quarta-feira, 18 de outubro de 2017

20/10/2017

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SER VERDADEIRO DISCÍPULO E TESTEMUNHA DE JESUS SEM MEDO
Sexta-Feira Da XXVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Rm 4,1-8
Irmãos, 1 que vantagem diremos ter obtido Abraão, nosso pai segundo a carne? 2 Pois se Abraão se tornou justo em virtude das obras, está aí seu motivo de glória... mas não perante Deus! 3 Com efeito, que diz a Escritura? “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. 4 Ora, para quem faz um trabalho, o salário não é creditado como um presente gratuito, mas como uma dívida. 5 Porém, para a pessoa que, em vez de fazer um trabalho, crê naquele que torna justo o ímpio, a sua fé lhe é creditada como atestado de justiça. 6 É assim que Davi declara feliz o homem a quem Deus credita a justiça independentemente das obras: 7 “Felizes aqueles cujas transgressões foram remidas e cujos pecados foram perdoados; 8 feliz o homem do qual Deus não leva em conta o pecado”.

Evangelho: Lc 12,1-7
Naquele tempo, 1 milhares de pessoas se reuniram, a ponto de uns pisarem os outros. Jesus começou a falar, primeiro a seus discípulos: “Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 2 Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido. 3 Portanto, tudo o que tiverdes dito na escuridão, será ouvido à luz do dia; e o que tiverdes pronunciado ao pé do ouvido, no quarto, será proclamado sobre os telhados. 4 Pois bem, meus amigos, eu vos digo: não tenhais medo daqueles que matam o corpo, não podendo fazer mais do que isto. 5 Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de tirar a vida, tem o poder de lançar-vos no inferno. Sim, eu vos digo, a este temei. 6 Não se vendem cinco pardais por uma pequena quantia? No entanto, nenhum deles é esquecido por Deus. 7 Até mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.
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Com a Fé Incondicional Em Deus, Como Abraão, o Homem É Justificado Por Deus

Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça...”. É a citação do livro de Gênesis (Gn 15,6) que São Paulo usa para defender sua tese no texto anterior, em Rm 3,28 onde podemos ler: “Com efeito, julgamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei judaica”.

Um exemplo do qual São Paulo gosta muito e que repete em suas cartas é o exemplo de Abraão. Desta vez, São Paulo mostra como foi a fé de Abraão, e não as “obras da Lei”. Quando Deus escolheu Abraão e lhe deu a missão de ser cabeça de seu povo e ao mesmo tempo bênção para todas as nações da terra, Abraão era pagão. Não podia apresentar para Deus “as obras” que realizava, pertencendo a um povo idólatra. Mas aceita o plano que Deus lhe propõe. Este é o que faz Abraão agradável a Deus: sua fé: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”.

Graças à sua fé em Abraão é eliminada a vanglória: “Irmãos, que vantagem diremos ter obtido Abraão, nosso pai segundo a carne? Pois se Abraão se tornou justo em virtude das obras, está aí seu motivo de glória... mas não perante Deus!”. Em outras palavras, Abraão é justificado por Deus pela sua fé incondicional n´Ele. A fé incondicional em Deus leva Abraão a fazer aquilo que é impossível do ponto de vista humano: sacrificar o próprio filho único por ordem de Deus, embora não tenha sido realizado por Abraão pela ordem do mesmo Deus (cf. Gn 12,1-19).

A passagem de Gn 15,6 que fala da fé de Abraão serve para São Paulo como a prova principal em favor do argumento sobre a justificação: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. Aqui não se fala do mérito de Abraão, mas da doação da justiça por Deus em virtude da fé de Abraão. É claro que aqui há dom da fé da parte de Deus e a resposta para este dom da parte do homem. Deus pede a Abraão para acreditar n´Ele apesar de não ver as evidências, e Abrão deposita sua fé na Palavra de Deus apesar da obscuridade humana, como aconteceu também com Maria, a Mãe do Senhor (Cf. Lc 1,38). Com este argumento São Paulo exclui toda e qualquer jactância baseada em mérito pessoal. A fé incondicnal em Deus orienta minha vida para fazer as obras boas na vida. O bem praticado é a consequência da minha fé no Bem Maior que é o próprio Deus. Não pratico o bem para comprar “bilhete” para entrar no céu. O bem que eu pratico é o fruto da minha fé no Deus da Bondade. Ao praticar o bem eu me torno um prolongamento da bondade de Deus; em me torno reflexo do Bem Maior ao praticar a bondade. Geralmente quem é amado, ama. Quem é bem educado se torna uma pessoa educada. Quem é agraciado ou beneficiado, geralmente, se torna uma pessoa grata e passa a ser uma parceira do bem.

Para um judeu este pensamento de São Paulo é algo novo. Qualquer judeu tem em Abraão o grande modelo de sua piedade e de sua fé por merecimento (meritocracia). Jesus também criticará este modo de pensar dos fariseus (Cf. Lc 18, 9-14: parábola do fariseu e do publicano).

Será que ainda acreditamos num pensamento de meritocracia, como por exemplo: “Quanto mais você der algo para Deus (na Igreja), mais bênçãos você receberá”? Será que traduzimos nossa fé e nossas orações no bem que praticamos? Ninguém pode crer impunemente! Será que nosso comportamento, nosso tratamento para o outro reflete nossa fé no Deus de amor? Será que a paz que pedimos a Deus nos transforma em construtores da paz na convivência?

Viver Sem Hipocrisia Faz Parte Da Vida Cristã

Com o capítulo 12 do seu evangelho (Lc 12,1-48) o evangelista Lucas volta a falar sobre as instruções de Jesus para seus discípulos, conhecidas como Lições do Caminho (Lc 9,51-13,21), pois são dadas no Caminho para Jerusalém onde Jesus será crucificado e ressuscitado. Com essas lições Jesus vai preparando os discípulos para a vida e missão pós-pascal (cf. Lc 24,45-49; At 1,8). E para a comunidade de Lucas essas instruções servem como um ideal de vida de discipulado.

Neste capitulo 12 Lucas coloca algumas atitudes que devem caracterizar a comunidade dos discípulos, tais como: confiança em Deus em qualquer momento, pois em Deus está o alicerce verdadeiro para sua existência; coragem diante de qualquer ameaça da perseguição ou da repressão violenta e transformar tudo isso em momento de testemunho; liberdade do medo; pobreza, isto é, não se deixar dominar pelos bens materiais, pois sua verdadeira segurança está em Deus; e vigilância responsável, pois os discípulos são homens abertos para o futuro, isto é, viver sem jamais perder perspectivas em qualquer momento e idade. A esperança nos chama a caminhar sem perder o horizonte que só terminará em Deus.

“Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”, alerta Jesus aos discípulos.

A hipocrisia é o pecado típico do fariseu (cf. Lc 11,42-44). Hipócrita é permanecer nas trevas, ocultar-se na escuridão. Hipócrita é ser ator de uma peça sem nada a ver com sua própria personalidade ou vida. Hipócrita é resistir ao testemunho; é fazer ouvidos surdos à voz de Jesus Cristo. Hipócrita é aquele que, simulando virtudes, nobres sentimentos e boas qualidades, engana os outros no intuito de conquistar a estima deles. Seu objetivo é obter louvores por uma virtude que não possui. Ele atraiçoa a verdade. Ele é incapaz de confessar sua perversidade interior e corrigi-la, pois ele sempre se refugia na simulação de possuir virtude. Ele não se preocupa em ser bom, mas em ser admirado por alguma virtude que na realidade não possui. Se não tivermos bastante discernimento e capacidade em fazer uma leitura com tranqüilidade de suas atitudes e palavras, facilmente cairemos na tentação de acreditar nele. É preciso confiar desconfiando. É preciso questionar o questionável, perguntar o perguntável para não se precipitar em nada a fim de não pagar caro, mais tarde, por uma atitude não pensada. Desconfie qualquer facilidade prometida.

O discípulo de Jesus, cada cristão, deve proceder sem duplicidade nem mentira. Se alguém contar uma mentira, ele será forçado a contar outras mentiras para apoiar a primeira. A conduta do discípulo deve ser sempre franca, mas sem grosseria, pois a franqueza ou sinceridade mal-empregada se transforma em grosseria; a verdade dita sem caridade pode ter resultado contrário. O cristão deve ser transparente como quem trabalha à luz do dia. Toda sua palavra, toda sua ação deve ser sempre um testemunho público e não para enganar. O discípulo de Jesus, cada cristão é o amigo de Jesus. De Jesus ele recebe confidências e coisas profundas sobre Deus: “Chamei-vos de amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Comigo Jesus não tem segredos. Comigo Jesus só fala da verdade, a verdade que liberta (cf. Jo 8,32). Como amigo de Jesus compartilharei também com ele até mesmo sua sorte: perseguição, morte, e ressurreição (cf. Jo 15,18-21; 16, 1-4; 1Jo 3,13).

Se Jesus me revelou tudo sobre o Pai, então eu preciso ser um amigo fiel de Jesus sem medo. O único temor que eu devo ter é o temor de Deus, pois só Deus pode ter a ultima palavra sobre a minha vida e meu destino final: “Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido”. A história pessoal, íntima, e a história comunitária estão nas mãos de Deus. Eu preciso segurar na mão de Deus e seguir adiante, pois eu estou caminhando para o futuro de Deus que já comecei no presente ainda que os caminhos de Deus, muitas vezes, sejam incompreensíveis para a sabedoria humana: “Pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus — oráculo do Senhor. Pois tanto quanto o céu acima da terra, assim estão os meus caminhos acima dos vossos e meus pensamentos distantes dos vossos” (Is 55,8-9).

P. Vitus Gustama,svd

“Se és um amigo de Cristo, muitos poderão se aquecer neste fogo e compartilhar desta Luz” (Mauriac).


terça-feira, 17 de outubro de 2017

19/10/2017
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SER VERDADEIRO CRISTÃO É SER JUSTO E PURO DE CORAÇÃO E QUE ANUNCIA E DENUNCIA
Quinta-Feira da XXVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Rm 3,21-30
Irmãos, 21 agora, sem depender do regime da Lei, a justiça de Deus se manifestou, atestada pela Lei e pelos Profetas; 22 justiça de Deus essa, que se realiza mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que têm a fé. Pois diante desta justiça não há distinção: 23 todos pecaram e estão privados da glória de Deus, 24 e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo. 25 Deus destinou Jesus Cristo a ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a realidade da fé. Assim Deus mostrou sua justiça em ter deixado sem castigo os pecados cometidos outrora, 26 no tempo de sua tolerância. Assim ainda ele demonstra sua justiça no tempo presente, para ser ele mesmo justo, e tornar justo aquele que vive a partir da fé em Jesus. 27 Onde estaria, então, o direito de alguém se gloriar? — Foi excluído. Por qual lei? Pela lei das obras? — Absolutamente não, mas, sim, pela lei da fé. 28 Com efeito, julgamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei judaica. 29 Acaso Deus é só dos judeus? Não é também Deus dos pagãos? Sim, é também Deus dos pagãos. 30 Pois Deus é um só.


Evangelho: Lc 11,47-54
Naquele tempo, disse o Senhor: 47Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas; no entanto, foram vossos pais que os mataram. 48 Com isso, vós sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais, pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos. 49 É por isso que a sabedoria de Deus afirmou: Eu lhes enviarei profetas e apóstolos, e eles matarão e perseguirão alguns deles, 50 a fim de que se peçam contas a esta geração do sangue de todos os profetas, derramado desde a criação do mundo, 51 desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu vos digo: serão pedidas contas disso a esta geração. 52 Ai de vós, mestres da Lei, porque tomastes a chave da ciência. Vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar”. 53 Quando Jesus saiu daí, os mestres da Lei e os fariseus começaram a tratá-lo mal, e a provocá-lo sobre muitos pontos. 54 Armavam ciladas, para pegá-lo de surpresa, por qualquer palavra que saísse de sua boca.
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Deus é Justo Para Todos


Diante da justiça de Deus não há distinção: todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”.


Esta é a tese que São Paulo vai repetindo na sua Carta aos Romanos, e o mesmo tema podemos encontrar na Carta aos Gálatas. Para ele, todos nós somos pecadores e somos salvos gratuitamente por Deus em Jesus Cristo: “todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”. Para São Paulo não há como o homem se salva com os próprios recursos. O homem que somente confiar nos próprios recursos sem contar com Deus, um dia conhecerá a amargura de uma queda. Para ser salvo e se manter na graça, o homem precisa da intervenção prodigiosa do Deus Pai de Jesus Cristo.


Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”. Também nós devemos nos sentir perdoados por Deus, salvos gratuitamente por Ele em Jesus Cristo morto e ressuscitado por nós. Não creiamos que tenhamos direito à salvação por nossas “obras meritórias”. A salvação não se compra a base de boas obras. Esta boas obras temos que fazê-las, mas não são as que nos salvam a modo de paga. Tanto “judeus como gregos’, os que pertencem ao povo israelita como os que não, todos nós estamos em dívida com Deus e temos que agrader-Lhe por que nos salvou ao enviar Jesus como Redentor para nos resgatar do domínio do pecado. São Paulo na outra carta escreveu: “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil” (1Cor 15,10ª). “A justificação é um dom de Deus. Mas não nos é concedida sem nossa colaboração. Nossa é a vontade; sua é a graça. A justiça de Deus existe sem nós, mas nos é aplicada sem nós”, dizia Santo Agostinho (Serm. 169, 11,13). A força salvadora de Deus se tornou realidade em Jesus Cristo morto e ressuscitado.


Aparece no texto de hoje a palavra “justiça”, “justo”, “justificação”, “justificado”.


O conceito de justiça constitui uma das peças mais básicas e, ao mesmo tempo, mais complexas da linguagem moral. Porque com ele, sempre nos referimos ao nosso relacionamento com os outros, seja indivíduos, grupos e até mesmo a ordem social em geral. Na linguagem comum, o termo justiça traz consigo a intuição de que "as pessoas devem receber o tratamento que merecem" e, nesse sentido, a definição conhecida ainda conserva seu vigor: "Dê a cada um aquilo que é dele próprio". Ao reter sem razão o que é do outro, se comete a injustiça.


A idéia bíblica de justiça ou de retidão geralmente expressa conformidade com todas as áreas da vida de Deus: lei, governo, aliança, lealdade, integridade ética ou ações amáveis. Quando os homens aderem à vontade de Deus como expressa em Sua Lei, eles são considerados justos ou retos. Jesus ensinou que aqueles que conformam suas vidas aos seus ensinamentos também são justos, retos.


São Paulo mostra em seus escritos que a justiça está relacionada ao eixo do evento da salvação, isto é, à Morte e Ressurreição de Cristo. Ele observa que a justiça não é apenas um atributo que se aplica a Deus, mas é um fator importante que faz o homem como deveria ser em referência a Deus e outros homens.


Praticar a justiça é ser imparcial em tudo o que você faz. É ver com seus próprios olhos e não julgar algo pelo que os outros lhe dizem. A justiça significa que a pessoa recebe o que merece. Todos devem receber o que é legítimo para eles. É justo que as pessoas recebam uma punição quando fizeram o que não é justo. Também é certo que nos recompensamos quando agimos bem. Ser justo é defender seus direitos e os dos outros. Ser justo é investigar a verdade por si mesmo, aceitando o que os outros dizem apenas como uma opinião individual. Investigue os fatos com seus próprios olhos.  Quando você é justo, você age sem preconceitos, vendo cada um como a pessoa que é. Você é justo quando não toma decisões sobre os outros com base na sua etnia, nacionalidade, religião ou sexo, ou porque são ricos ou pobres e sim na base da justiça e do amor. “Diante da justiça de Deus não há distinção”, escreveu São Paulo no texto da Primeira Leitura de hoje. Quando você é justo, você admite seus próprios erros e aceita as consequências. Quando você é justo, você se defende quando é verdade e defende os outros quando eles estão certos. Quando se pratica a justiça na se faz fofocas nem críticas de costas.


É Preciso Purificarmos Nosso Coração De Todo Tipo de Podridão Para Voltar a ser justos


Continuamos a acompanhar as Lições do Caminho dadas por Jesus durante sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois nessa cidade Ele será crucificado, morto e glorificado.


E a passagem do evangelho de hoje nos apresenta a ultima parte do conjunto de acusações de Jesus (Lc 11,37-54) contra os dirigentes oficiais judeus, os fariseus e os escribas porque eles invertem o valor das coisas. Eles vivem uma vida dupla. São denunciados pela incoerência de sua vida. As palavras de Jesus têm um tom de denúncia e por isso, trata-se de a voz de um profeta.


Nesta ultima parte encontramos os mais terríveis acusações, pois a religião dos fariseus não só camufla a morte espiritual, mas também mostra uma oposição radical aos verdadeiros porta-vozes de Deus, pois esses profetas foram assassinados. Não se pode considerar verdadeira uma religião, uma crença que usa de violência contra aos demais seres humanos. Cada verdadeira religião, cada verdadeira Igreja, cada crença verdadeira deve transformar seus adeptos em irmãos e irmãs da humanidade. Cada verdadeira religião, cada verdadeira Igreja deve manter sua função profética contra qualquer injustiça social, contra qualquer desigualdade, contra qualquer violência e assim por diante. A denúncia de Jesus, apesar de conter toda verdade, provoca o ódio feroz nos seus adversários e o próprio Jesus será vítima da própria denúncia. “Os que discutem mais que defendem a verdade, utilizam mais as desculpas que os argumentos, não se preocupam com a verdade, mas com seu próprio triunfo”, dizia Santo Agostinho (Epist. 238,2).


Mas a verdade vencerá, e o tempo vai mostrar toda a verdade. Dia virá, indeterminado, porém seguro, em que Deus pedirá contas da consciência que destruímos, da pobreza que geramos e das vidas que prejudicamos, do sangue de todos os profetas que derramamos, de todos os inocentes, sacrificados aos interesses humanos em virtude da inteligência mal empregada e da defesa de uma lei supostamente sagrada. O sagrado é o próprio ser humano, pois ele é o templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; cf. Mt 25,40.45).


Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas; no entanto, foram vossos pais que os mataram. Com isso, vós sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais, pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos. (...) Sim, eu vos digo: serão pedidas contas disso a esta geração” (Lc 11, 47-48. 51b).


Os escribas crêem honrar os profetas assassinados fazendo-lhes esplêndidos sepulcros. Ou seja, os fariseus estão dispostos a honrar os profetas mortos, mas não fazem caso para os profetas vivos. Eles tratam os profetas de seu tempo igual ao tratamento que os seus antepassados faziam contra os verdadeiros profetas. Em outras palavras, na realidade, eles seguem o mesmo caminho (eles vão matar Jesus). Eles matarão Jesus em nome de sua interpretação sobre a lei. Possuidores da chave da ciência eles fecham o caminho da salvação aos que confiam neles e os seguem como guias. Eles preferem seus próprios caminhos ao caminho de Deus.


Ao denunciar a perseguição e a morte dos profetas antigos, Jesus denuncia antecipadamente a injustiça praticada contra Ele, no futuro próximo, exatamente, por aqueles que buscam agradar a Deus e cultivam uma suposta santidade. Isto nos mostra que a recitação de um credo e a prática do culto sem o compromisso de uma conduta coerente eticamente é um ópio que adormece a própria consciência. É um grande alerta a todos que se dizem religiosos ou fieis para que a prática religiosa não seja mais importante do que o próprio Deus e o próximo.


Que falta que os profetas nos fazem! E o Evangelho insiste: os profetas foram perseguidos, acusados e derramaram seu sangue, foram assassinados (Lc 11,49). O mundo precisa verdadeiramente dos homens e das mulheres que profetizam, isto é, que anunciam o bem e denunciam o mal e tudo que é desumano. Em um lugar e em um tempo em que carece o transcendente, o divino; em um tempo onde tantos filhos de Deus, os inocentes estão maltratados e crucificados pela fome, pela exploração, pela injustiça, pela desesperança, em um lugar onde a verdade é silenciada e distorcida, somente as vozes proféticas podem dizer algo transparente, crível capaz de chegar até o coração de cada pessoa para transformá-lo em um coração sincero, em um coração de irmão. Se nos faltarem os profetas, o testemunho cristão será opaco, sua voz será inexpressiva, suas atividades serão infecundas e frustrantes. São Paulo nos adverte: “Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom. Guardai-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,19-22). Necessitamos de profetas dentro da própria Igreja e fora dela da mesma forma.


Ai de vós, mestres da Lei, porque tomastes a chave da ciência. Vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar”.


Os escribas dominam as Sagradas Escrituras. Possuidores da chave da ciência, os escribas fecharam a salvação aos que põem neles sua confiança e os seguem como guias. Eles preferem os próprios caminhos ao caminho de Deus. Mas não basta compreender a Palavra de Deus. É preciso abrir toda essa riqueza para que seja desfrutada por todos. Deus nos confiou a riqueza de Seu amor, de Sua vida, de Seu perdão, de Sua salvação não para que escondamos e sim para que todos conheçam toda essa riqueza a fim de que sua vida tenham sentido apesar de tudo, como a perseguição. Não basta construir templos. É necessário viver o Evangelho. É necessário que a salvação seja parte de nossa própria vida de cada dia. A fé nos move para que mudemos nossos critérios de acordo com a Palavra de Deus a fim de que sejamos sinais do amor de Deus para os demais.


Nós nos reunimos em torno de Cristo na celebração de Seu mistério pascal para assumirmos nossa própria responsabilidade. Quem somente participa (= assistir) da missa sem nenhuma capacidade de produzir fruto, se faz responsável, não somente, da morte de Jesus, mas também do mal que continua dominando muitos ambientes de nosso mundo.


Não basta construir templos, casas de assistência social, fundar clubes ou associações de ajuda solidária. É necessário viver o Evangelho. É necessário confessar Jesus Cristo. Na sua primeira homilia, logo depois de sua eleição, o Papa Francisco disse: “Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor... Quando não se confessa Jesus Cristo, faz-me pensar nesta frase de Léon Bloy: ‘Quem não reza ao Senhor, reza ao diabo’. Quando não confessa Jesus Cristo, confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio”. A Igreja de Cristo não pode ficar na somente promoção social como uma filantropia. Mas é necessário fazer que a salvação faça parte de nossa própria vida para que possamos levá-la também aos demais.


P. Vitus Gustama,svd





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

18/10/2017
 

LUCAS EVANGELISTA
18 de Outubro

Primeira Leitura: 2Tm 4,10-17b
Caríssimo:10 Porque Demas preferiu amar este mundo e me abandonou. Foi para Tessalônica. Crescente partiu para a Galácia e Tito para a Dalmácia. 11 Somente Lucas está comigo. Procura a Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério. 12 Enviei Tíquico a Éfeso. 13 Quando vieres, traze a minha capa que deixei na casa de Carpo em Trôade, e também os livros, principalmente os pergaminhos.14 Alexandre, o fundidor, me tem dado provas de grande malvadeza. O Senhor lhe retribuirá de acordo com as suas obras. 15 Também tu, toma cuidado com ele, porque fez violenta oposição às nossas pregações. 16 Em minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado. Todos me abandonaram. Que Deus não leve isso na devida conta.17 Mas o Senhor veio me ajudar e me deu forças para que, por meio de mim, se realizasse plenamente a pregação e todos os não judeus a ouvissem.

Evangelho: Lc 10,1-9
Naquele tempo, 1 o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. 3 Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! 5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. 8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, 9 curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘o Reino de Deus está próximo de vós’”
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I. Evangelista Lucas

Não temos autobiografia do evangelista Lucas. Mas através de suas duas obras (o evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos) podemos saber e conhecer quem é Lucas. Aqui coloquei apenas algumas pinceladas sobre o perfil do evangelista Lucas. Tudo fica aberto para qualquer acréscimo.

Lucas é um homem culto. O seu grego é um dos mais apurados do Novo Testamento. É um escritor de bom gosto. Em vez de usar palavra “prostituta” ele usa a expressão “mulher pecadora”.

É um homem da cidade. Nas suas obras ele fala constantemente de cidades (40 vezes. Hoje em dia mais de dois terços da população mundial moram nas cidades, o que exige a coragem de ousar novos caminhos na nova evangelização).

Ele tem certa visão universal. Em vez de usar a expressão “o mar da Galiléia”, ele usa a expressão “o lago da Galileia” (o lago da Galileia tem 13 km por 8 km de tamanho).

É um homem muito sensível para a questão social: ele ataca as desigualdades entre os ricos e os pobres, defende a dignidade da mulher (mulher era inferior em tudo), se preocupa com o faminto, com o pobre, com aquele que chora.

Ele é um homem de extrema bondade e compaixão em relação aos fracassados na vida em todos os sentidos. Podemos encontrar tudo isso, como exemplo, a parábola do filho pródigo que é uma das grandes peças da literatura universal e uma das mais conhecidas parábolas jamais contadas, quase que é um evangelho dentro do evangelho. Ele crê que o fracasso não deva vencer o homem; deve-se dar sempre um salto por cima de todos os fracassos e “começar” sempre confiando na misericórdia de Deus sem limites (“começar” é o termo que Lucas usa). Para Lucas, a misericórdia é o critério supremo da vida cristã. A misericórdia supera ou vence o próprio juízo de Deus.

Lucas é um homem extremamente ecumênico. Na sua orientação ecumênica ele envolve os próprios judeus. Ele mostra para com os judeus a mais profunda simpatia e preocupação. Ele tem uma profunda clareza sobre a salvação trazida por Jesus. A salvação é para todos, sem fronteiras nem preconceitos.

Lucas é chamado de “o evangelista da oração”. O evangelho de Lucas é o único que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu evangelho com o tema da oração. Neste evangelho, Jesus orou em cada decisão importante e em todo momento decisivo de sua vida. Ele orou no batismo (3,21), antes de escolher os discípulos (6,12), em Cesaréia de Filipe na profissão da fé de Pedro (9,8), no monte Tabor na transfiguração (9,28s), no Jardim de Getsêmani (22,39-46), na cruz (23,34.46)e ensinou aos discípulos o Pai-Nosso (11,1ss). Neste evangelho podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (1,46-56); o Benedictus (1,67-79); o Glória (2,14); o Nunc Dimittis (2,29-32). Além disso, Lucas ainda coloca três parábolas sobre oração (11,5-13;18,1-8;18,9-13). A oração é a expressão mais viva da fé. Quem tem fé precisa orar e quem ora porque tem fé. A oração é também o lugar da revelação. Deus se manifesta quando alguém está em sintonia com Deus e com a realidade. Na oração verdadeira Deus se revela. Por isso, empobrecer a oração significa empobrecer toda a teologia. No seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada do cristão. Na medida em que ele reza verdadeiramente, a sua vida se transforma. A vida e a oração se tornam uma unidade. Quem reza desligando-se da realidade é uma alienação, é uma fuga. Um verdadeiro cristão reza aquilo que ele vive e vive aquilo que ele reza. Por isso, quem sabe viver bem sabe também rezar bem e quem sabe rezar bem também sabe viver bem.

O evangelho de Lucas é o evangelho de alegria. O verbo “alegrar-se” ocorre 7 vezes em Lucas e nunca nos demais evangelhos. O substantivo “alegria” ocorre 12 vezes em Lucas, e 16 vezes nos três outros evangelhos (1,14.44.47.58;2,10;10,17.20.21;15,8-10.11-36;19,6.37;24,52-53. A alegria é o fruto de uma oração profunda. A alegria é a característica do cristão verdadeiro que vive na esperança, na expectativa e na certeza da ressurreição; que vive na certeza de uma vitória sobre o fracasso. A alegria é em Lucas um mandamento de Jesus: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.

O evangelho de Lucas é o evangelho do Espírito. Lucas - Atos (dos Apóstolos) seria “um verdadeiro tratado de pneumatologia” (ciência sobre o Espírito Santo), segundo Lina Boff. Lucas divide a história da salvação em três etapas: 1). O tempo de Israel; 2). O tempo de Jesus; 3). O tempo da Igreja. E como fio condutor destes três tempos ou etapas é o Espírito Santo. O Espírito Santo é que conduz e guia todos estes tempos. O Espírito Santo funda a missão de Jesus e funda a missão da Igreja. O Espírito Santo é o ponto de união entre o Antigo testamento e o Novo Testamento. O Espírito Santo está no início e no decurso do ministério de Jesus. Ele está no início e na caminhada da Igreja: as comunidades são fruto e manifestação do Espírito Santo. O Espírito Santo é dinamismo, abertura para o novo, dom e compromisso, força que leva a enfrentar o novo e o desconhecido.

Símbolo do Evangelho de Lucas é TOURO- Refere-se ao ofício de Zacarias. Como sacerdote Zacarias oferecia sacrifícios. Jesus vem suprimir esses sacrifícios de animais (Cf. Hb 9,11-14).

II. Mensagem do Evangelho do Dia

O texto do evangelho de hoje nos relata que Jesus envia 70 (e dois) discípulos para a missão. Com o número setenta (e dois) Lucas quer nos dizer que a missão não é apenas exercida por um pequeno grupo de pessoas, mas todos os que  seguem a Jesus têm a mesma missão de continuar a obra de Jesus. Todos os cristãos tem a mesma missão. Missão significa que alguém é enviado. Jesus envia todos os cristão ao mundo para serem testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse, especialmente de sua morte e ressurreição. Infelizmente, porém, fizemos e fazemos da Igreja, muitas vezes, não uma estrutura aberta a serviço do mundo, mas uma arca da salvação. Pensamos em nós mesmos como o povo escolhido, separado do resto, salvo do mundo malvado. Se o cristianismo é simplesmente um caminho de vida para nós, ficamos felizes por viver e deixar de viver: tolerantes e conciliadores. Se, porém, pensarmos em nós como sal ou fermento, então buscaremos não apenas estar presentes mas também transformar.

Os setenta (e dois) são enviados como cordeiros entre os lobos. O lobo é o símbolo da violência e da arrogância, símbolo da vontade de dominar e de corromper os outros. O cordeiro simboliza a mansidão, a fraqueza, a fragilidade. O cordeiro   só consegue se salvar da agressão do lobo se o pastor intervém na sua defesa. Os discípulos não podem contar com a força, o poder e a violência. Devem estar sempre desarmados. Para isso, é necessário que os discípulos estejam vigilantes para que eles não sejam conduzidos a cumprir as ações dos lobos como o abuso de poder, as agressões, as violências etc.  Além disso, eles devem estar conscientes de que a calúnia, a perseguições e até a morte são o resultado de quem trabalha na messe do Senhor porque diante dos poderosos deste mundo que se preocupam com o próprio poder, os discípulos precisam falar da justiça, da vida, do bem e do plano de Deus a respeito do universo e do destino do homem. Aparentemente o uso da força dá resultados, mas sempre se trata de resultados efêmeros. Jesus salvou o mundo, comportando-se como cordeiro, não como lobo.

Os setenta (e dois) discípulos são enviados na pobreza por um bem superior. Quando se fala da pobreza sublinha-se principalmente a pobreza do ser. Esta pobreza nos faz vinculados essencial e existencialmente a um outro ser, no caso, a Deus. Esta pobreza é a raiz e causa de toda e qualquer outra pobreza, especialmente a pobreza voluntária. Aceitar a pobreza voluntária significa viver sem segurança. Aceitar a pobreza é um verdadeiro desprendimento, uma espécie de morte.

Outras recomendações:

Primeiro, Deus quer que mudem as relações entre os seres humanos; que todos se vejam como iguais e se tratem como irmãos. Por isso, eles têm que viver como uma família, sem competições e sem ambições. O Reino não é tarefa para gente solitária. Por isso, Jesus envia os 70 (e dois) de dois em dois para que se ajudem, se confrontem e se complementem. Quando se compartilhar o que se tem, haverá sobra. Esta é a experiência do grupo de Jesus e daqueles que querem ser discípulos de Jesus.

Segundo, o Reino de Deus que eles anunciarão vai vencer o mal e a morte, porque o Reino de Deus vai ter a última palavra e não o mal. Por isso, o mal não tem futuro. Deus quer que todos tenham vida (Jo 10,10). Por isso, todos têm que optar pela vida e não pela morte eterna, e pelo bem e não pelo mal.

Terceiro, todos devem pôr toda sua confiança no Pai celeste, mas nos meios humanos. Isso é condição fundamental para quem quer colaborar com o Reino de Deus. É a pobreza no espírito. Essa pobreza no espírito lhes dará liberdade e será um testemunho maior do que mil palavras de que o Reino não se impõe pela força e sim que se oferece como amor e por isso, livre de todo poder. E devem aprender a reconstruir as relações de confiança formando uma comunidade de irmãos como o próprio Deus quer. Devemos abandonar nossos egoísmos, deixar a auto-suficiência e nos entregar nas mãos de Deus para que o Reino de Deus aconteça aqui e agora.

O fundamental que os discípulos devem ter em conta é que eles estão trabalhando na construção do Reino de Deus e não por seu próprio reino. Se cada um se preocupar em construir o próprio reino, haverá guerra permanente e disputa permanente, pois cada um quer defender o próprio reino e não o Reino de Deus. Quem tem consciência de que trabalha pelo Reino de Deus, também acredita na providência divina.

O envio dos 70 (e dois) tem, então, como horizonte fundamental o Reino de Deus. Este constitui o conteúdo de toda pregação cristã e o horizonte que jamais devemos perder de vista quando referimos à ação da Igreja no mundo. A Igreja existe em função do Reino. A Igreja existe a serviço do Reino de Deus. A Igreja não é o Reino de Deus.

A missão serve tanto para formar missionários como para despertar os que são visitados para serem também missionários. Todos são enviados para fazer missão.

É bom cada um perguntar-se: “O que é que tenho contribuído na missão do Reino de Deus? O que é que tenho feito até agora na evangelização? Qual é o lugar da Palavra de Deus na minha vida? Será que faço parte daqueles que criticam muito, mas nada colaboram?”.
P. Vitus Gustama,svd
17/10/2017
 

A HIPOCRISIA  E DIGNIDADE HUMANAE
QUEM VIVE NA VERDADE E NA DIGNIDADE AFASTA  A HIPOCRISIA
Terça-Feira Da XXVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Rm 1,16-25
Irmãos: 16 Eu não me envergonho do Evangelho, que é um poder divino para a salvação dos que creem, dos judeus primeiro, e depois dos pagãos. 17 Porque nele se manifesta a justiça de Deus, pela fé e para a fé, como está escrito: O justo viverá da fé! 18 Realmente, a ira de Deus se revela do alto do céu contra qualquer impiedade e injustiça dos homens, homens que com sua injustiça oprimem a verdade. 19 Porque tudo o que se pode conhecer de Deus é manifesto para eles: Deus o manifestou a eles. 20 Desde a própria criação do mundo, a inteligência pode perceber as perfeições invisíveis de Deus, seu poder eterno e sua natureza divina, através de suas obras. Por isso é que para eles não há desculpas. 21 Porque, mesmo conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas se perderam em seus raciocínios falsos, e o seu coração insensato mergulhou na escuridão. 22 Pretenderam ser sábios e tornaram-se estúpidos! 23 Substituíram a glória do Deus imortal por imagens que representavam homens mortais, aves, quadrúpedes e répteis. 24 Por isso, Deus os entregou à imundície pelos desejos de seus corações, de modo que aviltaram eles mesmos seus próprios corpos.25 Eles confundiram o verdadeiro Deus com seres falsos, prestaram culto e adoração às criaturas em lugar do Criador, o qual é bendito para sempre! Amém!

Evangelho: Lc 11,37-41
Naquele tempo, 37 enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. 38 O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. 39 O Senhor disse ao fariseu: “Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. 40 Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41 Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.
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O Deus, Criador Do Universo Quer Salvar Todos Os Homens

“Eu não me envergonho do Evangelho, que é um poder divino para a salvação dos que creem, dos judeus primeiro, e depois dos pagãos. Porque nele se manifesta a justiça de Deus, pela fé e para a fé, como está escrito: O justo viverá da fé!”, escreveu São Paulo ao Romanos no texto da Primeira Leitura.

O tema central que São Paulo desenvolve em toda a Carta é que a salvação de Deus nos alcança com o pleno poder em Jesus Cristo. E esta salvação não é destinada apenas para os judeus, mas também para os “gregos”, ou seja, para os pagãos. O Evangelho “é um poder divino para a salvação dos que creem, dos judeus primeiro, e depois dos pagãos”. É Boa Notícia para os que crêem em virtude de sua fé porque “o justo viverá da fé!”.

São Paulo define o Evangelho de Jesus, não tanto como uma série de verdades ou de normas morais ou de memórias históricas, e sim como “um poder divino para a salvação dos que creem”. É força, hoje e aqui, e não uma recordação do passado. Deus está presente aqui e agora a partir da vivência da fé. Quem está com Ele, está com força para seguir adiante com Ele. É uma força que foi capaz de tirar São Paulo de sua convicção judaica e farisaica de antes e o converteu em apóstolo incansável do Senhor. São Paulo nos ensina a necessidade de fazermos uma revisão de todos os nossos supostos fundamentos. A frase citada acima é revelação de uma experiência de vida em Deus que nos cubra de felicidade ainda que estejamos no meio das adversidades e turbulências.

Por outra parte, São Paulo nos relembra que há a debilidade humana em que de um lado, há o amor imenso e a grandeza de Deus que se reflete na criação, e do outro lado, há o pecado cometido pelo homem que incapacita o homem de enxergar a presença de Deus. Hoje São Paulo descreve a falha dos pagãos que deveriam ter chegado a conhecer Deus e aceitá-Lo, porque na mesma criação do mundo há mais que suficientes sinais de Seu poder e Sua divindade: “Desde a própria criação do mundo, a inteligência pode perceber as perfeições invisíveis de Deus, seu poder eterno e sua natureza divina, através de suas obras. De fato, crer também é questão de inteligência. A inteligência percebe a perfeição da criação capaz de levar o homem a reconhecer o Criador que cria tudo na perfeição. Basta olhar para a imensidade do universo e a pequenez do homem, como um pontinho dentro dessa imensidade, para o próprio homem, na sua inteligência, engrandecer e glorificar o Criador.  Por isso, São Paulo chama os “grego” (pagãos) com a seguinte expressão: “Pretenderam ser sábios e tornaram-se estúpidos (néscios)!”.

Com efeito, a criação é uma das portas para chegar a Deus e para conhecer o Criador de todas as coisas. Se o homem contemplar profundamente sobre a imensidade do universo, nele não haverá mais lugar para a prepotência, para as preocupações exageradas e para todos os tipos de ganância, pois o homem é apenas um pontinho dentro do imenso universo. Ao contrário, ao contemplar o universo, o homem fará o louvor e o agradecimento ao Criador do universo, como rezou os salmista: “Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes” (Sl 8,4-6). Essa contemplação faz o homem voltar a ser justo, isto é, aquele que vive de acordo com os mandamentos do Senhor e “o justo viverá da fé!”.

Se São Paulo chama os gregos (pagãos) de “estúpidos” por não chegar a conhecer Deus apesar de ter sinais suficientes, quanto mais diria aos judeus que tiveram a revelação do AT, e sobretudo, para os cristãos que têm a grande sorte de conhecer a verdade plena de Jesus, que os amou até o fim (Jo 13,1), que ouvem sua Palavra e comungam Seu Corpo. Os cristãos teriam suficiente força para levar adiante a Boa Nova com muita alegria e testemunhar o amor de Cristo.

Não somos nós os pagãos que São Paulo chama de “néscios” (estúpidos)?

É Preciso Manter o Coração Limpo e Não Apenas o Corpo Limpo

O texto do evangelho de hoje nos apresenta a questão sobre a purificação (ato de se tornar puro). E os fariseus davam máxima importância ao cumprimento dos preceitos e ritos da purificação.  Sem relação direta com a moralidade, a pureza assegura a aptidão legal para alguém poder participar do culto (cf. Lv 11-16). A pureza cultual inclui a limpeza física. Antes de comer, por exemplo, os comensais devem lavar as mãos (cf. Mc 7,2). Este rito faz parte da limpeza física para se afastar do que é sórdido ou das imundícies (cf. Dt 23,13ss). A maior parte das impurezas são apagadas pela ablução do corpo ou das vestes (cf. Ex 19,10; Lv 17,15s), ou por sacrifícios expiatórios (cf. Lv 12,6s).

A partir desse conceito (sobre a pureza) vem a pergunta: quem é puro perante Deus? Para os fariseus , os puros são aqueles que guardam os preceitos de purificação cultual; aqueles que limpam a parte externa dos pratos e dos cálices.

Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades”, assim Jesus disse aos fariseus. Os fariseus se importam com o exterior e não com o interior da pessoa. Eles se descuidam da pureza da consciência. Trata-se de uma vida na aparência, de uma vida incoerente. A maneira de viver assim é conhecida como hipocrisia. Os fariseus são chamados de insensatos por Jesus.

Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?”. Deus importância para a pureza ética que Jesus prega para todos. Quando a consciência estiver livre da injustiça e de qualquer atitude imoral, então o homem ou a mulher fica puro diante de Deus. Todo mandamento de Deus se refere à relação ética e ao amor fraterno. A partir da vida ética e da convivência fraterna é que se joga e se julga a fidelidade daquele que se diz crente.

É importante ter a pureza do coração para podermos ver Deus em suas obras e para ver o outro como irmão, irmã, filhos e filhas de Deus. Uma coisa que não nos ajuda a crescermos na santidade e na fraternidade é maximizar o que não é importante e minimizar o que é importante. Hoje em dia, como no tempo de Jesus, muitos dão muita importância para a exterioridade. Das coisas verdadeiramente importantes, edificantes e dignificantes dependerá nossa vida moral.

Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”. Para Jesus a pureza interior é adquirida ou alcançada através da esmola e das obras de caridade. O coração se torna puro através da vivencia fraterna que inclui a ajuda aos necessitados. O amor fraterno torna puro o coração humano. o coração é puro quando o amor fraterno é vivido. Como diz São Paulo aos romanos: “A caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10). Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ama e faze o que quiseres” (In epist. Ad Gal. 57,6,1). A glória da vida consiste em amar, perdoar, dar, servir e assim por diante.

A maneira de viver dos fariseus que se preocupam apenas com o exterior é uma maneira de viver como hipócrita. A palavra hipócrita designava no mundo grego antigo o ator que, com uma máscara e um disfarce, assumia uma personalidade alheia. O ator representa um papel, não o que ele é inteiramente. É apresentação sem representação. Fingia diante do público ser outra pessoa freqüentemente sem nada a ver com a sua própria personalidade, porque trabalhava para a platéia. Ele não vivia sua própria identidade.

Todo hipócrita é exibicionista. Na verdade, um exibicionista é uma pessoa de personalidade superficial, fútil e sem sólidos ideais. Ele vive mendigando louvores e os procura de todas as maneiras. Ele se preocupa mais em ostentar do que em ser alguma coisa. Sua preocupação é colocar-se em evidência, ser notado, elogiado. Tudo o que ele faz é na perspectiva de algum louvor. Ele considera bons ou maus os seus atos não por estarem de acordo ou não com as normas éticas, mas por serem capazes ou não de atrair a atenção e despertar admiração.

Segundo o Evangelho de hoje hipócrita é aquele que vive na aparência e longe da verdade. É aparentar ser bom, sem sê-lo. É uma incoerência de vida. É uma duplicidade, um fingimento. Ele extremamente se apresenta como um homem religioso, alguém que faz questão de proferir palestras bonitas sobre o amor, sobre a paz, sobre o respeito para com os outros, quando ninguém o viver assim. É aquele que vive de etiqueta, mas continua pagando dívidas sem fim.

A hipocrisia, que tenta esconder atrás da fachada limpa a podridão interior, não convém ao cristão que é chamado a viver e proclamar publicamente a palavra recebida de Jesus. O Senhor quer que tenhamos diante d’Ele e diante dos outros uma única vida, sem disfarces e mentiras, pois n’Ele mesmo encontramos a plenitude da unidade de vida, a mais profunda união entre as palavras e as obras. A verdade é sempre um reflexo de Deus e deve ser tratada com muito respeito. Ao buscar sempre a verdade, fugindo da duplicidade ou da hipocrisia, o cristão se torna uma pessoa honrada e respeitada. A falta de veracidade que se manifesta na mentira ou na hipocrisia ou na falta de unidade de vida, revela uma discórdia interior. Por isso, o Senhor diz no Sermão da Montanha: “Seja o vosso Sim, sim e o vosso Não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37).

A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. O verniz encobre o mal, mas não o suprime. O hipócrita não percebe que tudo que vem de fora não atinge o seu interior e que essa satisfação proveniente da aprovação dos outros é efêmera, superficial e inútil.

Se deixarmos crescer o medo de ser nós mesmos, acabaremos não sabendo quem nós somos. Nunca seremos autenticamente nós enquanto estivermos subordinados à opinião e às expectativas dos outros. A nossa riqueza consiste em que sejamos nós mesmos e não em que nos pareçamos com os outros ou com o que os outros esperam de nós. Os homens verdadeiros e autênticos podem ser aplaudidos ou condenados, amados ou odiados, mas sempre despertam nossa admiração.

P. Vitus Gustama,svd