segunda-feira, 15 de agosto de 2016



Estimados leitores e estimadas leitoras do meu blog. Durante alguns meses estarei fora do Brasil (em torno de três meses). Por esta razão estarei sem condições para fazer as reflexões diárias a não ser somente as reflexões dominicais que já postei até o último domingo do Tempo Comum do Ano C neste blog. Para as reflexões diárias, basta ver as do ano anterior. Muito obrigado e rezem por mim, por favor! Deus os abençõe!
P. Vitus Gustama,svd
Domingo,20/11/2016




DEUS É MISERICORDIOSO PARA QUEM SE CONVERTE

CRISTO, REI DO UNIVERSO
XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 23,35-43


Naquele tempo: 35 Os chefes zombavam de Jesus dizendo: 'A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!' 36 Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, 37 e diziam: 'Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!' 38 Acima dele havia um letreiro: 'Este é o Rei dos Judeus.' 39 Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: 'Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!' 40 Mas o outro o repreendeu, dizendo: 'Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? 41 Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal.' 42 E acrescentou: 'Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado.' 43 Jesus lhe respondeu: 'Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso.'
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O texto do evangelho deste domingo pertence ao relato lucano da paixão de Jesus (cf. Lc 21,1-23,56). De modo muito simples, Lucas relata a crucificação de Jesus, o sacrifício supremo para a salvação da humanidade. Lucas omite muitas das minúcias relatadas por Marcos: o nome aramaico Gólgota, o vinho misturado com mirra, as pessoas que balançavam a cabeça, e o desafio a respeito de Jesus destruir o templo e reconstruí-lo. No entanto, a ênfase permanece essencialmente nos mesmos fatos. Há aqui pelo menos três alusões a Salmos de lamentações nos vv.34-36(Sl 22,18: repartindo as vestes, lançaram sortes; Sl 22,7: olhando...zombavam; Sl 69,22: vinagre). Essas alusões indicam que a experiência de Jesus tem paralelo na experiência do justo que sofre, descrito em Salmos. Havia dois outros crucificados naquela ocasião. Lucas diz apenas que eram malfeitores, enquanto Mateus e Marcos dizem que eram ladrões. Todos os quatro evangelistas nos dizem que Jesus foi crucificado entre outros dois, evidentemente seu modo de ressaltar o fato de que ele foi crucificado como se fosse um criminoso (cf. Lc 22,37).


Lucas relata o povo em geral simplesmente observando. Execuções eram funções populares e sem dúvida havia muitas pessoas presentes nesta. Mas eram as autoridades e não o povo, que zombavam de Jesus (cf. Sl 22,6-8). Elas empregam dois epítetos: O Cristo de Deus e o Eleito/Escolhido. Essas duas expressões indicam o favor especial de Deus e sem dúvida estas pessoas estavam contrastando palavras que falavam de favor com a triste situação real de Jesus ali na cruz. Por isso, a inscrição “Este é o Rei dos Judeus” que foi colocada no alto da cruz era como um insulto final. No entanto, há ironia aqui, porque embora Jesus não fosse rei nos termos da expectativa popular, ele era, apesar de tudo, Rei de Israel ( leia o pedido de um dos crucificados no v. 42: ele usa a expressão “com teu reino/ no teu reinado”. Isto supõe a existência de um rei num reinado). Também é irônico que essa inscrição tenha sido o primeiro enunciado que se escreveu a respeito de Jesus e, provavelmente, a única coisa que se escreveu a respeito de Jesus, em toda a sua vida terrena.


De acordo com Mc 15,32, os criminosos que foram crucificados com Jesus também o ridicularizaram. A versão de Lucas, entretanto, é singular pelo fato de apresentar a conversa entre Jesus e um dos malfeitores e o insulto do outro. Para esse outro malfeitor, um Messias que morre na cruz e não salva a si mesmo nem aqueles que lutaram pela sua causa representa uma insanável contradição. Merece tão-somente ironia e desprezo. O verbo escolhido pelo evangelista é “insultar”, que tem simultaneamente o sentido do escárnio e da reverência. Como sempre, diante do escárnio, Jesus não profere nenhuma palavra. O malfeitor que vai fazer algum pedido a Jesus (conhecido popularmente como “bom ladrão” embora nenhum ladrão seja bom) repreendeu o outro pelo fato de este aderir aos insultos a Jesus e diz a seu colega que suas sentenças eram justas, mas a de Jesus, não. Assim, outra vez o leitor recebe a informação de que Jesus é inocente. “Nem sequer temes a Deus? “, disse o “bom ladrão”. Para a Bíblia, não temer a Deus é a atitude do estulto e do ímpio. “Nem sequer” parece introduzir um agravante em relação aos escárnios dos chefes e dos soldados.


Diferentemente do primeiro malfeitor, esse “bom ladrão” confessa, sem atenuantes, a sua culpa, reconhece a inocência de Jesus e a ele faz uma oração sincera: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinando” (v.42). “Lembra-te de mim” é uma oração que, na tradição religiosa bíblica e judaica, os moribundos e os homens perseguidos pela desgraça dirigem a Deus. Vamos aprofundar um pouco mais para os detalhes desta frase.


Primeiro, o bom ladrão chama Jesus pelo nome “Jesus”. Ele sabe que com Jesus pode usar esta intimidade; sente-o como amigo, pois chamar alguém pelo nome significa intimidade, amizade. Diante do amigo, ele se sente seguro apesar do sofrimento que ele tem. Segundo, tão grande é a humildade do bom ladrão arrependido que nem tem coragem de pedir de Jesus a salvação. Ele já se confessou culpado dos atos pelos quais estava sendo crucificado. O que agora quer é ser lembrado por Jesus. Ele não sabe orar bonito com palavras poéticas. Ele pede a Jesus apenas para ser lembrado: “lembra-Te de mim quando entrares no Teu Reinado”. Ele considera Jesus como amigo que compreende seu sofrimento. Terceiro, a única pessoa que reconhece em Jesus o Rei esperado é este bom ladrão. Ele sabia que sua condenação pela Corte Romana não seria seu último julgamento. Pois ele reconhecia que teria que prestar contas a Deus por seus atos (cf. 1Cor 5,10). Por isso, ele chamou a atenção do seu colega ao lado:” Nem ao menos temes a Deus? Recebemos o castigo merecido. E este, nenhum mal fez”. Aqui, através de sua honesta confissão de culpa é que ele deu seu primeiro passo em direção à salvação. Foi este o ponto de partida para a vida eterna.


Com uma solenidade Jesus abriu a boca somente para o bom ladrão: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (v.43). Com este gesto de solidariedade, Jesus dá a salvação a quem crê e se converte. Sofrendo e morrendo como homem, sentindo a dor dos pregos e a humilhação da nudez, na qualidade de Filho de Deus, Ele dirige uma promessa solene ao ladrão arrependido (em verdade). Depois desta expressão “em verdade” Jesus sempre diz algo muito importante. Jesus também dá segurança a esse ladrão arrependido: “Eu te digo”. Aqui, Jesus não reza, não pede a Deus, ele garante. Já que o ladrão arrependido confia em Jesus prontamente (“Jesus, lembra-te de mim”), Jesus também responde com a sua pessoa, assegurando-lhe uma vida de comunhão com ele (estarás comigo), e logo(“hoje”). A um pedido que remetia ao futuro (“quando entrares no teu reino”), Jesus responde, remetendo ao presente(“hoje”). Tudo isto quer nos dizer que não há situação humana de miséria e de pecado que exclua alguém da salvação; também para o malfeitor que morre por causa de seus delitos há esperança de futuro. Jesus na cruz não salva a si mesmo, mas os pecadores que se convertem e confiam nele.


Outras Mensagens do Evangelho deste Domingo      


1. O evangelista Lucas quer dirigir um apelo aos cristãos das suas e das nossas comunidades: Contemplai o vosso Rei pregado na cruz! Diante d´Ele torna-se ridículo qualquer ambição de glória de nossa parte, qualquer vontade de domínio, qualquer desejo de alcançar os primeiros lugares, de receber aplausos, elogios e títulos honoríficos. Do alto da cruz Jesus indica a todos quem é o rei que Deus escolhe: é aquele que sabe que a única maneira de dar glória a Deus é descendo ao último lugar para servir o pobre, o excluído; rei é aquele que ama a todos, inclusive aqueles que o combatem; é aquele que perdoa sempre, que salva e que se deixa derrotar por amor. A onipotência de Deus não é a de domínio. Ele é onipotente porque ele ama a todos imensamente e se coloca sem limites e sem condições a serviço do homem. E vimos isso em Jesus Cristo que se inclina para lavar os pés dos discípulos. É este o autêntico semblante do Deus onipotente, o Rei do Universo.


2. Estaríamos, porém, equivocados se, no episódio dos dois malfeitores, realçássemos somente a misericórdia. Na verdade, está fortemente presente também o juízo, que é a outra face da misericórdia. Um pecador olha para Jesus na cruz, pede perdão e é acolhido no Seu reino. Um outro pecador, olha o mesmo Jesus na cruz e o insulta. Por que um sim e o outro não? Este é o mistério do amor de Deus e da liberdade do homem, que importa sempre recordar, mas que não se pode sondar, a não ser cada um no interior de si mesmo. Diante da cruz, como de qualquer outro gesto de Deus, os êxitos possíveis são dois: com o primeiro, para recordar que a misericórdia de Deus está sempre disponível; e com o segundo, para não olvidar (não esquecer-se) jamais aquele santo temor que nos torna humildes e vigilantes.


3. “Em verdade te digo, hoje tu estarás comigo no Paraíso”. Quando começa o paraíso? Onde está ele? O paraíso começa no dia, no momento em que o homem se arrepender e receber o perdão dos seus pecados. Não pense que o paraíso existe tão-somente após a morte. O paraíso é a promessa que Deus faz a quem confessa Jesus Cristo como seu Senhor e a quem se converte. Onde está este paraíso? Em qualquer lugar onde Jesus está.


Será que você tem Cristo no seu coração? Será que Jesus Cristo é o seu Senhor? Se Jesus Cristo está no seu coração, se ele é o seu Senhor, então você está vivendo no paraíso, mesmo que esteja rodeado de dificuldades, de tribulações, de pessoas adversas, que nada entendem de seu privilégio.


Jesus disse ao ladrão arrependido que o paraíso estava reservado para HOJE e não amanhã. E evangelista João escreveu na sua primeira carta: “Amados, AGORA somos filhos de Deus” (1Jo 3,2). Quantos e quantos cristãos não têm esta certeza; não entende este privilégio.


Ouçamos esta palavra de Jesus na cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso”. O novo nascimento é o início de uma vida nova. É necessário nascer de novo pela fé em Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador. Jesus é a nova esperança para quem perdeu a esperança. Veja a condição do ladrão arrependido: morrendo por causa de seus pecados, e sem ninguém para ajudá-lo a sair de sua angústia. Ninguém, a não ser Jesus Cristo, o Senhor, o Único é capaz de socorrer o condenado.


 4. “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. É uma oração simples, mas profunda porque sai do fundo do coração. Muitas vezes nos preocupamos demais com a forma de orarmos, como se pelo fato de usarmos uma linguagem mais burilada é que seremos ouvidos por Deus. Deus ouve é o coração, não as palavras. Quando o pobre publicano orou dizendo:” Senhor Deus, tem piedade de mim, pecador”, suas palavras comoveram o Senhor.


A história do ladrão arrependido é a mesma de cada um de nós: quem de nós não foi malfeitor algumas vezes? Quem, alguma vez, não truncou a vida de algum irmão: com o ódio, as calúnias, as maledicências, as injustiças? Quem de nós não provocou pequenos ou grandes desastres na sociedade, na comunidade e na família? Se estivéssemos sozinhos, o nosso caminho nos conduziria ao desespero. Mas está presente Jesus Cristo que nos acompanha e, por isso, o nosso caminho terminará com certeza no paraíso. E feliz qualquer um de nós que confessa que Jesus Cristo é o seu Senhor, o seu Rei. Ele está no paraíso.


P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 13/11/2016



SER PERSEVERANTE NO TESTEMUNHO CRISTÃO


XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 21,5-19


Naquele tempo: 5 Algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: 6'Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.' 7 Mas eles perguntaram: 'Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer? 8 Jesus respondeu: 'Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: 'Sou eu!' e ainda: 'O tempo está próximo.' Não sigais essa gente! 9 Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim.' 10 E Jesus continuou: 'Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. 11 Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu. 12 Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. 13 Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. 14 Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; 15 porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater. 16 Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. 17 Todos vos odiarão por causa do meu nome. 18 Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. 19 É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!
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Estamos no penúltimo domingo do tempo comum. Normalmente nos dois últimos domingos do tempo comum (e no primeiro domingo do Advento) as leituras da missa só falam das coisas finais (escatologia) como lemos no evangelho deste domingo.


Como os dois outros evangelhos sinóticos (Mt 24-25; Mc 13), também o evangelho de Lucas encerra a atividade de Jesus em Jerusalém (Lc19,29-21,38), antes de sua prisão, com o discurso sobre o fim/escatológico (Lc 21,5-38). Em seu lugar atual na tradição sinótica esse discurso é considerado como um discurso de despedida de Jesus que deixa à sua comunidade os últimos conselhos e advertências. Para Lucas a destruição de Jerusalém era um fato e as perseguições à comunidade primitiva uma realidade. Tanto Mateus como Lucas inspiram seu discurso escatológico do evangelho de Marcos capítulo 13.


Mas Lucas tem seu próprio estilo. No discurso ele projeta a sua visão da história da salvação em três momentos: a destruição de Jerusalém (julgamento sobre Jerusalém), tempo da missão da Igreja e enfim, a vinda do Filho do Homem que trará a plenitude do Reino de Deus (parusia). Ao redimensionar a perspectiva escatológica deste discurso Lucas quer chamar a atenção de dois grupos, seja o dos fanáticos que esperam com impaciência o fim, daqueles que confundem os próprios sonhos com a realidade; Lucas convida os cristãos a refletir sobre o que devem fazer para que o mundo seja mais humano e fraterno; seja o dos decepcionados e resignados que não esperam mais nada, para a necessidade do empenho presente, no Tempo da Igreja. Este é o tempo oportuno do testemunho em meio às perseguições violentas, e a confiança e a esperança perseverante na espera da libertação com a vinda gloriosa do Senhor Ressuscitado, o Filho do Homem (vv.27-28). Os cristãos não podem se entregar a utopia futurista, perdendo o laço com a realidade histórica e cotidiana, a realidade do presente embora ela esteja cheia de mentiras, violências, perturbações absurdas que podem levar a desejar o fim. Se o Senhor havia vencido a morte, pensa Lucas, a comunidade cristã não está caminhando rumo à uma utopia anônima, mas o Filho do Homem, que é garantia e primícia da libertação humana. A nossa esperança, por isso, não será fraudada pois ela tem um nome: Jesus Cristo (cf. Rm 8,31.35.37). Com esse discurso, então, o evangelista deseja fortalecer a esperança de sua comunidade.


O fim de Jerusalém é, para Lucas, uma prefiguração do fim (não podemos esquecer que o evangelho de Lucas foi escrito depois da destruição de Jerusalém que aconteceu em 70 d. C na guerra dos judeus contra Roma em 66-70 d.C). Ele é o fim de toda uma etapa da história salvífica, mas não é o sinal da chegada do fim. Esse não é o fim dos tempos, mas o fim do templo. O que Jesus está dizendo aqui na versão de Lucas desse discurso é que haverá muitos perigos e dificuldades esperando seus seguidores (cf. At 7,54-60;12,1-2).


Segundo Jesus, cada dificuldade ou perseguição deve se tornar uma oportunidade de dar testemunho dele: “Mas isto será para vós uma ocasião de dar testemunho de mim” (v.13). Como no tempo em que aconteceu a guerra entre os Estados Unidos contra Afeganistão, indefeso tecnologicamente, se destaca o islamismo. Nunca vendeu-se tanto no Brasil o Alcorão como nesse tempo. Essa guerra se tornou uma boa propaganda para o islamismo. O islamismo que era pouco conhecido no Brasil, se tornou conhecido. Até a novela global “o Clone” ajudou a população a conhecer um pouco mais sobre o islamismo que não é apenas uma religião mas um sistema.


A palavra “testemunhar/testemunho/testemunha” é um das palavras preferidas por Lucas, especialmente nos Atos dos Apóstolos (aparece 13 vezes em Atos). Na parte central dos grandes discursos que dão ritmo a Atos, Pedro repete: “Nós somos testemunhas” (cf. At 2,32;3,15;10,41). Ser testemunha era a identidade dos discípulos de Jesus. O anúncio da palavra de Deus e o testemunho de vida são palavras-chaves e inseparáveis na obra de Lucas, de modo especial na segunda obra. Testemunhar significa provar com a própria vida aquilo que se fala, se professa e no que se acredita, assumindo todas as consequências.


Mas testemunhar quem? Não se trata de testemunhar uma ideia, um conjunto de verdades; o conteúdo do anúncio não é teoria nem sistema, mas é o próprio Jesus Cristo Ressuscitado. Por isso, o anúncio pode ser feito por todos e para todos, porque não pressupõe nem culturas nem diplomas. Sendo o próprio Jesus Cristo, é suficiente tê-Lo encontrado como aquele que dá sentido a toda a vida. Para anunciar Jesus Cristo Ressuscitado não se requerem qualidades específicas, mas uma fidelidade. Testemunhar Jesus é provar com a própria vida que é ele o sentido profundo de nossa vida e da vida do mundo.


Na escolha de um caminho de vida, não basta o entusiasmo do primeiro momento nem as afirmações exaltadas de amor a Jesus. A salvação para cada um de nós e para melhorar o mundo, a família, o trabalho, depende da perseverança no caminho da justiça, do amor e da fraternidade. Por isso, Jesus disse: “Com vossa perseverança salvareis vossas vidas” (v.19).


O que significa perseverar?


Perseverar significa a capacidade de resistir diante de cada dificuldade. A capacidade de resistir carece muitas vezes de um elevado grau de força de ânimo. A capacidade de resistir, entendida como perseverança, remete para as nossas forças interiores e para as nossas firmes decisões. Como disse o filósofo romano, Epicteto (55 d.C-135 d.C. Um dos seus discípulos era Marco Aurélio): “Cada dificuldade na vida nos oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós mesmos e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos ou mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças. As pessoas prudentes enxergam além do incidente em si e procuram criar o hábito de utilizá-lo da maneira mais saudável. Você possui forças que provavelmente desconhece. Encontre a que necessita nesse momento. Use-a” (cf. A Arte de Viver, Editora Sextante).


Esta capacidade não é só para utilizar em casos alarmantes. Ao contrário, só conseguiremos avançar no nosso caminho, se procurarmos aproveitar plenamente as diferentes oportunidades de momento, tendo os olhos sempre postos na meta. Só assim, a nossa capacidade de resistir pode e deve fortalecer-se, mesmo no meio das dificuldades. É aí que ela se torna mais necessária.


A capacidade de resistir precisa haurir a confiança em Deus, confiança que tem que ser sempre renovada na oração. Como cristãos rezamos sem cessar, pedindo a graça da perseverança final. Estamos, todavia, conscientes de que isto leva consigo a disponibilidade para mudar/ se converter, porque estamos conscientes de que a nossa fidelidade é continuamente posta à prova e de que está exposta a contínuas tentações. Podemos ser tentados tanto do exterior(escândalo) como do interior. É precisamente no momento da tentação que entra em ação a capacidade de resistir (lembre-se de que o nosso velho Adão está sempre à espreita/observar ocultamente).


A espera faz com que cada cristão seja capaz de desistir em momentos de provação e de luta contra os sintomas do cansaço humano. Não devemos ignorar que nos finais do século primeiro, a cristandade primitiva teve que operar uma difícil mudança ao passar de uma espera próxima para uma espera constante do Senhor. Só a força muito profunda da sua fé lhe permitiu manter tão grande disponibilidade para essa mudança, expressando assim a sua capacidade de resistir.


Aquele que estiver aberto à capacidade de resistir e rezar com perseverança para a alcançar, poderá dizer com o Apóstolo Paulo: “Tudo posso n´Aquele que me dá força” (Fl 4,13).


Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Lucas não fornece informações sobre o fim, mas refunda a esperança no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Se Jesus Cristo venceu a morte, o maior inimigo da humanidade, o cristão não tem mais nenhuma razão de ter medo. Se o mal avançar, a confiança em Deus deve avançar também porque Deus sempre terá a última palavra e não o mundo. Ele convida os cristãos a olharem para a história para decifrar seus sinais, e reconhecer a presença de Deus pois tudo que acontece neste mundo está sempre sob o olhar de Deus. O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.


Este discurso, portanto, é o discurso sobre o Senhor Ressuscitado, o Homem fiel até a morte para dar a todos um futuro novo e diferente e para afirmar aos cristãos ou para quem quer que seja, que vale a pena lutar pelo que é digno, como o amor, a justiça, a paz etc., pois tudo isto tem a vitória sobre a morte como o ponto final. Os cristão devem sempre tomar cuidado para não relaxar, pervertendo o testemunho e acabando por assumir os vícios provocados pela sociedade injusta. O julgamento está sempre operando na história. Os cristãos devem, portanto, estar sempre de prontidão, vigiando e praticando a justiça. Somente a sua perseverança na prática e no anúncio da justiça lhes permitirá ser considerados justos e inocentes no dia do julgamento: “Com vossa perseverança salvareis vossas vidas” (.19).


Mas Lucas faz também algum alerta. Quando ocorrem perturbações políticas, guerras, quando se alastram a fome, as epidemias, as injustiças, quando a situação de miséria se torna insuportável e quando um século está para terminar, facilmente, se espalham no meio do povo boatos sobre o fim do mundo. Normalmente esses tempos difíceis criam um clima favorável para a atividade dos “visionários” : os devaneios, as supostas “revelações” ou “aparições” se alastram como o fogo nas folhagens secas e há sempre algum cristão simplório que acaba se deixando fisgar pelos fanáticos de alguma seita.


Lucas narra este episódio para alertar as suas comunidades sobre aqueles que confundem os próprios sonhos com a realidade. Ele convida seus cristãos a abandonar estas pessoas e refletir, ao contrário, sobre o que fazer, concretamente, para que o mundo (pelo menos no lugar onde estou) seja melhor, seja um lugar de muito amor e fraternidade. Portanto a verdadeira preocupação dos cristãos não é o fim do mundo mas saber o que se deve fazer hoje para que cada um se torne um sinal da esperança onde há desespero e desânimo, e para que cada um seja a mão de Deus para ajudar aqueles que estão precisando de nossa ajuda ...etc.


Não precisamos ficar esperando nenhum grande sinal ou recado do além. A palavra de Deus já é um grande recado de Deus mais visível. Basta lê-la e traduzi-la na vida cotidiana. Vamos fazer a cada dia melhor do que o dia anterior com tudo que estiver ao nosso alcance; vamos resistir, com oração contínua, ao mal com perseverante firmeza, autocontrole começando com as coisas pequenas de cada dia. É assim que o nosso hoje se torne melhor que o nosso ontem e o nosso amanhã ficará melhor ainda do que o nosso hoje. Cada dia temos que conquistar algo de bom na nossa vida. É só assim que estaremos preparados para qualquer encontro com Deus nos apelos da vida.


Como sabemos muito bem, que o futuro a Deus pertence, do presente temos que cuidar agora. Nos tempos de hoje, podemos captar o recado de São Paulo na segunda leitura de hoje, numa frase de uma canção que maioria de nós sabe: “Quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar”.  E “o lugar melhor é o lugar onde Deus quer”, disse são José Freinademetz. O lugar onde Deus mais quer é onde tem mais amor, vida, perdão, fraternidade, partilha, justiça.... Que o Senhor Jesus me encontre nestes lugares. Que o Senhor encontre a minha família no lugar onde Deus quer.


P. Vitus Gustama,svd


Domingo, 06/11/2016

O DEUS EM QUEM ACREDITAMOS É VIVO E VIVIFICANTE


XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 20,27-38


27 Os saduceus afirmam que não existe ressurreição. Alguns deles se aproximaram de Jesus, e lhe propuseram este caso: 28 «Mestre, Moisés escreveu para nós: ‘Se alguém morrer, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de que possam ter filhos em nome do irmão que morreu’. 29 Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu, sem ter filhos. 30 Também o segundo 31 e o terceiro casaram-se com a viúva. E assim os sete. Todos morreram sem deixar filhos. 32 Por fim, morreu também a mulher. 33 E agora? Na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa? Todos os sete se casaram com ela!» 34 Jesus respondeu: «Nesta vida, os homens e as mulheres se casam, 35 mas os que Deus julgar dignos da ressurreição dos mortos e de participar da vida futura, não se casarão mais, 36 porque não podem mais morrer, pois serão como os anjos. E serão filhos de Deus, porque ressuscitaram. 37 E que os mortos ressuscitam, já Moisés indica na passagem da sarça, quando chama o Senhor de ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’. 38 Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele.» 39 Alguns doutores da Lei disseram a Jesus: «Foi uma boa resposta, Mestre.» 40 E ninguém mais tinha coragem de perguntar coisa nenhuma a Jesus.
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O tema da ressurreição dos mortos opõe os fariseus aos saduceus. Os fariseus defendem a fé na ressurreição dos mortos. Enquanto os saduceus não acreditam na ressurreição por uma coisa muito prática como lemos no Evangelho deste domingo.


Mas quem são os saduceus?


Os saduceus são uma das três seitas judaicas descritas por Josefo, o historiador judeu do século I d.C (as outras são fariseus e essênios). Esse grupo é formado por grandes proprietários de terras/latifundiários(anciãos), pelos membros da elite sacerdotal e pelos grandes comerciantes. Eles controlam a administração da justiça no Tribunal Supremo(Sinédrio). Habitualmente o sumo sacerdote, a figura mais poderosa no Templo é escolhido de famílias pertencentes a este grupo. Eles também são colaboracionistas com os romanos para manter sua posição de privilégio. Por isso, eles são ricos e poderosos. Eles são “classe separada” e bem organizados. Por isso, ninguém pode entrar neste grupo.  Eles são conservadores em matéria de religião. Eles admitem apenas a Lei de Moisés/Torá(Pentateuco). Como na Torá não se fala claramente da ressurreição dos mortos e da “outra vida”, eles não acreditam nela. Para eles, tudo termina com a morte: não há ressurreição dos mortos e nem recompensa na vida futura. Não há salvação além da terrena. Neste mundo, salve-se quem puder, porque é o homem e apenas o homem quem causa a própria salvação e felicidade ou desgraça e não- salvação. Por isso, eles são hedonistas: interessa-lhes principalmente acumular riquezas e desfrutá-las o mais possível nesta curta vida terrena (Lc 12,15-21). Moralmente, eles são relaxados.


Justamente uma das questões que mais preocupam a pessoa humana é a vida e a vida após a morte. Toda pessoa tem o desejo natural de saber o que acontecerá consigo após a morte. Diante do que não conhece, o ser humano sente medo. A vida após a morte é a condição para a plenitude da felicidade procurada pelo homem. O contrário disso é o desespero, a autossuficiência, que termina na fatalidade da morte ou a busca de soluções em filosofia da reencarnação. O povo brasileiro é considerado católico. Apesar disso, na pesquisa feita em 1991, 45% dos brasileiros se declaram adeptos da doutrina da reencarnação.


As leituras deste Domingo nos anunciam claramente a vida futura (1ªleitura e Evangelho) que já tem o início neste mundo na prática do amor a Deus no próximo e perseverança em Jesus Cristo(2ªleitura).


Na leitura dos Macabeus (2Mc 7,1-14) aparece pela primeira vez no Antigo Testamento a fé clara na Ressurreição dos mortos. Nunca no Antigo Testamento foram feitas afirmações tão claras desta verdade. Os sete irmãos têm a coragem de renunciar a esta vida porque têm certeza de que Deus lhes concederá uma vida eterna. Ao rei severo e feroz eles dizem: “Tu, ó malvado, nos tira desta vida presente. Mas o Rei do Universo nos ressuscitará para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis... Para ti, porém, ó rei, não haverá ressurreição para a vida!” (2Mc 7,14). Eles não têm medo do rei muito perverso, Antíoco, que queria obrigá-los a abandonar a fé em Deus dos vivos. É um verdadeiro testemunho digno de ser imitado por nós todos.


Jesus, depois de responder a pergunta dos fariseus sobre a legalidade de pagamento de tributo a César (Lc 20,20-26), agora é desafiado pelos saduceus, que aparecem aqui em Lucas esta única vez (embora estejam frequentemente presentes em Atos: At 4,1-2;5,17;23,7-8). Negando a ressurreição, os saduceus enfrentam Jesus com uma pergunta a partir de uma história, um tanto grotesca, fundada numa teologia mal-enfocada: como fica a mulher que se casou sete vezes com homens diferentes, de quem ela será na ressurreição. Supõe-se, erroneamente, que a ressurreição seja a continuação pura e simples da vida terrena. Ao questionar Jesus, os saduceus têm a intenção de ridicularizar os fariseus (partido rival), cuja fé na ressurreição dos mortos é conhecida. Os saduceus queriam também conhecer a posição de Jesus.


No tempo do Deuteronômio, morrer sem descendente era uma calamidade porque a herança ficava perdida. Por isso, o irmão de um falecido casava-se com a viúva para gerar um filho e assegurar a herança (lei de cunhado. Cf. Dt 25,5ss).


Jesus responde, estabelecendo uma distinção entre “este mundo” e o “outro”. Na sua explicação Jesus diz que as relações humanas estarão livres de alguns embaraços que complicam a vida. Cessam-se, ai, as preocupações terrenas e desaparecem, também, as ameaças da morte. Os esquemas terrenos não têm validade. Segundo Jesus, é vão e insensato imaginar que o mundo futuro tenha as mesmas características deste mundo. Por isso, Jesus usa uma expressão “...eles são semelhantes aos anjos...” (v.36) para sublinhar a impossibilidade de descrever o modo de vida que pertence ao mistério de Deus. A comunhão com o Pai celeste torna-se penhor de vida eterna. A morte dá início, neste caso, a uma explosão de vida.


O segundo erro cometido por saduceus consiste em considerar Deus como Senhor dos mortos e não como Senhor dos vivos.  Jesus desmoraliza os saduceus dizendo que eles não conhecem as Escrituras. E cita um texto fundamental do Êxodo (Êx 3,16) para mostrar que a ressurreição existe: “Deus falou a Moisés: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’”.  Por isso, Jesus faz uma fórmula que todos nós já decoramos: “O nosso Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos.” No entanto, trata-se de uma simples fórmula, que por si é letra morta, também nos lábios de tantos cristãos. Mas Deus não é letra morta. Deus vive e quer a vida porque é a VIDA. Para todo o mundo perceber a vida dele e como prova que Deus quer a vida e é a Vida, Ele irrompe a história de maneira toda especial, inédita, típica: Deus ressuscitou Jesus Cristo. O poder de Deus é maior que as forças destrutivas presentes na história e na natureza.  A partir do momento em que ressuscita Jesus Cristo, Deus mostra a todos que essa morte não é o último passo do ser humano. A morte não tem palavra final para o ser humano. Pelo fato de Deus ressuscitar Jesus Cristo, podemos ter a certeza de que esse mesmo Deus em quem acreditamos firmemente, apesar de nossas fraquezas e pecados, nos ressuscitará também. Adorar o Deus da vida é acreditar que ele tem poder de preservar a vida, mesmo que isso supere a precisão e compreensão humanas. E sendo o Deus da vida, Ele não criou ninguém para a morte, mas para a aliança definitiva com Ele.


Nas sua carta, toda argumentação de São Paulo se baseia nessa fé na Ressurreição. Ele não cansa de repetir: “Deus que ressuscitou o Senhor Jesus, também ressuscitará a todos nós, pelo Seu poder” (1Cor 6,14; cfr. Rm 4,17;8,11; cf. também 1Cor 15,1ss). Paulo não fala da reencarnação. E isso devemos ter em mente, de maneira muita clara. Ele fala da Ressurreição. Nessa ressurreição Deus se revela como o Deus da vida, o Deus que “faz os mortos viverem e chama à exist6encia aquilo que não existe” (Rm 4,17). Em outra carta, Paulo diz firmemente: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé” (2Cor 15,14). A partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.


Se o nosso Deus é o Deus dos vivos, sem dúvida nenhuma, Ele nos chama a lutar em todas as frentes que promovem a vida. Crer no Deus dos vivos implica defender a vida, especialmente a dos fracos e indefesos e leva a comprometer-se com aqueles que veem o seu direito à vida permanentemente violentado. Quem acredita que Jesus Cristo ressuscitou interessa-se pela vida em abundância também aqui na terra. Aquele que defende e protege a vida vai encontrar, com certeza, o Deus da vida. Unidos a Jesus ressuscitado participaremos de sua vida pois Ele é a Ressurreição e a Vida (Jo 11,25).


Portanto, nem precisamos temer as noites do sofrimento e da injustiça, da traição e do desespero, das lágrimas e da morte. Porque a ressurreição é a vitória do amor sobre o ódio, da verdade sobre a mentira, da vida sobre a morte. E tudo isto é tão certo como é certo que depois da noite virá o dia. A ressurreição de Cristo é o mais extraordinário anúncio do cristianismo, fundamento de nossa luta, de nossa fé e de nossa esperança.


Por tudo isso, ao voltarmos à nossa casa e à nossa vida, vamos viver com mais esperança e ânimo porque Deus da vida é o Deus conosco. Ninguém vai conseguir tirar da sua memória esta verdade se você não deixar. Se o mal avançar, a nossa fé no Deus da vida deve avançar também porque Ele sempre tem a última palavra. Pecaremos se pararmos de acreditar neste Deus da Vida. “Ter medo de amar é ter medo da vida, os que temem a vida já estão em boa parte mortos” (Bertrand Russel). “Devemos tratar de viver de maneira que, quando morrermos, até o coveiro tenha dó” (Mark Twain).


P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 06/11/2016




SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS


Evangelho: Mt 5,1-12a


Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 'Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12ª Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.
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I. Ser santo


O termo “santo” é uma tradução da palavra hebraica “qadosh” /” qodesh” que basicamente significa “cortar”, “separar” aponta para uma ideia de separação do profano. No Novo Testamento é representado pela palavra grega “hagios”. Emprega-se para designar as pessoas ou coisas ou lugares destinados ao uso sagrado, bem como os dias reservados ao serviço religioso (Ex 20,8;30,31; Lv 21,7; Nm 5,17; Ne 8,9;Zc 14,21), tudo que a lei cerimonial manda separar (Ex 22,31;Lv 20,26), a purificação de carne e do espírito (2Cor 7,1;1Ts 4,7), inclusive a separação dos falsos deuses e práticas pagãs (Lv 20,6-7;21,6). O santo e as coisas santas são os que não se tocam ou dos quais alguém se aproxima somente dentro de certas condições de “pureza ritual” (compare com o Ato penitencial da missa). Eles provocam um sentimento misto (numinoso): tremendo, espantoso e assim distancia, mas ao mesmo tempo é fascinante, atrai o homem.


Mas a noção bíblica de santidade não só para na apresentação das reações do homem diante do divino e na definição da santidade como negação do profano, ela define também a santidade na sua própria fonte, em Deus, de quem deriva toda santidade. A santidade é qualidade essencialmente divina. Ela caracteriza a essência da divindade (Am 4,2;Is 40,25;1Sm 2,2s). Nas criaturas a qualidade deriva do divino, por uma espécie de contato peculiar. Deus é quem nos santifica com o seu amor que é graça, misericórdia, perdão e fortaleza. Quanto mais a santidade de Deus penetra no coração de um homem, mais ela o ilumina sobre a sua miséria profunda. Por isso, Jean Lafrance disse: “Tornar-se santo é algo ao mesmo tempo simples e complexo. É simples no sentido de que basta permitir o crescimento da vida trinitária que recebemos no batismo. Mas ao mesmo tempo é uma obra complicada, porque nós não somos simples (simples quer dizer sem desdobramento). Nosso coração parece atado, retorcido, e nossos pecados formaram como uma carapaça de pedra em torno do nosso coração”.


A santidade é uma realidade essencialmente dinâmica. Deus se manifesta e comunica ao homem sua própria santidade. Deus chama o homem, mediante a ação do espírito Santo, para que se renove em todas as dimensões de sua existência e seja reflexo e instrumento de sua vontade divina para a obra de salvação do mundo.


A partir disso tudo, ser santo não significa fazer milagres (embora isso possa acontecer), chamar atenção com fatos extraordinários, ser estranho do resto dos homens ou ser isolado do dia-a-dia por ter medo de ser contaminado pelo mundo. Ser santo é ser capaz de colocar-se nas mãos do Deus Santo, contar com ele, sabendo dependente dele, em busca de configuração com Cristo modelo acabado de todas as virtudes. Por outro lado, colocar-se a serviço dos semelhantes/próximo desinteressadamente, fazendo-lhes o bem, como resposta aos benefícios recebidos de Deus. O enraizamento em Deus desabrocha em forma de misericórdia para com o próximo.


Por isso, a santidade não consiste na grandeza das obras exteriores ou na riqueza dos dons naturais, mas no pleno desenvolvimento da graça e das virtudes teologais (fé, esperança, caridade) recebidas no batismo e das virtudes morais/cardeais (prudência, justiça, fortaleza, temperança) de modo que o mais humilde cristão, mesmo sem tarefa específica na Igreja, sem dotes extraordinários, na maior simplicidade do seu coração, poderá chegar a um alto grau de santidade.


Portanto, a vocação à santidade é universal, é uma meta a ser atingido por todos os cristãos (cf. Lumen Gentium, 39-40). Como São Paulo diz: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4,3; Ef 1,4; cf. também Mt 5,48). Ninguém é excluído deste apelo nem pode dispensar-se de dar sua resposta. Este ideal é atingível por todos nas situações mais simples do dia-a-dia. Se o cristão o fizer com a graça de Deus, sempre tem uma história com final feliz como todos os santos comemorados neste dia.


O culto aos santos é a consequência de nosso Credo, conhecido como Símbolo Apostólico, onde professamos: “Creio...na comunhão dos santos...”. Esta pequena frase nos indica e afirma que a nossa relação com os santos é contínua porque acreditamos na não –interrupção da comunhão eclesiástica pela morte e no fortalecimento da mútua comunicação dos bens espirituais (LG no 49; compare com Rm 8,38-39). A Igreja dos peregrinos sempre teve e continua tendo perfeito conhecimento dessa comunhão reinante em todo Corpo Místico de Jesus Cristo (LG 50). Podemos dizer e afirmar que no culto dos santos é o mistério íntimo da Igreja, peregrina e celestial, único Corpo de Cristo, que se manifesta em toda sua amplitude - de tempo e espaço - e profundidade, por seu enraizamento em Deus e em Cristo, na unidade do Espírito. A Igreja venera os santos como exemplos. A Igreja apresentou aos fiéis ao longo das gerações os santos, exemplos de santidade, atraentes por sua intercessão na presença do Pai e estimulantes da vocação comum de todos os fiéis à santidade. O Culto aos santos une-nos a Igreja celestial. Dá-nos testemunho de nosso destino final.


II. As bem-aventuranças são o programa proposto por Jesus aos que querem segui-lo com todas as consequências.


Neste dia em que celebramos a festa de todos os santos, reconhecidos e anônimos incontáveis, como descreve o livro do Apocalipse. Além disso, nunca podemos esquecer que há exemplos de santidade e heroísmo cristão em outras Igrejas, religiões, povos e culturas. Reconhecer essa presença é uma ajuda para superar os nossos preconceitos e para acolher com alegria esses parceiros na construção do Reino de Deus ou do mundo mais fraterno), lemos o evangelho das bem-aventuranças de Mateus. Dentro do contexto da festa, as bem-aventuranças abrangem os três momentos do tempo: celebramos os bem-aventurados do passado que testemunhavam sua fé heroicamente; celebramos também a nossa vocação à felicidade sem fim, à santidade futura: razão de nosso ser, de nossa vida, de nossa peregrinação e de nossa adoração a Deus, pois aquele que sabe aonde vai e sabe do caminho também, tem muitas possibilidades de ser feliz e de usufruir de todas as coisas boas que Deus lhe oferece diariamente. E por fim, olhando para estas bem-aventuranças, podemos celebrar no tempo presente a santidade, as bem-aventuranças, como dom ou graça presente porque elas são proclamação da amizade de Deus para as pessoas que participam do espírito destas bem-aventuranças. Elas são um prelúdio da felicidade eterna. As bem-aventuranças são, então, o código da nova aliança que não impõe preceitos imperativos mas enuncia-se como promessa, convite e proclamação para aqueles que as praticam.


Mateus inicia o Sermão da Montanha com as bem-aventuranças (em grego, makariori). No grego clássico, esta palavra (makariori) significava “felicidade, boa sorte, bem estar”. Píndaro, Platão e Aristóteles, por exemplo, a usaram regularmente em saudações, para enviar votos de felicidade e para descrever a pessoa bem-nascida, educada ou feliz. O uso que Mateus dá à palavra tem esse mesmo sentido de perfeição, alegria e recompensa em decorrência de se viver da maneira que as bem-aventuranças encorajam.


As bem-aventuranças começa com dois versículos introdutórios bem densos teologicamente: “Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava...”


Jesus vê as multidões. O olhar de Jesus é o olhar de Deus: penetrante e fascina. O olhar que não fica na superfície, mas penetra profundamente, atinge o coração e vê o que está no íntimo do homem. Os olhos de Jesus são os que sabem comunicar para estabelecer um contato. As multidões que Jesus enxerga diante de si são aquelas que lhe seguiram, aquela massa heterogênea, vindo de todas as partes de Israel (Mt 4,25). O discurso vai-se dirigir, portanto, a toda a terra de Israel, aos representantes de todos os distritos e de todas as tribos. Isto já basta para sublinhar a importância do discurso que vem em seguida.


Jesus subiu ao monte. A palavra “monte” simboliza o lugar de Deus e o de sua manifestação (Sinai, Horeb, Tabor etc.), a esfera divina, o do encontro com Deus. Jesus nos convida a subir ao monte. Nossa vida deve ser sempre uma subida espiritual até chegar a Deus, à esfera divina. Quando o cristão estiver no lugar de Deus, ele poderá enxergar melhor sua vida e as pessoas ao seu redor. Consequentemente, à vaidade ele opõe a humildade, às blasfêmias a exortação, à arrogância uma educação sem falha e ele transforma sua crítica em humildes sugestões, sua lucidez em vigilância, sua força em persuasão e sua caridade em delicadeza.


Jesus sentou-se. “Estar sentado” é a atitude própria do mestre. Nas sinagogas sentados os rabinos ensinavam na cátedra de Moisés (Mt 23,2). Esta observação, sentar-se, revela que se trata de uma instrução importante, de um ensinamento oficial. A expressão também enfatiza a importância do ensinamento que vai começar imediatamente. Com isso, Jesus interpreta normativamente a Palavra de Deus. E ele traduz a Palavra de Deus para aquela multidão, mais acostumada a ouvir do que a ler, como chamas que iluminam e esquentam, mas que também queimam.


Os discípulos aproximaram-se de Jesus. A palavra “discípulo” aqui significa literalmente “aprendizes” ou “estudantes”. “Discípulo” é uma das palavras preferidas de Mateus e “membros de sua comunidade”. Ao dizer que os discípulos aproximaram-se de Jesus, Mateus quer nos dizer que não existe mais a distância que separe o ser humano de Deus. Se no Antigo Testamento só Moisés que subiu ao monte para encontrar-se com Deus e para receber o decálogo (cf. Ex 19-20), agora a partir de Jesus, qualquer ser humano tem o acesso a Deus. Mateus justamente quer nos mostrar, através de seu evangelho, que Deus é Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23;18,20;28,20). A aproximação/subida dos discípulos mostra que não há mais distância entre Deus e o homem. Pela adesão a Jesus, superou a distância que os separava do Reinado de Deus (Mt 4,17: o Reino dos céus está próximo). Quem aderir a Jesus também não criará distância dos outros, pois os outros são passagem obrigatória para chegar até Deus.


Jesus pôs-se a falar e os ensinava. Ensinar é uma atividade característica de Jesus (Mt 4,23-25;9,35;11,1), que os discípulos só poderão assumir depois de ver Jesus Ressuscitado (Mt 28,16-20).


Quem são os felizes na proclamação de Jesus? Basta ler as oito bem-aventuranças!


O feliz é aquele que é pobre no espírito (v.3). O termo “espírito” na concepção semita conota sempre força e atividade vital. Os pobres em espírito são os “curvados de espírito” (anawim), os que se submetem interiormente, sem resistência, à vontade de Deus, os que aceitam humildemente o senhorio de Deus sobre suas vidas. Esta atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé, se traduz em atitudes e condutas de desapego aos bens materiais, de bondade, de partilha que é a alma do projeto/plano de Deus, e de solidariedade.


Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento (v.4), mas os que, apesar de disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos mas pacientes e indulgentes pois a justiça do Reino não será imposta através da violência que destrói, nem pelo “extermínio dos filhos das trevas” mas através da força de Deus e como fruto da confiança inabalável na justiça de Deus em favor dos injustiçados e humilhados.


Jesus não canoniza a tristeza nem condena a alegria. Jesus declara felizes os que estão aflitos (v.5) por experimentarem a ausência da justiça de Deus mas continuam esperando em Deus pois só Ele pode converter a tristeza em alegria e o pranto em canto. Todos os que se afligem diante das manifestações do anti-Reino serão consolados com a certeza do amor de Deus, mesmo no meio das maiores aflições. E com a certeza de que os frutos do que agora semeiam com lágrimas, a bondade, a justiça, a lealdade, serão colhidos com cânticos.


Para Jesus são felizes aqueles que praticam a justiça e não iniquidade (v.6). A “justiça nova” proclamada por Jesus é o tema central do Sermão da Montanha. Esta palavra aparece cinco vezes no Sermão da Montanha, de um total de sete vezes em todo o evangelho (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33;21,32). A justiça aqui significa viver em conformidade com a vontade de Deus, submeter-se a Ele sem restrições. É a prática dessa justiça, a conduta em conformidade com a vontade de Deus, que dá acesso ao Reino de Deus.


Os felizes não são os que, por índole natural, têm um coração sensível e sentimentos de compaixão (v.7), mas os que fazem gestos concretos de misericórdia, ajudando e servindo os necessitados. O justo é aquele que é misericordioso e doa (Sl 37,21). Não se reduz a um puro sentimento afetivo; exige um movimento efetivo em direção ao necessitado. Exige emoção no sentido mover-se em direção ao outro e com o outro. Ao sentir-se “comovidos” pelo sofrimento dos outros, os misericordiosos entram em ação para aliviar e, se possível, curar o sofrimento atacando suas causas. O amor misericordioso constitui o centro do mistério de Deus revelado em Jesus Cristo. Tudo que Jesus faz, nasce de suas entranhas de misericórdia. A misericórdia pertence ao núcleo da pregação de Jesus em Mateus (5,17-20;9,13;12,7;25,31-46; cf. também 18,23-35;6,14s).


Os que olham o mundo, as pessoas com os olhos de Deus são declarados felizes(v.8), pois tudo isso é a expressão da pureza do coração, um coração limpo, simples e sincero. É declarado feliz quem se põe a serviço de Deus e dos homens sem cálculos interesseiros e sem falsa piedade; o feliz é quem é transparente no pensar e no agir.


Os felizes não são os que têm temperamento tranquilo, que desfrutam da paz interior do coração e que não perturbam os outros, mas os que fazem, constroem, promovem a paz no dia-a-dia (v.9), tecendo laços novos de solidariedade, de verdade e de justiça (cf. Sl 34,14s). A paz(shalom) é síntese de todos os bens messiânicos, como dom aos homens que Deus ama (Lc 2,14). Aos construtores da paz é feita a promessa solene de que no juízo final lhes será dado o maior de todos os títulos: “Serão chamados filhos de Deus”.


E na última bem-aventurança(vv.10-12) se sublinha uma verdade: se não sofremos nenhuma forma de perseguição, de injúrias e calúnias por causa do Evangelho é sinal de que não optamos verdadeiramente por Jesus e seu Reino, pois o Evangelho que não incomoda mais não é mais o evangelho. Quem, ao anunciar o Evangelho, for aplaudido por todos e sobretudo pelos donos de poder, pode estar certo de que ele ainda não é o profeta verdadeiro, pois ele deixou de ser o sal da terra para converter-se em adoçante. Tirar do evangelho de Jesus o que possa ferir os que podem matar porque têm em suas mãos os poderes mortíferos da terra significa trair o evangelho e parar de ser cristão. O teste para verificar a fidelidade a Jesus de cada cristão, de cada comunidade cristã, e da Igreja como um todo, é ser ou não ser perseguido pelas forças do anti-Reino porque as razões da perseguição só podem ser mentirosas e as testemunhas só podem ser falsas. No caso de perseguição (como também na primeira bem-aventurança), a promessa é formulada no presente: “Deles é o Reino dos céus”. O reino lhes pertence desde agora.


Portanto, que cada um de nós que se chama cristão, se pergunte: o que falta ainda em mim destas bem-aventuranças? Quais delas tenho vivido? E por que ainda não tenho vivido algumas dessas bem-aventuranças?


P. Vitus Gustama,svd

02/11/2016




DIA DE FINADOS


02 de Novembro


A vida é um mosaico de tempos diversos. Cada momento é assinalado por algo que se deixa ou por algo que se descobre. Cada momento comporta a separação daquilo que se era, para se aventurar em direção do que se pode vir a ser. Nesta dinâmica universal e constitutiva da vida, relação e separação, encontro e despedida, nascimento e morte, não se excluem, mas se atraem. A relação atrai a separação. O encontro atrai a despedida. O nascimento atrai a morte. Aquele que é capaz de acolher, saberá também se separar, assim como a separação é pré-requisito de qualquer encontro. Talvez na linguagem bíblica possamos dizer: “Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para cada coisa de baixo do céu: tempo para nascer, e tempo para morrer... Tempo para chorar, e tempo para rir... Tempo para dar abraços, e tempo para afastar dos abraços” (Ecl 3,1-2.4.5b). Cedo ou tarde chegará o momento de dizer “adeus”: o amor ganha, então, as feições da dor. E repentinamente o passado reaparece com suas recordações, o presente se impregna de solidão e o futuro se desdenha repleto de incertezas para quem não se prepara e não sabe lidar com tudo isso. Um poeta espanhol escreveu: “Partimos, quando nascemos, caminhamos enquanto vivemos, e chegamos no momento em que morremos”.


Dia de Finados é o dia especial em que todos nós somos chamados a voltar para a raiz familiar. É o dia em que todos nós voltamos a sentir, de uma maneira especial, a presença de todos os membros de nossa família que já partiram. Por algum instante visitamos, na memória, o passado no qual convivíamos e que no presente estão ausentes fisicamente. É um dia de saudade dos que conviveram conosco, mas partiram antes de nós. É o dia de saudade porque quando a morte atinge nossos entes queridos, uma parte de nós se vai com eles. Nós nos unimos à sua entrega total e sabemos que também nós estamos partindo (morrendo). Algo de nós se vai para sempre quando uma pessoa amada morre.


O Dia de finados quer nos relembrar que a vida é sempre uma partida. Há uma partida para os olhos que se fecham, para os ouvidos que se cansam e para o corpo que envelhece.  A condição humana é ser passageiro, ser transitório, ser limitado. Estamos sempre na saudação dos que chegam, no nascimento, e da despedida dos que partem sem volta para este mundo fisicamente, na morte. Em tudo há um adeus. E ninguém tem poder de parar o tempo. Todo nascimento é uma referência existencial à morte que é seu termo. Em outras palavras, a chegada será sempre uma partida. Um encontro será sempre uma despedida. Em cada nascimento esconde-se a morte.


Para nós que acreditamos no Deus da Vida a morte é o caminho que termina em Deus, de onde, um dia, saímos. Isto significa que nós pertencemos ao Senhor: “Se vivemos, é para o Senhor, que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). A vida que nos foi dada não pertence ao homem, mas a Deus.  Essa pertença a Deus é o que torna a vida algo sagrado. E para todos os homens, a vida temporal é dada como semente de vida eterna (cf. 1Cor 15,35-58). Por isso, morrer significa entregar totalmente a vida a Deus. O mesmo Senhor que nos criou por amor, nos acolhe também para um amor infinito, para uma perfeita comunhão com Ele, para uma eternidade (cf. Jo 14,1-6). É uma partida com chegada definitiva. São Pedro expressa esta realidade nestas palavras: “Fugindo da corrupção, nos tornamos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4). Para nós, morrer é entregar a vida para Deus a exemplo de Jesus Cristo, que ao entregar a vida totalmente à vontade de Deus, ele experimentou a ressurreição. A ressurreição de Jesus é a mensagem mais clara sobre o futuro do homem (cf. 1Cor 15,12-19).


A Igreja sempre acredita na imortalidade da alma. Por isso, no Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos... Creio na ressurreição da carne... Creio na ressurreição da carne...Creio na remissão dos pecados”. Este Credo se baseia sobre a ressurreição de Jesus. Até São Paulo chegou a dizer que se Cristo não ressuscitasse, seria vã a nossa pregação e seria vã também a nossa fé (cf. 1Cor 15,14). A ressurreição do Senhor vem nos dizer que o homem não nasce para morrer, mas nasce para ressuscitar, para viver. A vida não pertence à morte e sim a morte pertence à vida. Por isso, um cristão nunca morre, e sim ele nasce duas vezes: nasceu do ventre materno pela primeira vez e nasce para a vida eterna pela segunda vez. A morte é considerada como uma passagem para a vida. O destino do homem, então, não é o cemitério. Não estamos caminhando para o cemitério, mas para a Casa do Pai que está pronto para nos acolher e abraçar (cf. Jo 14,1-6).


E nós que ainda nos resta a vida, o que devemos fazer?


Em primeiro lugar, precisamos valorizar a presença, pois ela é um dom. Muitas vezes sentimos a importância de uma pessoa somente na sua ausência. Precisamos estar conscientes de que como é bom estarmos juntos enquanto for dado a nós o dom de convivência, pois vai chegar um dia em que seremos obrigados a viver de outra maneira.


Em segundo lugar, não precisamos acumular as flores para formar um dia uma coroa de flores para um caixão, pois uma flor oferecida para uma pessoa viva vale muito mais do que uma coroa de flores para um morto. Que a coroa de flores oferecida na morte de alguém represente todas as flores dadas durante a vida daquele que já se foi.


Em terceiro lugar, não precisamos esperar alguém morrer para elogiá-lo ou para falar de suas virtudes. É bom elogiarmos quem merece ser elogiado enquanto ele estiver convivendo conosco. Pois um elogio sincero dado para um vivo vale muito mais do que um elogio triste para um caixão. Perdoemo-nos mutuamente enquanto estivermos vivos, pois como é bom experimentarmos o que é que a ressurreição ou a libertação enquanto para nós é dado o dom de viver um pouco mais.


Em quarto lugar, como é triste morrer sem ter sabido viver e ao mesmo tempo como é triste viver sem aprender a morrer. Para vivermos melhor e com outra intensidade precisamos aprender a morrer. É o paradoxo da vida: para viver precisamos morrer.


Precisamos aprender a morrer de nosso egoísmo, de nossa prepotência, de nosso rancor, de nossa falta de perdão, de nossa vingança, de nossa soberba que mata a caridade e a fraternidade, de nossa preguiça de rezar e de participar do banquete celeste aqui na terra que é a eucaristia. Em outras palavras, precisamos aprender a morrer de nossa morte para que possamos ressuscitar para uma vida com Deus.


Para olhar o mundo, a nós mesmos e todos os acontecimentos na plenitude da verdade não há ponto de observação melhor que o da morte. A partir dali tudo é visto em sua justa perspectiva. Visto a partir desse ponto, tudo ganha seu justo valor. Olhar a vida a partir da morte nos ajuda extraordinariamente a vivermos bem e a valorizarmos cada segundo de nossa vida. A morte nos impede que nos prendamos às coisas, e nos impede que fixemos aqui embaixo a morada de nosso coração esquecendo que “não temos aqui residência permanente” (cf. Hb 13,14). Não é a morte que é absurda, mas a vida sem a morte.


Que os que nos precederam descansem em paz (RIP) e que nós, que ainda estamos peregrinando neste mundo, vivamos em paz para que possamos alcançar a morada eterna, a casa do Pai do céu. Assim seja.


Para Refletir


Prefiro que partilhes comigo uns poucos minutos,
Agora que estou vivo,
E não uma noite inteira quando eu morrer.


Prefiro que apertes suavemente a minha mão,
Agora que estou vivo,
E não apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.


Prefiro que faças uma só chamada,
Agora que estou vivo,
E não faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.


Prefiro que me ofereças uma só flor,
Agora que estou vivo,
E não me envies um formoso ramo e uma coroa de flores
Quando eu morrer.


Prefiro que elevemos juntos ao céu um oração,
Agora que estou vivo,
E não uma oração poética quando eu morrer.


Prefiro que me digas umas palavras de alento,
Agora que estou vivo,
E não um dilacerante poema quando eu morrer.


Prefiro que um só acorde de guitarra,
Agora que estou vivo,
E não uma comovedora serenata quando eu morrer.


Prefiro que me dediques uma leve prece,
Agora que estou vivo,
E não um político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.


Prefiro desfrutar de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,
Agora que estou vivo,
E não de grandes manifestações quando eu morrer.


Prefiro escutar-te e ver-te um pouco nervos@
Dizendo o que sentes por mim,
Agora que estou vivo,
E não um grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....


Aproveitemos a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos


Agora que estão entre nós...
Valorize as pessoas que estão à tua volta.
Ama-as, respeita-as e lembra-te delas,
Enquanto estão vivas.
Deus te abençoe!


Pe. Vitus Gustama, SVD