (Regina Coeli Laetare), Ave Rainha dos céus (Ave Regina Coelorum). A Maria chama São Gregório Nazianzeno ‘Mãe do Rei de todo o universo’, ‘Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo’" (Ad Coeli Reginam n.11).


O título de Maria como Mãe Rainha não concorre com o título do Cristo Rei, porque não se situa no mesmo plano do ponto de vista bíblico, isto é, o titulo “Rainha” não pode ser entendido no plano de domínio, pois somente Cristo é o Rei do universo (cf. Mt 28,18). Maria recebe o titulo de “Rainha” por causa do atributo de sua maternidade divina. Maria é Rainha porque ela é mãe do Rei dos reis (cf. Is 9,1-6) e não por causa do domínio como Cristo, Rei do Universo. É uma transposição da dignidade materna para o plano de serviço, pois Maria é a discípula de Jesus, aquela que aceita plenamente a vontade de Deus para ser mãe do Salvador (cf. Lc 1,38).


O titulo “Rainha” dado a Maria se tornou oficial a partir do pedido de um movimento internacional chamado “Pela Realeza de Maria” que surgiu em Roma em 1933. Na verdade esse pedido já tinha feito antes em vários congressos marianos: Lião (1900), Friburgo (1902) e Einsiedeln (1906). Esse pedido ficou mais forte ainda quando para Cristo foi dado oficialmente o titulo de Rei em 1925. O movimento internacional “Pela realeza de Maria” recolheu petições do mundo inteiro para que fosse dado o titulo de “Rainha” para a mãe do Senhor, Maria.


O Papa Pio XII, em 1954, no centenário da definição do dogma da Imaculada Conceição proclamou o titulo “Rainha” para Maria, Mãe do Senhor na encíclica Ad Coeli Reginam (Para a Rainha do Céu).  Em 1955 o Papa Pio XII introduziu, então, oficialmente a festa da Rainha na liturgia da Igreja.


  •  “Assim, baseando-se nas palavras do arcanjo Gabriel, que predisse o reino eterno do Filho de Maria, e nas de Isabel, que se inclinou diante dela e a saudou como "Mãe do meu Senhor",(9) compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a Maria "mãe do Rei" e "Mãe do Senhor", dando claramente a entender que da realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência”, escreveu o Papa Pio XII ( Ad Coeli Reginam n.9).
  • A Maria chama s. Gregório Nazianzeno ‘Mãe do Rei de todo o universo’, ‘Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo’" (idem  n.11).
  • “Santo Afonso de Ligório, tendo presente todos os testemunhos dos séculos precedentes, pôde escrever com a maior devoção: ‘Porque a virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos reis, com justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha’" (idem n.24).
  • “Com vivo e diligente cuidado todos se esforcem por copiar nos sentimentos e nos atos, segundo a própria condição, as altas virtudes da Rainha do céu e nossa Mãe amantíssima. Donde resultará que os féis, venerando e imitando tão grande Rainha e Mãe, virão se sentir verdadeiros irmãos entre si, desprezarão a inveja e a cobiça das riquezas, e hão de promover a caridade social, respeitar os direitos dos fracos e fomentar a paz. Nem presuma alguém ser filho de Maria, digno de se acolher à sua poderosíssima proteção, se à exemplo dela não é justo, manso e casto, e não mostra verdadeira fraternidade, evitando ferir e prejudicar, e procurando socorrer e dar ânimo” (idem n. 47).
Os títulos da realeza de Maria são a sua união com Cristo como Mãe e a associação com o seu Filho Rei na redenção do mundo. Pelo primeiro título, Maria é Rainha-Mãe de um Rei que é Deus, o que enaltece Maria sobre todas as criaturas humanas; e pelo segundo título, Maria Rainha é dispensadora dos tesouros e bens do Reino de Deus, em virtude da sua participação na redenção.


Na instituição desta festa, o Papa Pio XII convidava os fiéis a aproximarem-se deste “trono de graça e de misericórdia da Nossa Rainha e Mãe para pedir-lhe socorro na adversidade, luz nas trevas e alívio nas dores e penas” (cf. Hb 4,16).


Através do evangelho lido neste dia sabemos que Deus se faz presente em meio de Seu povo por meio de uma mulher humilde e simples de um povo chamado Nazaré. A partir da visita do Anjo do Senhor Maria se torna a portadora da graça e da bênção de Deus.


Maria No Texto Do Evangelho Desta Festa


No evangelho de Luas, através da saudação do Anjo do Senhor, Maria é chamada de “cheia de graça”, expressão que primordialmente na linguagem bíblica do Antigo Testamento designa aos que são objeto de uma especial benevolência da parte de Deus, o que leva como conseqüência a abundância de bênçãos sobre sua pessoa. A partir dessa saudação sabemos que não há titulo maior para Maria que ser chamada de “cheia de graça”: a amada de Deus, amada pela graça, sem mérito.


A palavra “graça” designa o amor e o carinho com que Deus ama a seu povo pobre e simples; designa a fidelidade com que Deus sustenta Seu povo e com que Ele o acompanha. Deus ama porque quer amar e fazer o bem para o povo (não é uma retribuição ou recompensa por algum mérito do homem). Deus faz isso para que o povo simples e humilde descubra seu valor de pessoa. Além disso, Deus ama para que o povo comece a amar com um amor verdadeiro e comece a libertar-se de tudo que possa impedir a manifestação deste amor.


Maria vive simplesmente a sua fé e da sua fé e ora naturalmente, sem saber que Deus pôs nela os olhos complacentes para fazê-la Mãe do Rei dos reis, Jesus Cristo. Ela está tão cheia de graça até o anjo não a chama pelo nome, mas chama-a simplesmente “cheia de graça”: “Alegra-te, ó cheia de graça” (Lc 1,28). Na graça reside a completa explicação de Maria, a sua grandeza e a sua beleza. Maria pode fazer suas, em toda a verdade, as palavras do Apóstolo Paulo: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Cr 15,10). Maria, por isso, é cheia do favor divino.


Além disso, Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que através dela possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.


De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de fé e motivo de esperança e de alegria.


Maria é, também, modelo de nossa vocação cristã. Como ela aceitou a Palavra de Deus, deixou-se fecundar pela Palavra de Deus e acolheu em si o Espírito de Deus e gerou Cristo de sua carne, assim também cada um de nós, seguidores de Cristo há de realizar sua vocação aceitando docilmente a Palavra de Deus, deixando-se fecundar pela Palavra de Deus e acolhendo em sua vida o Espírito de Deus e continuando no tempo a encarnação de Cristo. Cada um tem a missão de levar Jesus e dá-lo ao mundo, pois o mundo espera pela salvação apesar de sua resistência.


Portanto, aprendemos de Maria a viver ao ritmo de Deus, deixando que Deus disponha livremente de nossa vida, segundo seu projeto de amor: “Faça-se!”. Aprendemos também de Maria a manter uma atitude que nem sempre é fácil: colocar Deus e os outros como centro. Maria é de Deus e do povo. Na terra e no céu Maria vive na comunidade e para a comunidade. Ela desempenha seu papel para o bem de todos, porque Cristo reina em cada um dos homens (cf. Mt 25,40.45). Aprendemos também a seguir o exemplo de Maria Imaculada, pois ela está cheia de graça para descobrirmos o mal que corrói o nosso coração e a convivência fraterna.


Todo aquele que honra a Senhora dos anjos e dos homens – e ninguém se julgue isento deste tributo de reconhecimento e amor – invoque esta rainha, medianeira da paz; respeite e defenda a paz, que não é maldade impune nem liberdade desenfreada, mas concórdia bem ordenada sob o signo e comando da divina vontade: tendem a protegê-la e aumentá-la as maternas exortações e ordens de Maria”, escreveu o Papa Pio XII (Ad Coeli Reginam n. 49).


Em algumas regiões da terra, não falta quem seja injustamente perseguido por causa do nome cristão e se veja privado dos direitos divinos e humanos da liberdade. Para afastar tais males, nada conseguiram até hoje justificados pedidos e reiterados protestos. A esses filhos inocentes e atormentados volva os seus olhos de misericórdia, cuja luz dissipa nuvens e serena tempestades, a poderosa Senhora dos acontecimentos e dos tempos, que sabe vencer a maldade com o seu pé virginal. Conceda-lhes poderem em breve gozar a devida liberdade e cumprir publicamente os deveres religiosos. E, servindo a causa do Evangelho – com o seu esforço concorde e egrégias virtudes, de que no meio de tantas dificuldades dão exemplo – concorram para o fortalecimento e progresso das sociedades terrestres”, disse o Papa Pio XII (Ad Coeli Reginam n. 48).

P. Vitus Gustama, svd

sábado, 19 de agosto de 2017

21/08/2017
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VIVER A VIDA FAZENDO O BEM PARA ALCANÇAR A FELICIDADE ETERNA


Segunda-Feira da XX Semana Comum


Primeira Leitura: Jz 2,11-19
Naqueles dias 11 os filhos de Israel fizeram o que desagrada ao Senhor, servindo a deuses cananeus. 12 Abandonaram o Senhor, o Deus de seus pais, que os havia tirado do Egito, e seguiram outros deuses dos povos que em torno deles habitavam, e os adoraram, provocando assim a ira do Senhor. 13 Afastaram-se do Senhor, para servir a Baal e a Astarte. 14 Por isso acendeu-se contra Israel a ira do Senhor, que os entregou nas mãos dos salteadores que os saqueavam, e os vendeu aos inimigos que habitavam nas redondezas. E eles não puderam resistir aos seus adversários. 15 Em tudo o que desejassem empreender, a mão do Senhor estava contra eles para sua desgraça, como lhes havia dito e jurado. A sua aflição era extrema. 16 Então o Senhor mandou-lhes juízes, que os livrassem das mãos dos saqueadores. 17 Eles, porém, nem aos seus juízes quiseram ouvir, e continuavam a prostituir-se com outros deuses, adorando-os. Depressa se afastaram do caminho seguido por seus pais, que haviam obedecido aos mandamentos do Senhor; não procederam como eles. 18 Sempre que o Senhor lhes mandava juízes, o Senhor estava com o juiz, e os livrava das mãos dos inimigos enquanto o juiz vivia, porque o Senhor se deixava comover pelos gemidos dos aflitos. 19 Mas, quando o juiz morria, voltavam a cair e portavam-se pior que seus pais, seguindo outros deuses, servindo-os e adorando-os. Não desistiram de suas obras perversas nem da sua conduta obstinada


Evangelho: Mt 19,16-22
Naquele tempo, 16 alguém aproximou-se de Jesus e disse: “Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?” 17 Jesus respondeu: “Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é o Bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos”. 18 O homem perguntou: “Quais mandamentos?” Jesus respondeu: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe, e ama o teu próximo como a ti mesmo”. 20 O jovem disse a Jesus: “Tenho observado todas essas coisas. Que ainda me falta?” 21 Jesus respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. 22 Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.
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Quando Deus Tem Lugar No Nosso Coração, Nossa Vida Se Torna Forte Para Superar As Dificuldades da Luta Diária


Sempre que o Senhor lhes mandava juízes, o Senhor estava com o juiz, e os livrava das mãos dos inimigos enquanto o juiz vivia, porque o Senhor se deixava comover pelos gemidos dos aflitos. Mas, quando o juiz morria, voltavam a cair e portavam-se pior que seus pais, seguindo outros deuses, servindo-os e adorando-os. Não desistiram de suas obras perversas nem da sua conduta obstinada”. É o resumo do que estava acontecendo com o povo eleito alguns anos depois da assembleia em Siquem que lemos do texto da Primeira Leitura tirado do livro de Juízes.


O livro de Juízes nos relata o período entre a conquista da terra prometida até a monarquia. Este livro não foi escrito por uma pessoa nem de uma só época.


O livro dos Juízes foi escrito para os israelitas dos séculos VIII e VII antes de Cristo, na época em que os israelitas experimentaram uma grave apostasia religiosa, transtornos sociais e situações políticas críticas. Segundo o(s) autor(es) do livro, a paz e a segurança nacional voltariam a Israel, se todos os israelitas confiassem novamente e de maneira exclusiva em Javé como havia acontecido nos tempos de Josué, seu antepassado. Isto significa que há sempre a esperança em Deus, pois Ele sempre está disposto a perdoar e a salvar o povo quando este se arrpende. O que tem por trá é uma chamado à conversão e à confiança no perdão.


Por isso, a obra segue o seguinte esquema teológico: Pecado (cometido pelo povo), castigo (vem de Deus em forma de fracassos militares na luta contra os inimigos no contexto da Primeira Leitura de hoje), arrependimento (vem do povo), libertação (vem de Deus, pois Ele é misericordioso e bondoso).


O livro em hebraico tem como o título “Shofetim” (shapat=juiz) que os LXX traduziram para o grego sob o título “Kritai”, juízes, de onde o título da Vulgata “Líber Iudicum”: “Livro dos juízes”. Mas o qualificativo de “Juizes” não corresponde propriamente à missão primordial destes heróis que consistia em salvar Israel ou uma tribu da opressão de seus inimigos e estabelecer a ordem política, mais ou menos comprometida. Por isso, o título mais apropriado, a partir da missão desses homens-heróis é o de libertador que corresponde ao sentido primitivo do verbo “shafat”: estabelecer, restabelecer, salvar.


A condição social destes homens-heróis é muito distinta. Alguns eram guerreiros, como Aod, Barac e Gedeão. Outros eram ricos proprietários, como Jair e Abdon. Outros ainda eram aventureiros, como Jefté, e heróis populares, como Sansão. Mas todos eles possuem um carisma ou uma marca divina: valor, sabedoria, habilidade ou força que lhes converte em chefes ou juízes salvadores de Israel.


O texto deste livro que lemos hoje na Primeira Leitura nos narra a infidelidade do povo à Aliança em forma de adorar os deuses locais (deuses dos cananeus) eservir a Baal e a Astarte”, os deuses da fecundidade.


Como consequência deste pecado vem o castigo medicinal de Deus: Deus “os entregou nas mãos dos salteadores que os saqueavam, e os vendeu aos inimigos que habitavam nas redondezas”.


Diante deste castigo o povo se arrpende e se dirige a Deus para pedir-Lhe perdão e ajuda. Deus, com um coração sempre cheio de misericórdia e amor: “O Senhor se deixava comover pelos gemidos dos aflitos”. O Salmo Responsorial (Sl 105,34-44) está na mesma linha de pensamento: “Quantas vezes o Senhor os libertou! Eles, porém, por malvadez o provocavam, mas o Senhor tinha piedade do seu povo, quando ouvia o seu grito na aflição”. Como a resposta concreta para o grito do povo Deus: “O Senhor mandou-lhes juízes, que os livrassem das mãos dos saqueadores”.


Com isto parecia que a coisa se remediava. Mas o mesmo livro nos conta que “quando o juiz morria, voltavam a cair e portavam-se pior que seus pais, seguindo outros deuses, servindo-os e adorando-os. Não desistiram de suas obras perversas nem da sua conduta obstinada”.


É uma verdade permanente: se não houver fidelidade, não haverá tampouco a Aliança possível com Deus. Não pode contar com ser amigo de Deus aquele que faz o mal voluntariamente, porque não existe medida comum entre Deus santo e justo e nossas injustiças e indignidades.


Mas por parte de Deus, a Aliança com a humanidade continua em pé. Esta é outra verdade permanente: a fidelidade incansável de Deus não renuncia nunca a querer salvar e perdoar que peca e se arrepende. Em Deus não há palavra cansaço para perdoar qualquer pessoa arrependida pelos pecados cometidos por maiorer e grave que eles sejam. Mas é preciso consentir e aceitar a graça oferecida por Deus.


Pero, por parte de Dios, la Alianza hecha con la humanidad sigue en pie. Esta es otra verdad permanente: la fidelidad incansable de Dios no renuncia nunca a querer salvar y perdonar. Pero es preciso consentir en aceptar esa gracia.


A dialética é a mesma. Somos débeis e voltamos às nossas andanças antigas de pecado por mais que ouçamos muitas vozes proféticas e boas orientações dos mais competentes e experientes na espiritualidade. Não acumulemos o negativo para não sofrermos terrivelmente mais tarde. Acumulemos para nossa vida o que é digno, certo, honesto, justo, correto e assim por diante para que cedo ou tarde sejamos pessoas mais felizes sobre a face da terra. Pensemos no bem e pratiquemos o bem para que o bem pense em nós e sejamos acumulados do bem. Não pensemos no mal para que o mal não pense em nós. Como no retiro ou no exercício da vida espiritual, precisamos fazer o exame de consciência para que não nos desviemos do caminho de Deus que é o caminho de nossa felicidade e de salvação. Acima de tudo, não nos esqueçamos que a bondade de Deus que não se cansa de nos amar e de nos perdoar continua à nossa disposição. Feliz seja quem sempre volta para a fonte da graça que nos dá a alegria de viver no Senhor permanentemente.


A Bondade Praticada Nos Aproxima Da Vida Eterna


Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.


Mestre, o que eu devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”. Esta é a pergunta de um jovem rico a Jesus. O jovem se aproxima de Jesus com entusiasmo e lhe faz essa pergunta fundamental que agora ninguém tinha feito. São João Crisóstomo comentou: “Todos se aproximam de Cristo ou para tentá-lo ou para obter dele a cura de alguma enfermidade deles ou de algum de seus familiares. Esse jovem se aproxima de Jesus para perguntar-lhe a vida eterna”. Até os próprios discípulos não fizeram essa pergunta a não ser para pedir alguma explicação. A pergunta do jovem aborda o sentido da existência humana e expressa todo seu desejo de comunhão com Deus.


“Mestre, o que eu devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”, pergunta um jovem rico a Jesus. Ele usa o verbo “possuir”, porque ele é um homem rico; é um homem acostumado a comparar para possuir. “Para possuir a vida”. Ele até quer ter na mão (possuir) a vida eterna mediante um ato de compra. Na verdade, a própria vida em si é um dom que deve ser recebida e vivida com gratidão. A existência de outros dons supõe a existência desse dom maior que é a vida. A vida é um dom, mas a minha maneira de viver a vida pode não estar de acordo com o dom. A vida, como dom, é bela, mas muitas vezes eu não sei me comportar bem diante desse dom ou não sei viver na gratidão. Tudo que eu sou e tenho é de Deus, menos o pecado. Quando se trata de um dom é porque estou em um mundo de gratuidade. O mundo da gratuidade me leva a viver a vida em ação de graças permanentemente. É ser pessoa eucarística.


Na sua resposta Jesus corrige a pergunta do jovem rico. Em vez de usar a palavra “possuir”, Jesus usa a palavra “entrar”: “Se queres entrar na vida eterna...”. Jesus quer lhe dizer: “Deus te oferece a vida, portanto não é que tu possas possuí-la e sim, se quiseres participar nela, observa os mandamentos; se quiser entrar nela pratique a bondade, já que tu me perguntas ‘o que eu devo fazer de bom...’”. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser e é a capacidade que possui num ser de dar a outro a perfeição que lhe falta. A bondade é a disposição natural a fazer o bem ou a trabalhar corretamente. Bondoso é quem se comporta com bondade. Quem tem bondade é porque tem amor.


O texto nos diz que o jovem rico observa todos os mandamentos. Mas ele insiste: “O que ainda me falta?”. Nesta pergunta percebemos algo importante de que por mais que alcancemos algo, sempre falta alguma coisa ou algumas coisas na nossa vida. Por melhores que nós possamos ser, sempre falta alguma coisa na nossa vida ou para nossa vida. Com efeito, nós somos o que somos e o que nos falta. Com efeito, não somos cristãos e sim estamos cristãos, isto é, estamos em processo para ser verdadeiros cristãos a exemplo do próprio Cristo.  Em nós há algo que exige de nós muito mais, que nos convida a fazermos um passo adiante, que exige profundidade de relações, relações pessoais com Deus e com os demais homens. O que falta em nós nos dá força para que possamos buscá-lo e pode nos inquietar.


Segundo Jesus, para entrar na vida definitiva o que se necessita não é a relação a um código (“o que deve fazer de bom”), mas a uma pessoa (Sl 145,9): “O Bom é um só”. A observância dos mandamentos é consequência dessa relação pessoal: os mandamentos são bons porque expressam a vontade do Supremo Bom que é Deus (Am 5,4.6.14-15; Mq 6,8). As normas ou as regras não produzem a graça. A graça é que produz regras para facilitar ou para orientar o homem no alcance da graça. Quando se vive na graça de Deus ou de acordo com o amor de Deus as regras cessam, pois pelo caminho de amor não há outro caminho. Enquanto estivermos na terra precisamos da fé. Mas, um dia, pela misericórdia divina, na face a face com Deus, não precisaremos mais da fé.


Na sua resposta Jesus diz ao jovem que ele deve desfazer-se de tudo o que tem sem esperança de retorno: “vender tudo e dar o dinheiro aos pobres”. Não somente “vender tudo”, porque o jovem poderia possuir o dinheiro, fruto da venda dos bens. Jesus exige dele muito mais: “dar aos pobres” tudo que é o fruto da venda dos bens. Deixada a segurança da riqueza ele encontrará outra segurança superior (Mt 6,25-34) que é o próprio Jesus que é o Caminho, a verdade e a Vida (cf. Jo 14,6). Por isso, em seguida Jesus acrescenta: “Depois, vem e segue-me”. Jesus chama-o à nova fidelidade, ao amor a todo homem, como o Pai do céu (Mt 5,48). A felicidade plena, a vida em abundância está na partilha, na solidariedade, na compaixão, no amor mútuo... A felicidade não se obtém na sua busca e sim na partilha. Para eu poder ser feliz, eu preciso fazer o outro feliz. Este é o paradoxo da vida autêntica.


O jovem não responde ao convite de Jesus. Vai-se triste, em sua mesma condição de jovem, incapaz de chegar à maturidade. Ele ouviu a mensagem de Jesus, mas a sedução das riquezas o afogou (cf. Mt 13,22). A riqueza governa o coração do jovem. Embora deseje a vida eterna, o jovem não vai atrás dela para encontrá-la. O defeito moral não se define pelo mal que se intenta, mas pelo bem que se abandona” (Santo Agostinho. De civ. Dei. 2,8). A riqueza, quando não se considera como meio, mas como fim, sufoca as relações fraternas, sociais, familiares e sufoca o crescimento espiritual de quem a tem. “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos” (Santo Agostinho. Serm. 121,1). Os bens materiais continuam a ser alheios a nós. Eles jamais serão nossos próximos. O ser humano é sempre nosso próximo com quem podemos conversar, contar nossas histórias, nossas vitorias e nossas falhas na vida, para desabafar, rir juntos que torna a vida mais leve. “Se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que o faz?” (René Juan Trossero, escritor e psicólogo argentino). Santo Agostinho dizia: “A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que se ama e sim em amar o que se deve possuir” (In ps. 26,2,7).


Saber renunciar às coisas materiais é ser rico. Dar ou partilhar é a manifestação da riqueza. Segurar egoisticamente, sem partilha, é a expressão do pobreza interior. Para possuir o Tudo temos que aprender a deixar tudo. Posso possuir as coisas, mas jamais as coisas podem me possuir para que eu possa manter minha liberdade e leveza na vida. O apego exagerado aos bens materiais é um terrível empecilho para o seguimento de Jesus. A dinâmica deste seguimento vai exigindo rupturas sempre mais radicais dos bens deste mundo. É preciso usarmos as coisas que passam e abraçarmos as coisas que não passam. Quem não está livre para fazê-las, ficará na metade do caminho, como o jovem rico no evangelho lido neste dia. O caminho da perfeição passa pela liberdade de coração, em relação aos bens deste mundo, para buscar Deus e solidarizar-se com os mais necessitados. É assim que se chega à vida eterna. Um homem que não cresce diariamente regride um passo cada dia.


“O que devo fazer para entrar na vida eterna” e “O que ainda me falta?”. São duas perguntas que devem ser respondidas por cada um de nós diariamente. Nós somos o que somos e o que nos falta, pois o nosso ideal é bastante alto: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito” (Mt 5,48). Eu estou sendo o que devo ser para chegar a ser o que, na verdade, sou. Eu não posso me distancias, cada vez mais, daquilo para o qual devo ser. Sano Agostinho dizia: “Não andes averiguando quanto tens, mas o que tu és. Dentro do coração sou o que sou” (Serm. 23,3; Cof. 10,3).

P.Vitus Gustama, svd

sexta-feira, 18 de agosto de 2017



Domingo, 20/08/2017

Nesta página há duas reflexões:
1. Sobre a Assunção de Nossa Senhora (para os lugares em que esta festa é celebrada neste domingo).

2. Reflexão do XX Domingo do Tempo Comum Ano "A" (Para os lugares em que a festa da Assunção de Nossa Senhora foi celebrada no dia 15 de agosto).
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ASSUNÇÃO DE MARIA, MÃE DO SENHOR, AO CÉU



I Leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab
19ª Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a Arca da Aliança. 12,1 Então apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. 3 Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas. 4 Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O Dragão parou diante da Mulher, que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse. 5 E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. 6ª A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. 10ab Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo”


II Leitura: 1Cor 15,20-27a
Irmãos: 20Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. 21Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. 22Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. 23Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. 24A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. 25Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. 26O último inimigo a ser destruído é a morte. 27aCom efeito, “Deus pôs tudo debaixo de seus pés”.


Evangelho: Lc 1,39-56
Naqueles dias, 39 Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46 Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47 e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49 porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50 e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o respeitam. 51 Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52 Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54 Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55 conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56 Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.
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I. Sobre o Culto a Maria, Mãe do Senhor


O culto é um ato de honra, reverência, estimação e louvor que se presta a uma pessoa ou à divindade. Literalmente a palavra “culto” vem do latin “colere” que significa encontro com o divino, geralmente no quadro de determinadas formas. É evidentemente vasto o significado da palavra “encontro”. Conforme o conteúdo do encontro mudam também as suas formas, variados são os lugares, os tempos, as intenções, os efeitos, os executores, o círculo dos participantes e a intensidade da participação. Temos o culto cívico, patriótico, religioso etc....


Em sentido estrito, o culto é só a Deus que se tributa pela sua excelência infinita; podemos, no entanto, tributá-lo, indiretamente aos santos pela estreita união que têm com Deus. Por isso, o culto pode ser de latria (adoração) que se presta unicamente a Deus em reconhecimento da sua excelência e do seu domínio supremo sobre todo o universo. Pode ser o de dulia (veneração) que se tributa aos santos em reconhecimento da sua vida de entrega e união a Deus. Dulia é conseqüência do dogma da comunhão dos santos como professamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos...”.


Pode ser o culto de hiperdulia (veneração especial) que se presta a Maria Santíssima, reconhecendo a sua dignidade de Mãe de Deus (declaração do Concílio de Éfeso em 431; cf. LG no. 53 do Concílio Vaticano II). Por ser criatura, não se pode prestar-lhe o culto de adoração (cf. LG no. 62). Só assim, evita-se o perigo da “mariolatria” e os excessos na devoção mariana. Por “mariolatria” entendemos exatamente o atribuir em surdina à Virgem Maria o culto devido a Cristo. Se Maria não permanecer o ostensório, onde tudo brilha para o Cristo, estaremos depreciando a verdadeira glória de Maria.


A glória de Maria reside no insondável mistério de sua concepção corporal e espiritual de Cristo, na aspiração de todo o seu ser pelo único mediador, Cristo Jesus.  Cristo é que faz compreender Maria e não Maria que nos faz compreender Cristo. Maria não é um elo que une o homem a Deus, mas o seio que gera todos os irmãos de Cristo (cf. Jo 19,26-27). O encontro com Cristo faz-se nela. Toda a vida mariana é essencialmente cristocêntrica. Mas por ser a mais excelsa de todas as criaturas, acima de todos os anjos e santos, presta-lhe culto de especial veneração. Na santa Igreja ela ocupa o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós (LG no. 54). Ao sabermos disso, a devoção mariana em nada afasta de Cristo. Nem substitui nossa obrigação diante dele. A veneração de Maria no culto litúrgico não é acréscimo e excrescência, nem tampouco implica diminuição do culto a Cristo, porque a graça do Filho resplandece em sua Mãe mais que em qualquer outro membro do corpo do Senhor.     

Devemos estar conscientes de que a devoção mariana é um verdadeiro culto. Situa-se num plano mais elevado em razão do excepcional lugar de Maria na ordem da graça e da vida cristã. Por isso, temos dogmas marianos, mas não temos dogmas de tal ou qual santo. Isso dá ao culto mariano uma amplidão que outras devoções não têm, nem mesmo o culto aos santos em geral. Se nossas orações sobem ao Pai pelo Filho na medida em que elas são objetivamente no fiat de Maria, elas ganharão em intensidade e eficácia se as engajamos pessoalmente na oração todo-poderosa de Maria.


II. Sobre a Assunção de Maria


No calendário litúrgico temos as quatro solenidades nas quais Maria é protagonista: 1 de janeiro: Maternidade Divina; 8 de dezembro: Imaculada Conceição; 15 de agosto: Gloriosa Assunção; 25 de março: Anunciação do Senhor. Duas delas têm referencias mais cristológicas: maternidade e anunciação. E outras duas têm mais eclesiológicas: conceição e assunção. É claro que toda festa mariana é cristológica: em função de Cristo Salvador. Mas com esta distinção quer-se enfatizar um fator exemplar de Maria que é importante para a Igreja: ela é a primeira redimida (imaculada conceição) e é a primeira glorificada (assunção).


A proclamação do dogma da Assunção de Maria à glória dos céus, em alma e corpo, pertence ao século XX: foi declarado solenemente por Pio XII em 01 de Novembro de 1950 na bula Munificentissimus Deus. (Deus Generosíssimo)  


No entanto, a liturgia da Igreja universal, tanto no Oriente quanto no Ocidente, celebrou por muitos séculos esta convicção de fé.  No século V celebrava-se em Jerusalém no dia 15 de agosto uma festa importante que tinha por objeto a excelência da pessoa da Mãe de Deus, eleita por supremo conselho para desempenhar uma missão muito especial na história da salvação. Entre o V e VI século, a narração apócrifa sobre o Trânsito de Maria da vida terrena à glória eterna alcançou uma difusão extraordinária: a conseqüência foi o desejo natural dos peregrinos que ocorriam a Jerusalém de honrar o túmulo da Virgem. Durante o século VII, com o nome de Assunção foi acolhida na Igreja de Roma, juntamente com as festa da Apresentação, Anunciação e Natividade, para as quais o Papa Sérgio I (+ 701), instituiu uma procissão preparatória para a missa, celebrada na Santa Maria Maior. No fim do século VII encontra-se uma antiga oração romana composta para a procissão que introduz a celebração mariana do dia 15 de agosto: “Venerável é para nós, Senhor, a festa deste dia em que a Santa Mãe de Deus sofreu a morte terrena, mas não permaneceu nas amarras da morte, ela que, do próprio ser, gerou, encarnado, o teu Filho, Senhor nosso” (Sacramentário Gregoriano Adrineu, no.661)


A bula da definição dogmática (Munificentissimus Deus) não fala de argumentos bíblicos, pois a Escritura não afirma a Assunção de Maria. Discute-se se Maria morreu ou não. Por isso, o texto dogmático, cautelosamente, diz “terminado o curso de sua vida terrestre”. Nós, por isso, afirmamos que Maria morreu, pois só assim se pode falar, verdadeiramente, de ressurreição, porquanto somente um morto pode ressuscitar. Maria morreu pelo fato natural da morte que pertence à estrutura da vida humana, independentemente do pecado. Maria, livre e isenta de todo o pecado, pôde integrar a morte como pertencente à vida criada por Deus. A morte não é vista como fatalidade e perda da vida, mas como chance e passagem para uma vida mais plena em Deus.


Além disso, Maria participa na economia da redenção pelo fato de ser a Mãe do Senhor (Lc 1,43). Ela se associou totalmente ao destino de seu Filho. A redenção implica sempre a colaboração de quem a recebe. Maria colaborou admiravelmente na própria salvação. Já por este título ela é o modelo original de quantos recebem a salvação, o modelo de todos os redimidos. Como tal, ela já tem um significado universal de salvação. É o protótipo da vida redimida, a plena e perfeita realização, a imagem ideal de toda a vida cristã. Por sua vida e morte Jesus nos libertou. Por sua vida e morte Maria participou desta obra messiânica e universal. A co-redenção significa a associação de Maria tanto à cruz de Jesus como à sua ressurreição e exaltação gloriosa ou ascensão. Esta razão teológica tem o seu fundamento no triunfo de Cristo sobre a morte, de que faz participantes todos os cristãos por meio da fé e do batismo.


Maria foi assunta ao céu em corpo e alma. Aqui não se trata de dogmatizar um esquema antropológico (corpo e alma). Utiliza-se esta expressão, compreensível à cultura ocidental, para enfatizar o caráter totalizante e completo da glorificação de Maria. Maria vê-se envolvida na absoluta realização.  “Assunta ao céu”, ela se nos apresenta como as primícias da redenção, tendo já consumado em si o que ainda se realizará em nós e na Igreja. O corpo de Maria, enquanto ela perambulava por este mundo, foi somente veículo de graça, de amor, de compreensão e de bondade. Não foi instrumento de pecado, da vontade de auto-afirmação humana e de desunião com os irmãos.  O corpo é forte e frágil, cheio de vida e contaminado pela doença e morte. Por isso, é exaltado por uns até a idolatria e odiado por outros até a trituração. Maria vive e goza, no corpo e na alma, quer dizer na totalidade de sua existência, desta inefável realização humana e divina.


O Papa Paulo VI resume o sentido da festa com estas palavras: “A solenidade de 15 de agosto celebra a gloriosa Assunção de Maria ao céu; festa do seu destino de plenitude e de bem-aventurança, da glorificação da sua alma imaculada e do seu corpo virginal, da sua perfeita configuração com Cristo Ressuscitado. É uma festa, pois, que propõe à Igreja e à humanidade a imagem e o consolante penhor do realizar-se da sua esperança final: que é essa mesma glorificação plena, destino de todos aqueles que Cristo fez irmãos, ao ter como eles "em comum o sangue e a carne" (Hb 2,14; cf. Gl 4,4)” [Marialis Cultus, n. 6].


A partir desta exortação podemos dizer que a Assunção de Maria é a realização da utopia humana, isto é, aquilo que o homem sonha, aquilo que o homem aspira, aquilo que responde maximamente à vontade de Deus. Em Maria a humanidade chega ao maior esplendor da existência humana, à beleza suprema do ser. Em Maria encontramos a melhor resposta, a melhor realização da vida de uma pessoa humana: sua glorificação. Maria nos revela até onde pode chegar a cooperação entre Deus e a humanidade. Diante do mistério de Cristo, Maria se deixa levar pelo Espírito Santo, e inventou cada dia novas respostas.


Para Maria a assunção significa o definitivo encontro com seu Filho que a precedeu na glória. Mãe e Filho vivem um amor e uma união inimaginável. Maria agora vive aquilo que nós também iremos viver quando atingirmos o céu. Enquanto peregrinamos, Maria atua como imagem que recorda e concretiza o nosso futuro. Em cada um que morre no Senhor se realiza aquilo que ocorreu com Maria: a ressurreição e a elevação ao céu.

Andando por entre as tribulações do tempo presente, erguemos os olhos ao céu e rezamos: Salve Maria, vida, doçura e esperança, salve! Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Doce mãe da esperança, em quem apareceu o futuro do mundo e nos foi antecipada e prometida a glória do tempo futuro, ajuda-nos a ser peregrinos na esperança a caminho da unidade futura do Reino, sem pararmos diante das resistências e das canseiras, antes nos empenhando, com fidelidade e paixão, em levar no presente os homens ao futuro da promessa de Deus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém!

Algumas mensagens da leitura evangélica desta festa

1.      As palavras de saudação e agradecimento dirigidas por Isabel a Maria despertaram nela uma maravilhosa profissão de fé. Coisa semelhante acontece com cada um de nós. Lemos ou escutamos a Palavra de Deus ou lemos um bom livro espiritualmente. E quantas vezes tudo isso nos toca o coração e faz brotar dos lábios uma oração de louvor. Maria reconhece que o amor misericordioso do Senhor a tocou; e tocando-a, tocou a humanidade inteira. Por isso é que Isabel a proclama “bem-aventurada”. Por Maria e nela, todos os homens reconhecem o amor infinito e misterioso de Deus(Jo 3,16). Todos nós temos necessidade de que um outro nos revele a nós mesmos. É grande graça na vida de uma pessoa encontrar um mestre de espírito que lhe indique o seu nome, a sua vocação, a sua missão.

2.    Na anunciação Maria tornou-se a primeira discípula, entre os primeiros cristãos, ouvindo a Palavra de Deus e aceitando-a . Na Visitação, ela se apressa em partilhar esta palavra do evangelho com os outros e, no Magnificat, temos sua interpretação dessa palavra que se assemelha à interpretação que seu Filho tinha dado em seu ministério. A primeira discípula cristã exemplifica a tarefa essencial de um discípulo. Depois de ouvir a Palavra de Deus e aceitá-la, devemos reparti-la com os outros, não simplesmente repetindo-a, mas interpretando-a, de modo que todos possam vê-la como uma Boa Nova.

3.    Neste Magnificat Deus é proclamado como “Santo”. Santo significa aquele que está para além de tudo quanto pudermos pensar e imaginar; é totalmente outro que habita numa luz inacessível(v.49). Mas não vive numa soberana distância dos gritos dolorosos de seus filhos, pois este Deus santo é também misericordioso. Possui um coração sensível aos míseros e protesta contra a injustiça e a exploração e opressão. O texto chama-nos a atenção que os orgulhosos, os detentores do poder e os ricos fechados para si não possuem a última palavra como sempre pretendem, pois cada um tem que prestar contas diante de Deus. Alguém pode escapar da justiça humana, mas sobra a justiça divina. Aí é que ninguém escapa.  Pela sua fé no poder ilimitado de Deus (v.37), Maria reconhece que a situação provocada pela prepotência, opressão e exploração não é desejada por Deus e, por isso, espera que não seja definitiva. Esta intervenção de Deus é vista como um ato de fidelidade para com o povo da aliança.

4.    O Deus a quem o Magnificat proclama está orientado para os homens, em especial para os fracos, os pobres, os infelizes, os desgraçados, os oprimidos; privilegia o humilde, o humilhado, aqueles aos quais não se concede o direito à existência. Quem reconhece a Deus como seu Senhor, deve estimar todo homem como irmão.
          
Como Maria, estamos convencidos de que tudo é possível para quem crê (Lc 1,37; Mc 9,23).

P. Vitus Gustama,svd
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FÉ AUTÊNTICA RESISTE DIANTE DE QUALQUER DIFICULDADE

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

I Leitura: Isaías 56, 1.6-7
1Eis o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. 6Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, 7hei-de conduzi-los ao meu santo monte, hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos».

II Leitura: Romanos 11, 13-15.29-32
Irmãos: 13É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério 14a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. 15Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? 29Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. 30Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. 31Assim também eles desobedeceram agora, devido à misericórdia que alcançastes, para que, por sua vez, também eles alcancem agora misericórdia. 32Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.

Evangelho: Mt 15,21-28
Naquele tempo, Jesus retirou-Se para a região de Tiro e Sidônia. E eis que, uma mulher Cananéia daquela região, veio gritando: «Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim: a minha filha está cruelmente endemoninhada». Ele, porém, nada lhe respondeu. Então os seus discípulos aproximaram-se dele e pediram-Lhe:  «Despede-a, porque ela vem gritando atrás de nós». Jesus respondeu:  «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher aproximando-se, prostrou-se diante d’Ele, e pôs-se a rogar: «Socorre-me, Senhor».  Ele respondeu: «Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, grande é a tua fé! seja feito como queres! ». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.
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Através do episódio do evangelho de hoje Mateus dá um passo importante para frente, pois a cena não tem lugar em Israel e sim no território estrangeiro: na região de Tiro e Sidônia, na região pagã. Em termos de sociologia religiosa judaica isto significa que a cena se desenvolve no território pagão. Toma corpo assim o que Mateus tinha insinuado quando, ao apresentar a atividade de Jesus, citava o texto de Isaias que fala da Galiléia dos pagãos (Mt 4,15). Os pagãos estão agora aqui, representados pela mulher Cananéia que vivia na atual Líbano. É chamada de “cananéia”. Este termo é bastante negativo para um judeu por quanto encarna tudo o que é de sedutor e perigoso para a fé javista.

O texto está cheio de surpresas. A primeira surpresa: uma estrangeira dá a Jesus o título tipicamente judeu: “Filho de Davi” e “Senhor”. A mulher proclama Jesus como “Filho de Davi”, isto é, como Messias prometido a Israel. Com este titulo Mateus introduziu a ascendência de Jesus na genealogia (Mt 1,1). Além desse titulo, a mulher vê em Jesus o Salvador e O proclama “Senhor”.  Somente quem tem fé pode invocar a Jesus como “Senhor”. Trata-se de um título pós-pascal.

Seja quem for este Messias, tão falado pelos judeus (“Filho de Davi”), ela reconhece humildemente que Deus é capaz de operar nele e através dele em função da libertação ou da salvação do povo. Ela não se considera nada, a não ser uma mulher com o coração cheio de dor por sua filha atormentada, e com a alma iluminada pela esperança tão certa, porque Deus nunca abandonará os que O procuram com simplicidade e sinceridade. Com toda a grandeza ela se entrega a Cristo que é o Senhor, o Salvador. Ela está necessitada; o Senhor e somente o Senhor pode ajudá-la.

A segunda surpresa é o silêncio de Jesus diante do grito da mulher, primeiro, e sua resposta, depois, para a demanda dos discípulos (Mt 15,23): “Eu fui enviado somente para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Esta resposta é repetição do mandato de Jesus aos Doze, no discurso sobre a missão, ao dizer-lhes: “Não deveis ir aos territórios dos pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (Mt 10,5-6).

O aparente silêncio de Deus diante de nossos problemas não significa Sua ausência e Sua insensibilidade. O aparente silêncio de Deus é o momento precioso para entrarmos numa reflexão profunda. Além disso, pode ser que nesses momentos sejamos purificados de tudo para que possamos gritar com mais fé apesar dos obstáculos, a exemplo da mulher cananéia.

A terceira surpresa é a apresentação da mulher no v. 25 com o gesto típico judeu de adoração a Deus, gesto característico no evangelho de Mateus para expressar a atitude de um crente diante de Jesus. A mulher considera Jesus como Deus e por isso, ela se prostra diante de Jesus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou a implorar...”. E pediu: “Senhor, ajuda-me!”. Ela já é uma só coisa com sua filha. Ela se identifica totalmente com a dor e o tormento de sua filha. É uma verdadeira mãe! Para essa mãe, sua filha é ela mesma: “Senhor, socorre-me!”, em vez de dizer “Senhor, socorre minha filha”.

A quarta surpresa é a resposta de Jesus à mulher: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15,26). Jesus faz seu o termo depreciativo “cachorro/cachorrinho” que os judeus aplicavam aos pagãos/ estrangeiros. O rabino Eliezer dizia: “Quem come com um idólatra é como quem come com um cachorro”. É difícil encontrar em qualquer dos quatro evangelhos uma imagem de Jesus tão judia como a que nos oferece Mateus neste texto. Será que ele aceita este termo ou está fazendo alguma ironia? Escutamos a frase fora do território judeu onde Jesus se encontra. É a frase que traz um questionamento sobre a tradição judaica. A lógica da encarnação está aqui levada ao máximo de identificação com a história concreta do povo.

A quinta e a ultima surpresa é a reação da mulher pagã que não aspira a suplantar, mas simplesmente a participar: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27).

Essa mulher não desiste nem é amedrontada. Seu amor de mãe espera contra toda esperança porque sabe captar nas palavras de Jesus uma nota de bondade. Jesus não a trata com apelido “cachorro” e sim com um apelido mais suave: “cachorrinhos”. Ela quer dizer: “Deixa que me alimente do que cai da mesa onde está o pai com os filhos; faz que também eu seja parte da família!”. E a mulher Cananéia, que não é membro do Povo de Deus, encarna o ideal do que deve ser um membro do Povo de Deus.

Todo este conjunto de surpresas no texto de Mateus tem uma função de preparar e de ressaltar a frase final de Jesus: “Ó mulher, grande é tua fé!”. É a frase que o leitor de Mateus pressentia e esperava. A frase que ratifica a queda do muro de separação entre judeus e pagãos. Um mundo religioso fechado em si mesmo fica aqui superado e derrubado para dar lugar a outro mundo de todos e para todos. São Paulo expressa muito bem esse pensamento ao escrever: “Não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam, porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10,12-13; Jl 3,5).

Vale a pena fixar-se na capacidade de admiração de Jesus diante da fé dos pagãos. Jesus não duvida em afirmar: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10). Fé, aqui, é confiança, é abertura a sua pessoa e a seu poder. E esta fé, que se dirige a Jesus, tem seu motor e extrai sua força da própria necessidade: a situação da filha “endemoninhada” (Mt 15,22), e o empregado que “está em cama paralitico e sofre muito” (Mt 8,6). Desde nossas situações vitais é que vamos a Jesus e confiamos nele, como a cananéia. Aprendamos a nos admirar da fé dos que estão fora da Igreja, da gente simples. E fiquemos atentos porque a fé pode estar ausente entre os próprios cristãos: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10), disse Jesus sobre a fé de quem não pertence ao povo eleito. É uma grande ironia: os que se dizem crentes, têm pouco fé. Os que são considerados “pagãos”, têm tanta fé. afinal, quem é o verdadeiro pagão?

Ó mulher, grande é tua fé!”. Esta frase rompe os esquemas religiosos até agora vigentes no Povo de Deus. A partir daqui já não tem sentido falar do Povo de Deus num sentido limitado de etnia ou nação; já não há “cachorrinhos” nem amos, judeus nem gregos, servos nem livres, varões nem mulheres (cf. Rm 10,12; Gl 3,28). Nacionalidade, condição social e sexo ficam eliminados como fatores determinantes de pertença ao Povo de Deus. A própria escolha da mulher como protagonista do relato é um fato em si mesmo significativo. Se alguém não tinha voz no interior do Povo de Deus, eram precisamente as mulheres. Escolhendo uma mulher, primeiro; estrangeira, depois; e cananéia por último, Mateus acaba com todos os esquemas até então vigentes. A partir de agora o que determina a pertença ao Povo de Deus é a fé em Jesus, a adesão à sua Pessoa, a vivência de seus ensinamentos. Não nos esqueçamos nunca, no contexto de Mateus, de que esta fé significa a relativização da Lei e da Tradição, importantes e necessárias, por suposto, mas nunca prioritárias nem com valor de absolutos. Esquecer esta relativização tem o risco, entre outros, de reduzir a fé em Jesus a um pietismo pessoal.

Muitas pessoas estão fora da Igreja porque ainda não sabemos acolhê-las, porque lhe exigimos uma mudança de cultura, de atitude diante da vida que nem mesmo Cristo pediu isso dos seus parceiros de diálogo.

“Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!”. É uma oração de petição que sai de uma fé profunda em que Deus pode fazer o que se pede e de uma confiança ilimitada no que Deus fará alguma coisa para resolver o problema existente. A fé é o distintivo essencial do cristão, além do amor (cf. Jo 13,35). É uma fé que recebe o que quer, porque o que quer é a vontade de Deus. Esta mulher não desiste diante dos obstáculos. Ela está na linha que Jesus ensinou anteriormente: “pedi..., buscai..., chamai/batei a porta...,” (Mt 7,7-8). São estes três aspectos (pedir, buscar, bater a porta) que definem substancialmente o homem. Daí a necessidade de “lutar” com Deus no terreno de uma oração perseverante. A Cananéia obteve o que pedia porque se manteve nessa atitude de essencial pobreza. Por causa de sua perseverança, cumpre-se nela a Palavra de Deus: “recebereis..., achareis/encontrareis..., a porta será aberta...,” (Mt 7,7-8). “Pedindo as migalhas que caem da mesa, logo a mulher se encontrou sentada à mesa”, comentou Santo Agostinho. Três aspectos que definem Deus: receber, encontrar e a porta será aberta. Deus e o homem estão postos frente a frente e cada um faz o que lhe é próprio: o homem com sua pobreza do essencial e Deus com a abundância de sua graça e benção para o homem aberto diante da providência divina.

Deus não pretende demonstrar que é um Criador poderoso e sim um Pai amoroso e misericordioso. Por ser Pai, Deus quer estar próximo de cada pessoa e de suas necessidades. Ele quer consolar e salvar. Mais que a admiração intenta provocar a confiança e o amor. Por isso, suas intervenções preferentemente têm lugar em contatos pessoais. Um caso é o da mulher Cananéia. É uma mãe pagã que pede a ajuda de Jesus em favor de sua filha. Na verdade ela é uma pessoa cheia de fé que se dirige a Jesus no convencimento de que Ele é o Enviado de um Deus que é Pai para todos. A oração dessa mulher foi atendida.

Jesus, ao elogiar a fé da mulher e curar sua filha, quer nos mostrar que para ele a fé tem uma força superior a qualquer delineamento ou prejuízo: a fé salva sempre. Ali onde há a fé, Jesus atua. E fé, aqui, significa convencimento de que Jesus é a Vida e o Caminho (cf. Jo 14,6) e confiança nele. Esta fé é que Jesus busca em cada um de nós. A mulher cananéia nos assinala o caminho para esta fé: a absoluta confiança em Jesus Cristo. É uma confiança que não necessita de nenhuma condição prévia; é uma fé que vai além do que pedimos para chegar à Pessoa de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Hoje somos convidados a examinar se nossa fé é verdadeira e firme, se temos Jesus presente em nossa vida, se confiamos nele em qualquer situação de nossa vida. Ao mesmo tempo somos convidados a examinar possíveis desvios: confiar demasiadamente em outras coisas (seja nossos bens materiais, sejam nossas “boas obras” etc.) ou se negamos o direito que o outro tem para expressar sua fé de modo distinto ao nosso.
P.Vitus Gustama, svd

Para Refletir:

ALGUMAS FRASES SOBRE A FÉ DA CARTA ENCÍCLICA LUMEN FIDEI DO PAPA FRANCISCO:
  1. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo.
     
  2. A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas.
     
  3. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus.
     
  4. « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem.
     
  5. A fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno.
     
  6. O homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direção.
     
  7. Por isso, urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem.
     
  8. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus.
     
  9. A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.
     
  10. A fé “vê” na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus.
     
  11. O contrário da fé é a idolatria. O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. A idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto.
     
  12. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal.
     
  13. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.