sábado, 21 de janeiro de 2017

28/01/2017

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NO SENHOR  QUE SALVA EM TODOS OS MOMENTOS!

Sábado Da III Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Hb 11,1-2.8-19

Irmãos, 1A é um modo de possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem. 2Foi a que valeu aos antepassados um bom testemunho. 8Foi pela que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu, sem saber para onde ia. 9Foi pela que ele residiu como estrangeiro na terra prometida, morando em tendas com Isaac e Jacó, os coerdeiros da mesma promessa. 10Pois esperava a cidade alicerçada que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor. 11Foi pela também que Sara, embora estéril e de idade avançada, se tornou capaz de ter filhos, porque considerou fidedigno o autor da promessa. 12É por isso também que de um homem, marcado pela morte, nasceu a multidão “comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia das praias do mar”. 13Todos estes morreram na . Não receberam a realização da promessa, mas a puderam ver e saudar de longe e se declararam estrangeiros e migrantes nesta terra. 14Os que falam assim demonstram que estão buscando uma pátria, 15e se se lembrassem daquela que deixaram, até teriam tempo de voltar para . 16Mas agora, eles desejam uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste. Por isto, Deus não se envergonha deles, ao ser chamado o seu Deus. Pois preparou mesmo uma cidade para eles. 17Foi pela que Abraão, posto à prova, ofereceu Isaac; ele, o depositário da promessa, sacrificava o seu filho único, 18do qual havia sido dito: “É em Isaac que uma descendência levará o teu nome”. 19Ele estava convencido de que Deus tem poder até de ressuscitar os mortos, e assim recuperou o filho — o que é também um símbolo.

Mc 4,35-41

35Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca começava a se encher. 38Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”  39Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes ?”  41Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”
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Viver Com Fé e Da Fé Em Deus Da Promessa

A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem” (Hb 11,1)

Próximo do fim de sua Carta aos hebreus, o autor insiste em exortar à comunidade para assumir determinadas atitudes. Hoje a exortação é sobre a fé. Em primeiro lugar, ele faz um tipo de definição da fé. Em seguida, ele nos apresenta os modelos da fé no AT.

A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. A fé é um paradoxo, pois ela nos faz “possuir” já o que ainda não temos e nos faz conhecermos aquilo que está fora da capacidade de nossos sentidos. A fé é um início do Céu, da alegria eterna, presente já no seio da monotonia cotidiana. A fé é um dinamismo vital extraordinária, uma aventura na companhia do Invisível. A fé é a familiaridade com o Céu antecipado logo na terra. A fé é um modo novo de conhecimento através dos “olhos novos” capazes de ver tudo, até o invisível. A fé é confiar na Palavra de Alguém maior que nós. A fé é pôr-se em caminho, é avançar na noite até a luz. A fé é esperar uma cidade perfeita onde tudo será edificado sobre o amor. A fé é trabalhar pelo bem sem se preocupar com os resultados. A fé é caminhar na direção de bem sem estar preso nos passado. Milhares de homens e de mulheres antigos e atuais, nem mais nem menos inteligentes que os demais deram sentido para sua vida pela fé diante de tantos homens e mulheres que acham que nesta vida tudo vai para o nada.

A fé não nos liberta da dureza do caminho, do remar contra corrente, mas nos mantém na segurança de que o Senhor está conosco. Na linguagem do evangelho deste dia, a Fe é hoje uma “reserva de confiança” num mar agitado pronto para nos afundar.

Para animar os destinatários na fé perseverante, o autor da Carta aos hebreus lhes põe uns modelos do AT, pessoas que tinham fé e tinham sido fieis a Deus nas circunstâncias mais difíceis.  Primeiro, ele nos recorda os modelos da fé mais radical: os patriarcas: Abraão e Sara, sua esposa; Isaac; Jacó. Esses remotos antepassados de Israel cujas histórias lemos em Gn 12-37 se convertem em modelos de uma confiança ilimitada no Senhor. Abandonaram sua própria pátria para ir atrás da promessa feita por Deus, viveram da esperança na cidade celestial enquanto habitavam em tendas de acampamento. Apesar da esterilidade creram na promessa divina de que teriam uma numerosa descendência, inclusive Abraão chegou a sacrificar seu próprio filho, que era fruto da promessa de Deus que, por causa de sua fé, no lugar de seu filho foi sacrificado um carneiro. A fé de Abraão como “um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem” está fundada numa profunda confiança em Deus da promessa. O autor da Carta disse que os patriarcas, inclusive, morreram na fé, pois não viraram cumpridas em vida as promessas divinas.

A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Somos peregrinos até a possessão dos bens definitivos. Diante de nós vai Cristo que deu sentido para nossa entrega, a nosso sacrifício, a nosso caminhar sem voltar o olhar para trás, a nossa esperança nos bens definitivos. Não vamos atrás de um sonho nem de uma imaginação e sim atrás de uma realidade: a Glória, junto ao Filho de Deus que está sentado à direita do Pai. É verdade que se levantam muitas vozes que querem nos desanimar ou que querem que vivamos com o olhar posto unicamente no passageiro, no efêmero. No entanto, não devemos perder de vista a chamada de que Deus nos fez para que vivamos com Ele eternamente. Caminhemos até a pátria da liberdade e da solidariedade, da verdadeira fraternidade e igualdade entre os seres humanos.

É Preciso Manter a Fé Em Deus Que Nos Salva Apesar Das Dificuldades Que Nos Cercam

Depois da série de parábolas, Marcos aborda uma série de milagres. Os quatro milagres citados aqui não foram feitos na presença da multidão e sim diante dos discípulos para sua educação.

A imagem de Jesus que contemplamos na leitura dos quatro milagres é esta: Jesus tem um poder supremo sobre as forças da natureza (Mc 4,35-41) e derrota uma legião de demônios (Mc 5,1-20); cura e salva uma mulher e vence a morte (Mc 5,21-43). Os dois últimos milagres se entrecruzam no relato. Ao relatar esses milagres Marcos quer nos transmitir uma certeza: Jesus pode salvar. Entram aqui os temas da e da salvação. Por isso, Marcos não se limita a contar os milagres. Marcos se sente um evangelista que anuncia, à luz da Páscoa, o que o Senhor fez e O anuncia para suscitar a em Jesus Cristo. Ainda hoje esses relatos são anúncios de salvação, pois ao lê-los e ao meditá-los, impõem-nos um exame de nossa . Temos em Jesus ou nós acreditamos mais na força do mal?

1. É Preciso Sair Ao Encontro Dos Outros

Depois que terminou o discurso das parábolas, Jesus ordena aos discípulos para cruzarem o mar da Galiléia com ele: “Vamos para outro lado do mar”. Os discípulos lhe obedecem. Jesus convida os discípulos a ir a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino. Atravessar, ouir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, é pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. Precisamos ir a “outro lado”. "Levar os homens à verdade é o maior benefício que se pode prestar aos outros. O grande mistério da santidade é amar muito" dizia Santo Tomás de Aquino. Quem sabe no “outro ladoem vez de evangelizarmos os outros, seremos evangelizados. Travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente. Para atravessar é preciso encarar os desafios, superar os obstáculos e perseverar no alcance dos objetivos.

2. Jesus Pode Salvar

Na travessia Jesus parece ausente, pois dorme e parece estar completamente alheio à tragédia do mar (v.38a). O sono tranqüilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus.

A descrição detalhada de Marcos sobre o que estava acontecendo permite dar-se conta de que nãoesperança alguma: “Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca começava a se encher”. A barca está se afundando. Somente então é que os discípulos olham para Jesus que dorme e com tom de reprová-lo, o despertam com as seguintes palavras: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”. Não conheciam Jesus. Não conseguiram imaginar e acreditar que, com Jesus, jamais podiam afundar-se. E Jesus se levantou e com seu poder Jesus acalmou o vento: “Silêncio! Cala-te!”.

Por que Marcos descreve o relato do mar como se fosse um exorcismo? Na Bíblia, o mar e a escuridão são símbolos do caos inicial, dominado e vencido pela força criadora de Deus (cf. Gn 1). O mar é a sede de todas as forças hostis a Deus, mas são vencidas para sempre por Deus (cf. Ap 21,1). A vitória sobre as forças maléficas não está no homem e sim em Deus, o Único quetransformou a tempestade em leve brisa e as ondas emudeceram” (Sl 107,29). Marcos quer nos revelar a certeza de que o único Salvador, o único que pode salvar o homem de todas as forças maléficas é Jesus Cristo.

A natureza volta à calma; os discípulos não. Ficam ainda mais assustados e diziam: “Quem é este, a quem até o vento e o mar lhe obedecem?”.  E “eles sentiram um grande medo”, isto é, ficaram sob o efeito do sentimento de grande perturbação e medo: estáticos e reverenciais que sentem diante do divino.

3. É Preciso Ter Em Jesus Em Todos Os Momentos

Depois que acalmou o vento, Jesus faz uma censura aos discípulos sob a forma de dupla pergunta retórica, assim correspondendo e contestando a censura deles que foi também em forma de pergunta retórica: “Por que tendes medo? Ainda não tendes ?”. O “ainda não” da pergunta de Jesus faz referência tanto para trás (passado) como para frente (futuro). Para trás (passado), refere-se à experiência prévia que os discípulos tiveram da poderosa palavra de Jesus demonstrada em ensinamentos e em milagres, uma experiência que deveria ter despertado a deles em Jesus, mas não aconteceu. Mas o “ainda nãotambém antecipa com expectativa algum momento futuro, quando os discípulos terão a . Com esta pergunta, Jesus exorta aos discípulos que confiem nele em todo momento e circunstância. Somente com a é possível manter-se firme diante da aparente ausência de Jesus. A falta de impede reconhecer a presença atuante de Deus no cotidiano.

Depois destas palavras os discípulos ficam “muito cheios de medo”. É um medo diferente do anterior. Antes eles temiam que as forças ameaçadoras, as forças da morte não pudessem ser vencidas, por isso ficavam paralisadas e impotentes diante delas. Agora o medo os atinge ao perceberem tais forças vencidas. Esse medo é o temor reverencial diante do mistério da força e do poder de Deus em Jesus Cristo. Esse temor de Deus indica a aceitação da impossibilidade humana de vencer forças poderosas de morte e ao mesmo tempo o reconhecimento de que Deus pode superá-las É preciso adorar a este Deus. 

Ainda não tendes ?”, Jesus perguntou retoricamente aos discípulos. Segundo a Carta aos Hebreus: ”A é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem” (Hb11,1). Trata-se de uma fórmula admirável! A é um paradoxo. Ela nos faz “possuir o que não temos e nos faz “conhecer” o que está fora da capacidade de nossos sentidos. A é Deus no homem que nos leva ao entusiasmo (entusiasmo= Deus está dentro: em + theos); é um inicio do céu; é a alegria eterna, presente no seio da monotonia cotidiana. A é um dinamismo vital extraordinária; uma aventura em companhia do Invisível; é a familiaridade com um imenso entorno de realidades invisíveis; é um novo modo de conhecimento, uns “olhos novospara ver tudo com profundidade. A é confiar na palavra de alguém; é pôr-se em caminho; é atravessar a noite até a luz; é viver e esperar uma cidade perfeita onde tudo será edificado sobre o amor. A é crer na fecundidade de minha vida com a ajuda divina, apesar das aparências contrárias; é trabalhar segundo meus meios e confiar nas promessas de Deus que é muito fiel a Si próprio. “Ainda não tendes ?” é a pergunta dirigida a cada um de nós que nos chama a verificarmos até que ponto temos realmente . "Quanto mais um ser se afasta de Deus, tanto mais ele se aproxima do nada. Quanto mais se aproxima de Deus, tanto mais se distancia do nada" dizia Santo Tomás de Aquino.

A cristã tem importantes funções. Ela liberta o homem do medo, da auto-suficiência, do poder destruidor da ignorância de Deus, do medo da morte. A no Deus dos vivos tem força em si mesma para vencer o medo da morte; tem luz para iluminar a obscuridade da vida e da morte; tem coragem para superar o medo que nos paralisa; cura as feridas dos fracassos na luta para mudar este mundo e convertê-lo em reino de Deus. Nossa fé é fé no Deus vivo e ressuscitador. Não podemos cair na tentação do finito e do imediato. A fé cristã é confiança no Deus que faz possível o que parece impossível (cf. Lc 1,37; 18,27; Mt 17,20b; 19,26), que ressuscita os mortos; que cumpre suas promessas, às vezes, por caminhos desconhecidos por nós. "Fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura." (Rabindranath Tagore)

No Evangelho de hoje Jesus nos convida a um ato de nele. Talvez seja necessário que estejamos numa barquinha agitada pelo vento para que percebamos a presença de Deus. Há cristãos que pensam em Deus quando ficam doentes, quando atingidos por alguma desdita (falta de sorte). então rezam com toda a devoção e pedem a Deus para que ele venha socorrê-los. Quando tudo corre bem o ser humano corre o risco de se tornar auto-suficiente. É a pedagogia da provação.
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

27/01/2017 

SABER SE APOIAR EM DEUS PARA MANTER-SE PERSEVERANTE NA FÉ

Sexta-Feira Da III Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Hb 10,32-39

Irmãos, 32 lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas. 33 Às vezes, éreis apresentados como espetáculo, debaixo de injúrias e tribulações; outras vezes, vos tornáveis solidários dos que assim eram tratados. 34 Com efeito, participastes dos sofrimentos dos prisioneiros e aceitastes com alegria o confisco dos vossos bens, na certeza de possuir uma riqueza melhor e mais durável. 35 Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. 36 De fato, precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu. 37 Porque ainda bem pouco tempo, e aquele que deve vir virá e não tardará. 38 O meu justo viverá por causa de sua fidelidade, mas, se esmorecer, não encontrarei mais satisfação nele”. 39 Nós não somos desertores, para a perdição. Somos homens da fé, para a salvação da alma.

Evangelho: Mc 4, 26-34

Naquele tempo, 26Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. 27Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. 28A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. 29Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”. 30E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”. 33Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34E lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.
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Tenhamos Fé Perseverante Em Todas As Situações De Nossa Vida, Pois “Aquele que deve vir virá e não tardará”.

O texto da Primeira Leitura, tirado da Carta aos hebreus, nos faz conhecer um pouco mais as circunstancias que rodeavam os destinatários da Carta: “Irmãos, lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas”. Eles começaram sua vida cristã com muito fervor, mas agora lhes faltava constância, perseverança. Por isso, o autor da Carta convida os fieis, em perigo de fraquejar diante das excessivas adversidades e afetados pela prova do tempo e das contradições, a voltarem ao ponto inicial de sua fé.

Os hebreus, para os quais a Carta é dirigida, são antigos judeus convertidos ao cristianismo, mas eles sentem, no momento, a tentação de voltar para trás com tanta força, principalmente no momento das perseguições. O autor da Carta se dirige, então, a esses hebreus para despertar neles a necessidade da fé perseverante a fim de resistir às tentações de uma volta para o passado: “Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. De fato, precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu”. O autor da Carta quer dizer com outras palavras: Não percam o fervor dos primeiros dias! Sejam valentes para poder ver a salvação. Se acovardarem, perderão tudo!

Há três demonstrações sucessivas do autor da Carta para convencer os indecisos. A primeira demonstração se encontra em Hb 10 (de onde a Primeira Leitura é tirada) em que ele enfatiza a necessidade da fé perseverante: “Precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu”. O autor quer dizer que nenhuma pessoa, que vive de acordo com a vontade de Deus, sofre em vão, pois ela vai alcançar a promessa de Deus. Não adiantaria os combates se tudo desembocasse na apostasia. A segunda demonstração se encontra no texto seguinte, em Hb 11 onde o autor recorda o exemplo da fidelidade dos patriarcas que vivem a fé e da fé até o fim, pois “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos, antepassados” (Hb 11,1-2). Terceira demonstração se encontra em Hb 12 onde encontramos o argumento principal que nos proporciona o exemplo de Cristo e os conselhos e advertências que Deus faz a seus filhos.

A exortação do autor da Carta aos hebreus não perde sua atualidade. Em certos momentos nós nos cansamos de tudo e o primeiro fervor nos diminui e os ideais não brilham sempre de maneira igual.

O autor nos convida a sermos constantes na nossa fé em Deus apesar das dificuldades, a sermos valentemente cristãos em meio de um mundo hostil.  Não somos os primeiros em sofrer contradições e dificuldade no seguimento de Cristo. Não acreditemos numa vida fácil quando se trata do seguimento sério de Jesus Cristo. Sejamos heróis da fidelidade a Cristo e aos seus ensinamentos. Recordemos os inícios (de nossa vida cristã, de nossa vida religiosa, de nossa vida sacerdotal, de nossa vida matrimonial etc.), quando éramos capazes de suportar tudo com amor e fé e com ideais convencidos de que Deus nos prepara uma vitória para quem é fiel até o fim.

Recordemos algumas frases do texto de hoje:

·       Lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas.
·       Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. De fato, precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu.
·        Nós não somos desertores, para a perdição. Somos homens da fé, para a salvação da alma.
·        Aquele que deve vir virá e não tardará.

Tudo isso nos faz lembra aquilo que dizia o filosofo grego Epíteto (55-135 d.C): “A essência da fidelidade está, antes de tudo, em manter opiniões e atitudes corretas com relação ao Supremo, ao Elementar. Lembre-se de que a ordem divina é inteligente e fundamentalmente boa. A vida não é uma série de episódios aleatórios e sem sentido, mas um todo ordenado e refinado que segue leis em ultima analise compreensíveis... Quando procuramos adaptar nossas intenções e ações  à ordem divina não nos sentimos perseguidos, indefesos, confusos ou ressentidos diante das circunstancias desagradáveis de nossas vidas. Nós nos sentimos cheios de força, determinação e segurança” (Arte de Viver, Sextante,2000 p.74).

Fé No Provir De Deus

As duas parábolas de hoje tem em comum o “símbolo” da germinação, da potência da “vida nascente”. Jesus assim sua obra.

“O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra”. Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. A semente crescerá? Haverá boa colheita, ou não haverá nada? O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. O semeador é aquele que semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique. O semeador é aquele que investe no porvir. Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear.  Ele empreende uma obra que tem porvir. Mas esta imagem é válida para qualquer vida humana: para os empresários, para os professores, para os pais e mães de uma família e assim por diante. Há que semear, há que investir sobre o porvir.

O homem dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.    Pois a terra por si mesma produz, primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga”.  Marcos é o único que nos relata esta maravilhosa, curta e otimista parábola do “grão-que-cresce-só”. Tudo reside na vitalidade da semente: aparentemente frágil, mas nela tem uma potência ou uma vitalidade. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa se o semeador se preocupa ou não com a semente.

Da mesma maneira, disse Jesus, o Reino de Deus é como uma semente viva. Semeada numa alma, semeada no mundo, cresce lentamente, imperceptível, mas com um crescimento contínuo. Sem intervenção destruidora da parte do homem, a vida progride sem que ninguém possa segurar seu avanço ou seu crescimento.

O Reino de Deus, a Palavra de Deus, tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus. O protagonista da parábola não é o lavrador nem o terreno bom ou mau e sim a semente. O Reino de Deus está no meio de nós. Este Reino cresce em segredo em nosso mundo, alimentado pelo próprio Deus que o põe no coração dos crentes como uma semente que, pouco a pouco, dá abundantes colheitas de solidariedade e de serviço entre as pessoas de boa vontade. Essas duas parábolas podem alimentar e fortalecer nossa esperança. Pouco importam os aparentes fracassos e as grandes dificuldades. É o próprio Deus Pai que faz crescer e germinar seu Reino, muitas vezes, através dos caminhos misteriosos e desconhecidos por nós, pobres pecadores.

Outra comparação é a semente da mostarda, menor de todas as sementes, mas que chega a ser um arbusto notável. Novamente, a desproporção entre os meios humanos e a força de Deus.

Para as duas parábolas une uma mesma realidade: a força de Deus está além tanto das habilidades do evangelizador como da debilidade dos evangelizados. É o próprio Deus que se faz presente, superando a ação humana e a insignificância da semente.

O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Se esquecermos Seu protagonismo e a força intrínseca que tem Seu Evangelho, Seus sacramentos e Sua graça poderão acontecer duas coisas: se tudo for bem, pensamos que mérito seja nosso. Se tudo for mal, nos afundamos. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11). 

Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germinará e crescerá poderosamente. Deus nos surpreende tirando força do débil, confundindo os sábios e entendidos, fazendo da fragilidade seu próprio testemunho. Cada evangelizador, cada agente de qualquer pastoral ou movimento ou de qualquer ministério na Igreja do Senhor deve estar consciente de que ele é apenas um colaborador de Deus e não é o dono que pode manipular a salvação.

O que se pede de nós não é o êxito e sim a fidelidade. E o que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Não é que sejamos convidados a não fazer nada e sim a trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.

Basta ter um pouco de amor no coração, a paciência será nossa parceira inseparável para esperar os frutos abundantes que virão da própria mão de nosso Pai celeste. Por isso, Deus quer que entremos na aliança de amor com Ele. Ao entrar em comunhão de vida com ele, Deus quer nos fazer sinais de seu amor para com os outros. Mas Deus jamais deixa de nos amar, pois Ele é amor (1Jo 4,8.16). Deus nos ama e cremos no seu amor. Se quisermos que a Palavra de Deus chegue aos demais não somente como informação e sim como testemunho de vida, nós devemos ter a abertura suficiente ao dom de amor de Deus.

P. Vitus Gustama,svd