segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


23/02/2017

Resultado de imagem para se sua mão te leva a pecarResultado de imagem para se sua mão te leva a pecar

PARA SER AUTÊNTICO CRISTÃO É NECESSÁRIO CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE


Quinta-Feira da VII Semana Comum


Primeira Leitura: Eclo 5,1-10


1Não confies nas tuas riquezas e não digas: “Basta-me viver!” 2Não deixes que tua força te leve a seguir as paixões do coração. 3Não digas: “Quem terá poder sobre mim?” ou: “Quem me fará prestar contas das minhas ações?”, pois o Senhor, com certeza, te castigará. 4Não digas: “Pequei, e que de mal me aconteceu?”, pois o Altíssimo é paciente. 5Não percas o temor por causa do perdão, cometendo pecado sobre pecado. 6Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!”, 7pois dele procedem misericórdia e cólera, e sua ira se abate sobre os pecadores. 8Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, 9pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado. 10Não te apoies em riquezas injustas, pois elas de nada te valerão no dia da desgraça.


Evangelho: Mc 9, 41-50


Naquele tempo, 41 disse Jesus aos seus discípulos: “Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. 42 E se alguém escandalizar um desses pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço. 43 Se tua mão te leva a pecar, corta-a! 44 É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 45 Se teu pé te leva a pecar, corta-o! 46 É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno. 47 Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48 ‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga’. 49 Pois todos hão de ser salgados pelo fogo. 50 Coisa boa é o sal. Mas se o sal se tornar insosso, com que lhe restituireis o tempero? Tende, pois, sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.
______________________________


Conversão Permanente é Sinal de Apoiar-Se Unicamente No Senhor, Nosso Salvador


Continuamos a acompanhar a leitura do Livro de Eclesiástico. Através do texto da Primeira Leitura o autor do Eclesiástico nos alerta para não nos apoiarmos em nada nem em nenhum homem a não ser no próprio Deus, nosso Salvador.


Através do texto da Primeira Leitura o sábio condena a falsa segurança que, frequentemente, o rico põe em suas riquezas, o poderoso em sua força e o pecador que não se arrepende de seus pecados na misericórdia de Deus.


Não é raro que o rico, orgulhoso de suas riquezas, acredita que suas riquezas materiais, pode bastar-se a si mesmo, e despreza os demais. Também o Sl 61(62),11 nos recomenda: “Não confieis na violência, nem espereis vãmente no roubo; crescendo vossas riquezas, não prendais nelas os vossos corações”. A razão é que são vãs e enganosas, de modo que no momento em que menos se espera, como declara Jesus (Lc 12,19-21), podem perder-se. A advertência vale sobretudo no caso em que as riquezas foram injustamente adquiridas, pois estas desparecem com mais facilidade depois de ter merecido duro castigo para o dia em que Deus descarrega sua ira sobre o pecador: “Não te apoies em riquezas injustas, pois elas de nada te valerão no dia da desgraça” (Eclo 5,10).


Da mesma maneira, o sábio faz uma advertência para o poderoso, pois o poderoso, muitas vezes, põe seu apoio e confiança na força pela qual se crê superior aos demais, abusando de seu poder para colocar em segundo lugar as más inclinações de seu coração: “Não digas: ´Quem terá poder sobre mim?” ou: “Quem me fará prestar contas das minhas ações?´, pois o Senhor, com certeza, te castigará”. O sábio adverte ao que se acha poderoso que há acima dele um Superior: Deus, que pedirá contas de seu poder e que castigará a arrogância e insolência dos poderosos, como fez com Nabucodonosor e outros muitos poderosos altivos e insolentes (Cf. Is 36:20; Dn 4:29).


A advertência é também dirigida ao pecador cínico que, ao ver que não aconteceu nada de mal depois que cometeu pecado, se sente tentado a perseverar em suas maldades. O sábio adverte a este tipo de pessoa que há de ter em conta que, se o Senhor não o castigou, não é por falta de poder nem porque deixa impune seu pecado e sim porque Deus é paciente, e quer dar tempo ao ímpio que se arrependa e se converta de seus pecados e assim Deus dará o perdão para seus pecados: “Não digas: “Pequei, e que de mal me aconteceu?”, pois o Altíssimo é paciente. 5Não percas o temor por causa do perdão, cometendo pecado sobre pecado. Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!”, pois dele procedem misericórdia e cólera, e sua ira se abate sobre os pecadores. Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”. Deus não quer a morte do pecador e sim que se arrependa e viva (cf. Sb 11:24; 2Pd 2:9).


Quem julga que os pecados serão demasiadamente fácil perdoados e quantas vezes os comete, se predispõe a cometê-los. Mas quem abriga uma dúvida prudente e razoável sobre o perdão divino, não se sentira tão tentado para cometer pecados. É certo que a misericórdia de Deus é muito grande, pois Deus está sempre disposto a perdoar nossos pecados quando nos arrependemos deles. Porém, Deus é também justo. Alguém pode se excluir da misericórdia divina quando persevera na pecado sem decidir arrepender-se. Quem abusar da bondade e da misericórdia de Deus, se encontrará numa vida sem piedade.


Em outras palavras, é preciso despojar-se da arrogância em que não se submete a nada. A arrogância é fazer-se lei conforme o próprio gosto e crer-se absoluto e podroso. Esta atitude geralmente é associada com a abundância de riquezas. A norma do arrogante são seus instintos e paixões, suas fantasias e caprichos.


É preciso despojar-se do pecador cínico que não se converte por não acontecer nada de ruim na sua vida apesar dos pecados cometidos e com isso, ele faz uma muralha de cegueira com suas próprias palavras e termina por converter em sua desgraça. Ao mesmo tempo, é preciso abandonar a negligencia pensando que Deus é misericórdia que perdoa de qualquer maneira os pecados cometidos continuamente sem nenhum arrependimento em nenhum momento de sua vida. Trata-se de uma ironia cruel, pois utiliza Deus contra Deus. Por isso, o sábio adverte: “Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”.


O texto do Evangelho deste dia nos convida também a uma atitude ousada ou corajosa, inclusive, radical que se expressa com imagens quase agressivas: “Se tua mão te leva a pecar, corta-a!”.  Não podemos adiar ou prolongar nossa negligência para a conversão. Jesus Cisto nos diz: atua já! Essa “poda”, da qual fala São João (Jo 15,2) é o mesmo que nos ensina hoje o evangelista Marcos: há que soltar-se dos apegos, desembaraçar-se das complicações, afastar-se das relações não saudáveis. Atrás desta “poda”, feita por Deus ou iniciada por nós mesmos, há uma dupla e nobre motivação: necessitamos ser livres, precisamos ter um só Senhor. O cristão precisa ter agilidade para deixar-se conquistar por Deus que salva.


Somos Chamados a Viver Uma Vida Cristã Autenticamente.


1. Dignidade de Ser Discípulo de Jesus


Em Mc 9,38-41 encontramos algumas sentenças ligadas ao tema sobre “Em nome de Jesus” ou “por causa do nome de Jesus”.  Este tema foi preparado já em Mc 9,37 quando Jesus disse: “Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. Para Jesus se uma criança é acolhida “em meu nome” ou se alguém cura “em meu nome” é porque “é meu nome”. Se uma ação é feita “em meu nome” ou “por causa do meu nome”, então não pode ser proibida. Ao contrário, ele recebe sua recompensa.


Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. “Em meu nome” (“porque sois de Cristo”), isto é, porque movidas pelo anúncio dos discípulos as pessoas começam a amar Cristo e sentem simpatia por Ele e sentem que nasce nelas a fé que lhes faz pressentirem a recompensa da salvação. “Em meu nome” porque ao dar qualquer coisa, como um copo de água, aos discípulos, querem agradar Cristo, identificando-os com Cristo. Ao realizar um gesto de acolhimento/acolhida para os discípulos, as pessoas querem acolher o próprio Cristo. “Porque sois de Cristo” expressa a convicção profunda dos primeiros cristãos. Os primeiros cristãos sabiam que já não podiam viver para si mesmos porque seu verdadeiro viver era Cristo (veja Fl 1,21: “Para mim o viver é Cristo...”). Quantas vezes São Paulo recorda esta verdade: “Vós sois de Cristo...” (1Cor 3,23; Rm 8,9; 2 Cor 10,7; etc.). No entanto, Jesus não somente quer nos dizer que somos seus, mas também como devemos tratar os irmãos na fé. Jesus Cristo não esquecerá nem sequer o menor gesto de caridade como dar um copo de água. Mas “ser de Cristo” não significa necessariamente ser do grupo que segue Cristo de perto, mas também significa estar em sintonia com Cristo na prática de levar a Boa Nova aos demais homens, especialmente aos excluídos e marginalizados.


“Um copo de água”. ...  Quase nada. É símbolo do menor serviço que pode ser prestado para alguém: tão somente um copo de água em razão de pertencer a Cristo. Jesus sublinha a dignidade extraordinária do “discípulo”: pertencer a Cristo. O menor dos crentes, o mais humilde discípulo de Jesus representa Jesus Cristo. Jesus se identifica com o menor dos cristãos na medida em que o próprio cristão se identifica com Cristo.


Não ficará sem receber a sua recompensa”, promete Jesus. É uma verdade surpreendente que Jesus repetirá e desenvolverá ao longo do discurso sobre o Juízo final (Mt 25,31-45). “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. E todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” dirá o Senhor nesse discurso (Mt 25,40.45). Jesus leva a sério até os pequenos gestos que fazemos para o bem do outro. Nada é pequeno para Jesus. O menor gesto de acolhida ou da caridade não ficará escondido aos olhos de Deus. “Não ficará sem receber a sua recompensa”. “Recompensa” não é algo que alcançamos por nossos próprios esforços, mas é sempre o dom de um Deus generoso. Deus dá seu dom independentemente de nossos esforços. Deus está livre diante dos esforços humanos. O que fazemos é o mínimo que podemos e devemos fazer: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17,10).


Ficamos pensando e perguntando: quantos gestos pequenos do dia a dia que deixamos de fazer para os outros! Quantas recompensas divinas que deixamos de receber por não termos prestado esses pequenos gestos fraternos! Um copo da água fresca oferecida ao irmão sedento não será esquecido por Deus.


2. Um Aviso Para Não Escandalizar


Depois do conselho positivo- “dar um copo de água” – Jesus nos dá um conselho de forma negativa: “E se alguém escandalizar um desses pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.


Na verdade é a mesma conduta: a atenção aos demais. Descobrimos aqui um novo aspecto de Jesus: sua capacidade de veemência. Ele usa palavras duríssimas para quem escandaliza os outros, isto é, aquele que leva os outros a pecar: “Melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.


“Se alguém escandalizar...”. Escandalizar significa obstaculizar alguém na fé, impedir alguém de continuar a crer em Jesus. Quem atua assim, faz-se dano imenso para si mesmo: “Melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Jesus enfatiza, assim, sobre o grande dano para quem escandaliza os outros. Ao escandalizar os outros, a pessoa se mata a si mesma no sentido de privar-se da salvação.


Para Jesus pior que morrer é causar danos aos pequeninos, aos que não têm ambição de honra, aos que adotam uma atitude de serviço que é a condição para ser seguidor de Jesus Cristo (Mc 9,35). Aqui Jesus considera como escândalo quem pretende ser maior, ou quem pretende se colocar acima dos outros, que pretende ser servido em vez de servir.


3. Um Autêntico Cristão Evita O Mal E Saber Podar o Desnecessário Para Ser Salvo


“Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga” (leia os vv. 43-47).


Há que fazer opções, por dolorosas que sejam, pois são opções entre o êxito e o fracasso da existência: toda atividade (simbolizada pela mão), toda conduta (simbolizada pelo pé) ou toda aspiração (simbolizada pelo olho), que busca prestigio e superioridade, está viciada e por isso, há que suprimi-la, pois põe em perigo a fidelidade à mensagem salvadora de Cristo e bloqueia o desenvolvimento pessoal.


A palavra do Senhor nos exige para renunciarmos radicalmente às insinuações do pecado e para cortarmos com rapidez, mesmo que seja muito doloroso (cortar mão e pé, arrancar olho), tudo que possa pôr em perigo a nossa salvação e a salvação dos demais (escândalo).


As imagens que Jesus usa são fortes: há que arrancar ou extirpar tudo que num homem, especialmente num cristão que se oponha à mensagem de Cristo e cause dano aos que querem ser fieis a Cristo. Somente esse tipo de decisão é que leva à vida, a opção contrária, à morte. “A vida” (Mc 9,43. 45) está em paralelo com “o Reino de Deus” (Mc 9,47). Por isso, trata-se de assegurar a plenitude de vida tanto no mundo presente como no futuro.


Portanto que saibamos levar em consideração nossos pequenos gestos de cada dia prestados aos outros não somente por motivos humanos e sim por ver no próximo o próprio Cristo. E que tenhamos sumo cuidado em não escandalizar, ou seja, em levar alguém a pecar, principalmente levar os inocentes e débeis a pecar, pois o próprio Cristo ficará também escandalizado. Para nos manter como autênticos cristãos nós necessitamos renunciar ao próprio egoísmo, à ambição de poder e à vontade desenfreada de domínio (superioridade). É preciso que haja o esquecimento de si para poder repartir com os outros tudo que temos e somos para que a fraternidade e a paz possam reinar a convivência. E que saibamos romper com toda a ocasião de pecado.


P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

22/02/2017: Cátedra de São Pedro
 

CÁTEDRA DE SÃO PEDRO E EXORTAÇÃO AOS PRESBÍTEROS

FESTA

22 fevereiro

Primeira Leitura: 1Pd 5,1-4

1 Aos anciãos que estão entre vós, exorto eu, que sou ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que há de ser revelada. 2 Apascentai o rebanho do Senhor que vos foi confiado, cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer, nem por torpe ganância, mas por devoção, 3 nem como senhores daqueles que vos couberam por sorte, mas, antes, como modelos do rebanho. 4 Assim, quando aparecer o supremo pastor, recebereis a coroa imarcescível da glória (texto da Bíblia versão Jerusalém).

Evangelho: Mt 16,13-19

Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.
____________________

Cátedra De São Pedro e Seu Significado

Celebramos hoje a festa da Cátedra de São Pedro. Trata-se de uma tradição muito antiga, testemunhada em Roma desde o século IV. Literalmente, a "cátedra" é a sede fixa do Bispo, posta na igreja matriz de uma Diocese, que por isso a igreja-sede do bispo é chamada "catedral", e constitui o símbolo da autoridade do Bispo e, em particular, do seu "magistério", ou seja, do ensinamento evangélico que ele, enquanto sucessor dos Apóstolos, é chamado a conservar e a transmitir à Comunidade cristã. Quando o Bispo toma posse da Igreja particular que lhe foi confiada, ele, com a mitra e o báculo, senta-se na cátedra. Como mestre e pastor daquela sede ele orientará o caminho dos fiéis da sua diocese, na fé, na esperança e na caridade exercendo sua missão de santificar, ensinar, e governar.

Pedro foi escolhido pelo próprio Senhor como o primeiro entre as partes ou Primus Inter Pares (Mt 16,13-19). Pedro começou o seu ministério em Jerusalém, depois da Ascensão do Senhor e do Pentecostes. A primeira "sede" da Igreja foi o Cenáculo, onde Pedro rezou juntamente com os outros discípulos para que fosse reservado um lugar especial a Simão Pedro. Em seguida, a sé de Pedro foi em Antioquia, cidade situada à margem do rio Oronte, na Síria, hoje na Turquia, naquela época terceira metrópole do império romano, depois de Roma e de Alexandria do Egito. Daquela cidade, evangelizada por Barnabé e Paulo, onde "os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de "cristãos"" (At 11, 26), onde, portanto, nasceu para nós o nome de cristãos, Pedro foi o primeiro Bispo. Dali, a Providência conduziu Pedro até Roma. Portanto, temos o caminho de Jerusalém, Igreja nascente, em Antioquia, primeiro centro da Igreja acolhida pelos pagãos e ainda unida com a Igreja proveniente dos Judeus. Depois Pedro dirigiu-se para Roma, centro do Império, símbolo do "Orbis" a "Urbs" que expressa o "Orbis" a terra onde ele terminou com o martírio a sua corrida ao serviço do Evangelho. Por isso a sede de Roma, que tinha recebido a maior honra, acolheu também o ônus confiado por Cristo a Pedro, de se colocar ao serviço de todas as Igrejas particulares, para a edificação e a unidade de todo o Povo de Deus.

A sede de Roma, depois destas migrações de São Pedro, torna-se assim reconhecida como a do sucessor de Pedro, e a "cátedra" do seu Bispo representou a “cátedra” do Apóstolo encarregado por Cristo, de apascentar todo o seu rebanho. Portanto, A cátedra do Bispo de Roma representa não apenas o seu serviço à comunidade romana, mas a sua missão de guia de todo o Povo de Deus.

Celebrar a "Cátedra" de Pedro, como fazemos hoje, significa, portanto, atribuir-lhe um forte significado espiritual e reconhecer-lhe um sinal privilegiado do amor de Deus, Pastor bom e eterno, que quer reunir toda a sua Igreja e orientá-la no caminho da salvação.

Crer No Deus Vivo e Vivificante

O texto do evangelho lido na festa da Cátedra de São Pedro fala da profissão da fé de Pedro. Para Pedro Jesus é “o Messias, o Filho do Deus vivo”.

As palavras de Pedro são uma perfeita profissão da fé cristã. Jesus não é somente “o Messias de Deus”, isto é, “o Ungido por Deus”. Jesus é também “o Filho de Deus vivo”. Aqui, neste texto, “Filho” não é somente aquele que nasceu de Deus e sim aquele que atua como o próprio Deus. “O Filho de Deus” equivale à fórmula “Deus entre nós”, o Emanuel (Mt 1,23;18,10;28,20). “Vivo”, na expressão “o Filho de Deu vivo” (cf. Is 37,4.17; Os 2,1; Dn 6,21) opõe o Deus verdadeiro aos ídolos mortos; significa esse Deus possui a vida e a comunica para o homem. Trata-se de um Deus vivo e vivificante, Deus ativo e salvador (Dt 5,26; Sl 83[84],3; Jr 5,2). Também o Filho é, portanto, Doador de vida (Jo 10,10) e vencedor da morte (Jo 11,25-26).

Crer no Deus vivo e vivificante, Doador da vida, revelado por Jesus, implica proteger ou defender a vida em todas as suas instâncias: desde sua concepção, sua duração até seu término neste mundo. Somente quem crê no Deus vivo e vivificante pode acreditar na vida eterna, pois a vida não acaba com a morte, pois Deus é a vida (Jo 11,25; 14,6).

“E vós, quem dizeis que Sou?”. Esta pergunta deve ser entendida no sentido semita. Trata-se, neste sentido, de uma pergunta sobre a existência de Jesus e sua missão histórica. A resposta a esta pergunta inclui necessariamente uma opção de adesão a Jesus.

Como resposta à confissão de Pedro, Jesus constitui Pedro o alicerce sobre o qual edifica a Sua Igreja. Jesus também garante que a Sua Igreja jamais será destruída pelos poderes da morte. Temos que manter nossa fé neste Deus vivo e vivificante mesmo que nós, como a Igreja do senhor, nos encontremos nas situações difíceis, do ponto de vista humano, pois para Deus nada é impossível (Lc 1,37; cf. Rm 8,31-39).

Três marcas que fazem de Pedro que se encontra com Cristo, o Pedro da fé: espontaneidade, franqueza e confiança. Três atitudes que tem que acompanhar também nosso processo para aprofundar nosso descobrimento-encontro com o Filho de Deus vivo. Três qualidades que ajudam cada um a crescer como Igreja cimentada na rocha do Apostolo Pedro.

A confissão de Pedro, espontânea, franca e confiada constrói Igreja. Com esta mesma confissão podemos fazer a Igreja crescer. Todos nós somos do mesmo rebanho. Nossa tarefa permanente é fazer o rebanho sempre unido. Para isso, precisamos estar unidos a Cristo, pois sem ele nada podemos fazer (Jo 15,5). Quando nosso coração não está unido a Cristo, criaremos divisão e desunião entre nós.

Exortação Para Os Dirigentes Da Comunidade Cristã

O texto da Primeira Leitura na Festa da Cátedra de São Pedro é tirado da Primeira Carta de São Pedro.

A Carta é dirigida às comunidades, enquanto tais, a todos seus membros, e, por isso, a Carta usa a expressão “entre vós”: “Aos anciãos que estão entre vós, exorto eu, que sou ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que há de ser revelada”.

Pedro se dirige aos anciãos e ele próprio se designa, em união fraternal, como um dos anciãos, como eles. “Ancião” é um cargo e designa um sacerdócio especial distinto do sacerdócio comum, do “sacerdócio santo” (1Pd 2,5), que formam todos os cristãos.

Nesta exortação para os dirigentes Pedro usa a palavra “apascentar”: “Apascentai o rebanho do Senhor que vos foi confiado, cuidando dele...”. O próprio Pedro recebeu do Senhor este cargo: “Apascentai minhas ovelhas” (Jo 21,16). No AT se falam das ideias semelhantes: “Apascentar” implica soberania de rei e guia compreensivo. Aquele que apascenta tem que cuidar do pasto e da água para o rebanho. Quem é dirigente (ancião) da comunidade deve proporcionar para seu rebanho alimento espiritual, como Jesus, que se compadecia das multidões e as instruía, pois elas eram “como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Nesta tarefa de apascentar, o ancião deve ter a solicitude especial de cuidar dos pequenos e dos débeis e de buscar os extraviados. Além disso, a exemplo de Cristo, o ancião há de estar disposto a dar sua vida por suas ovelhas.

O pastor é o chefe do rebanho, de quem depende a prosperidade do rebanho. Um pastor sem rebanho se perde. Por isso, a exortação aos anciãos para apascentar é significativo. Pedro está consciente de sua posição privilegiada, mas que é uma grande responsabilidade, ao mesmo tempo.

O encargo geral de apascentar o rebanho de Deus se desenvolve em três exortações particulares: “... cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer”.

Aqui se contrapõe a imagem do bom pastor à do mau pastor. A primeira instrução pressupõe a instituição oficial dos anciãos. A eles são exortados para não usar força no exercer do seu cargo. Com as palavras do bom grado se indica um cumprimento gozoso do dever, seu empenho voluntário e espontâneo. Essa opção voluntária é “segundo Deus”, conforme a vontade de Deus e é sinal de união com Deus. O Filho de Deus deu voluntariamente “sua vida pelas ovelhas” (Jo 10,11).

Em segundo lugar: “... nem por torpe ganância, mas por devoção (generosidade)”. Podemos traduzir esta frase com a seguinte expressão: “Não apascenta o rebanho para se aproveitar dele!”. Naquele tempo parece ter sido um abuso do clero (anciãos) em tirar proveito a custo da comunidade. A exortação pressupõe que os anciãos recebiam doações voluntarias dos fieis como, conforme a norma do Senhor: “O operário é digno do seu sustento” (Mt 10,10). Pedro não recusa a remuneração dos anciãos pela comunidade. O que reprova é a avidez de lucro, a cobiça dos clérigos (anciãos). Quando os membros da comunidade solicitam serviços de anúncio da Palavra ou administração de sacramentos, devem prestar-se com generosidade, sem deixar de ouvir nem uma palavra de compensação ou de honorários.

Em terceiro lugar: “... nem como senhores daqueles que vos couberam por sorte, mas, antes, como modelos do rebanho”. Aqui Pedro apresenta o terceiro aspecto da missão do pastor (ancião): apascentar. Os anciãos não devem dominar como ditadores sobre seus comandados. A palavra que se usa aqui “lote”, uma parcela de terra. Trata-se de possuir uma propriedade por sorte. Assim Pedro exorta aos anciãos para não tornar a comunidade sua propriedade, pois a comunidade é propriedade e herança de Deus: “Apascenta minhas ovelhas”, disse o Senhor. “São minhas ovelhas” e não “são suas ovelhas”. Cuidar bem das ovelhas do Senhor manifesta o respeito e o amor ao Dono das ovelhas que é o próprio Senhor. Desprezar as ovelhas do Senhor significa desprezar o próprio Senhor que é o Dono das ovelhas.

Os anciãos devem dar à comunidade exemplo de fiel cumprimento do dever. Para guiar o rebanho com exemplo requer-se o cumprimento dos deveres cotidianos com toda humildade e tendo diante dos olhos a exortação do próprio Senhor: “Aquele que quiser ser o primeiro entre vós, seja o servo de todos” (Mc 10,44).

É bom que cada dirigente, cada sacerdote, cada bispo etc.. se faça a seguinte pergunta: “Será que eu apascento meus irmãos da comunidade a mim confiados?”. “Será que, como dirigente, sacerdote, bispo, eu cuido bem das ovelhas do Senhor a mim confiadas?”. Ou eu me torno aproveitador da comunidade sem cuidar dela? Se for assim, eu terei dificuldade de aceitar a responsabilidade de trabalhar numas comunidades de poucos recursos do ponto de vista financeiro.
 
P. Vitus Gustama,svd
21/02/2017
 
25_b
SERVIR NO ESPÍRITO DO SENHOR

Terça-Feira da VII Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 2,1-13

1 Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. 2 Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. 3 Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos. 4 Tudo o que te acontecer, aceita-o, e sê constante na dor; e nas contrariedades de tua pobre condição, sê paciente. 5 Pois é no fogo que o ouro e a prata são provados e, no cadinho da humilhação, os homens agradáveis a Deus. 6 Crê em Deus, e ele cuidará de ti; endireita os teus caminhos e espera nele. Conserva o seu temor, e nele envelhecerás. 7 Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cair. 8 Vós, que temeis o Senhor, confiai nele, e a recompensa não vos faltará. 9 Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. 10 Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações ficarão iluminados. 11 Considerai, filhos, as gerações passadas e vede: Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? 12 Quem permaneceu nos seus mandamentos e foi abandonado? Quem o invocou e foi por ele desprezado? 13 Pois o Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados no tempo da tribulação, e protege a todos os que o procuram com sinceridade.

Evangelho: Mc 9,30-37

Naquele tempo, 30 Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, 31pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. 32 Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. 33 Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “Que discutíeis pelo caminho?” 34 Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior. 35 Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” 36 Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: 37“Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”.
------------------
Servir Ao Senhor Com Paciência e Esperança

Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos”, lemos na Primeira Leitura o conselho do autor do Eclesiástico.

“Se decidires servir ao Senhor...” Serviremos ao Senhor quando servirmos ao irmão, especialmente aos mais necessitados com quem o Senhor se identifica (cf. Mt 25,40.45). Por isso, servir aos demais é o centro do cristianismo. O próprio Senhor veio ao mundo para servir e não para ser servido e entregar sua vida para resgatar os homens (Mc 10,45). Servir não é buscar a si mesmo nem pretender ser protagonista no ato de servir, pois a questão é servir para salvar. Quem serve deve estar em segundo plano. Servir é fazer o outro crescer. Servir é dar a vida. O segredo do serviço é a caridade para todos. Se quisermos servir aos outros, verdadeiramente, nós devemos nos esquecer de nós mesmos e procurar fazer os outros felizes. No verdadeiro serviço, quem serve não se pergunta se é feliz e sim se as pessoas ao redor são verdadeiramente felizes com seu serviço e sua presença.

Servir aos demais não é uma loucura, pois aceitar ser cristão significa querer imitar Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Ele morreu para nos salvar.

Portanto, tomemos cuidado para que a responsabilidade que assumimos na Igreja não se torne para nós uma ocasião da soberba, da vaidade, da prepotência e do desejo de aparecer.

O autor do Eclesiástico acrescenta: “Filho, se decidires servir ao Senhor,... prepara a tua alma para a provação”. Trata-se de uma advertência realista e aplausível. Os que nos amam verdadeiramente, falam assim. “Prepara a tua alma para a provação”. Os que conhecem o caminho e sabem que não é carinho ocultar as dificuldades nem é doçura criar ilusões enganosas. “Prepara-te para a prova! Não te assustas!”.

Todo homem que quiser viver conforme a vontade de Deus, haverá de preparar-se para uma luta constante contra as provações. A virtude se aperfeiçoa na contrariedade. As provas nos fazem maduros e nos purificam como ouro no fogo. As provações nos fazem pensar, nos convidam a relativizar tantas coisas e nos dão importância às que valem a pena. Se ficarmos desanimados é porque não confiamos suficientemente em Deus. Com o Senhor não há dificuldade insuperável.  Com a luz do Senhor vamos adquirindo a verdadeira sabedoria que nos traz também a felicidade. Há momentos de obscuridade, mas à noite sempre lhe segue a aurora. Há crises, mas os túneis têm seu final e aparece a luz. Há Sexta-Feira da Paixão, é trágica, mas desemboca no Domingo da ressurreição.

A fonte da força cristã está na seguinte frase: “Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos”. A chave não é: “Sejas um super homem!”, nem tampouco “Faz de conta que não aconteça nada!”. A grande chave para seguir adiante é “Agarra-te ao Senhor e não O deixes para que sejas sábio em teus caminhos”.

Servir Ao Senhor Com Temor

Conserva o seu temor, e nele envelhecerás. Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cair. Vós, que temeis o Senhor, confiai nele, e a recompensa não vos faltará. Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações ficarão iluminados”, assim lemos na Primeira Leitura.

Geralmente, a teologia distingue três tipos de temor: temor mundano, temor servil e temor filial.

O temor mundano vê em Deus unicamente o autor de castigos, e um obstáculo para a realização de bens terrenos, vedados pela lei divina. Este temor considera que o mal absoluto não é o pecado e sim a pena com que Deus, inevitavelmente, reordena seu fim para as criaturas rebeldes.

Há também o temor servil. No temor servil há medo de pena ou do castigo doloroso. Posto que é bom temer o que se deve temer. Trata-se de um medo moralmente justificado. O que há de mal neste temor não é o próprio temor e sim o servilismo, segundo Santo Tomás de Aquino, em que não se atua com liberdade e por amor, e sim se atua quase à força por medo de castigo doloroso.

Por fim, há temor filial. O temor filial nasce do amor a Deus. É o medo diante da possibilidade de ficar separado do Bem Supremo. Seu objetivo imediato, portanto, é o pecado (ou a culpa) que é considerado como único mal absoluto. Este temor leva consigo uma atitude de respeito e reverência diante de nosso Criador e Salvador de Quem dependemos em tudo. Mas não se trata de uma reverência formal, mas trata-se de uma reverência cheia de sinceridade e confiança que se funda na realidade da filiação divina. Quanto mais cresce o amor a Deus, mais diminuirá o medo da pena ou do castigo. São João nos relembra: “No amor não há temor; ao contrário: o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica castigo, e o que teme não chegou à perfeição do amor” (1Jo 4,18).

O temor filial é também um dos dons do Espírito Santo pelo qual a alma se refugia sob a proteção divina, abandonando qualquer outro motivo de segurança e confiança que seja o próprio Deus. Paradoxalmente, o dom de temor de Deus dá à vida cristã um tom de coragem e de ousadia: não há nada que possa atemorizar, porque não há nada que possa nos separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39).

Os temerosos de Deus (temor filial) podem gloriar-se da amizade e da proteção de Deus, de possuir o princípio da sabedoria pela qual vem a ser para eles uma fonte de alegria intensa e desbordante: “Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia”. O temor de Deus defende os cristãos de praticar o mal e os induz à prática do bem, o que lhes proporciona uma grande paz e gozo interior. Este temor de Deus é o princípio da sabedoria, porque induz o homem ao cumprimento da vontade de Deus.

Renúncia e Entrega Tal De Nossa Vida Tornam-Nos Colaboradores de Cristo

Pela segunda vez Jesus revela aos seus discípulos sua próxima Paixão (Mc 8,31-33; 10,31-34). Ao mesmo tempo ele abandona deliberadamente a pregação à multidão (Mc 9,30) incapaz de compreendê-Lo para se dedicar exclusivamente à formação definitiva dos discípulos: “Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”.

Ensinar é uma das preocupações de Jesus nos evangelhos, especialmente no evangelho de Marcos (Mc 1,22; 4,2; 6,2; 9,31 etc..). Jesus Cristo é a Palavra divina (Jo 1,1). Jesus é a Palavra inesgotável de Deus para se comunicar com os seres humanos. Como a Palavra divina, as palavras de Jesus são sempre promessa e expressão de vida. Através de seu ato e atividade de ensinar Jesus quer que os seus ouvintes cresçam na liberdade e dignidade tendo consciência critica sobre a realidade ao seu redor (cf. Mc 1,22).

Cada cristão é chamado a ser educador-profeta. Os profetas falam em nome de Deus, são Seus porta-vozes que sacudam as consciências, levantem as vidas de mediocridade, de desesperança, do tédio e de insensibilidade. Todo profeta é educador e todo educador cristão é chamado a ser um profeta. A educação é, portanto, uma vocação de serviço. Cada cristão, cada educador cristão é chamado a transformar cada lugar, cada escola em lugares de vida nos quais se aprende a viver e conviver, a desfrutar a vida e a dignidade, a defender a vida, a combater tudo o que ameace a vida.

Em seguida, Marcos nos relatou sobre o anúncio da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao anunciar pela segunda vez aos seus discípulos sua paixão e morte Jesus quer educá-los sobre o que significa seguir a Jesus Cristo. Mas os seus não estão dispostos a atender o que seu Mestre quer dizer ou ensinando. O que lhes preocupa é “quem será o mais importante”. Cada educador, cada mestre precisa ter paciência em ensinar ou educar. É um trabalho de serviço. Um servo está sempre disposto e disponível para atender a seu senhor.

Para acabar com a ambição dos discípulos de quererem ocupar primeiros lugares Jesus dá algumas lições (ensinar) sobre o estilo de vida para quem quiser ser seu discípulo. Jesus marca as linhas fundamentais da espiritualidade que se deve respirar qualquer comunidade cristã. A idéia-mestra é esta: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”. Isto é, ser o servidor de todos.

Para acentuar a lição dada aos discípulos Jesus põe uma criança (um menino) no meio deles:Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: ‘Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou’”. Jesus utiliza uma estratégia pedagógica: coloca um menino no meio e o abraça. Um menino! Uma criança! Quantas coisas diz a imagem deste menino abraçado por Jesus! É um abraço com que Deus abriga, anima e fortalece o novo começo (menino/ criança). É o abraço que envolve toda a confiança, toda a ternura, toda a proximidade do Senhor para quem quiser ser verdadeiro discípulo, e não prematuro mestre.

A figura bíblica do “menino” ou “criança” é símbolo de marginalização e indefesa. No tempo de Jesus, um menino era símbolo de ignorância, imaturidade e insignificância. Um menino era equiparava com os escravos. No entanto, por seu grau de dependência o menino se converte em preocupação permanente para seus progenitores sem os quais o menino não sobreviveria ou não receberia uma boa educação. Assim, o menor se converte no mais importante porque requer a atenção e o cuidado dos maiores. É uma lição viva de pequenez e de humildade. Ser simples é ser modesto, singelo, puro, desprovido de elementos acessórios, isento de significações secundárias, sem luxo nem ostentação. Ser humilde consiste em manifestar a virtude de conhecer suas próprias limitações. É reconhecer ser pó, mas é pó vivente, pois Deus soprou seu espírito nele que o capacita a viver na espera divina.

Por isso, a grandeza do homem está na humildade. “Quanto mais humildes, maiores” dizia Santo Agostinho. Mas “simular humildade é a maior das soberbas”, acrescentou Santo Agostinho. A paz florescerá em qualquer comunidade cristã se seus membros fazem seu o espírito evangélico de humildade e de simplicidade. O próprio Jesus serve de exemplo, pois sua vida está na sua atitude de entrega para a salvação de todos.

Depois que colocou a criança ou o menino no meio dos discípulos, Jesus pronunciou a seguinte frase: ““Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”. Esta sentença nos recorda a parábola do juízo final (Mt 25,31-46) e o final do discurso missionário (Mt 10,42). Assim a criança aqui assume um sentido novo. Não é mais a criança em sentido próprio e sim o símbolo do necessitado. É o sedento, o faminto, desnudo, o prisioneiro, o marginalizado.

Também podemos ter dificuldades em querer entender a lição que Jesus deu aos discípulos. Tendemos a ocupar os primeiros lugares, a buscar nossos interesses, a desprezar as pessoas que contam pouco na sociedade e das pessoas que não podemos esperar grandes coisas.

Se quisermos colaborar com Jesus Cristo e fazer algo válido na vida, temos que contar em nosso programa de vida com a renúncia e a entrega, com a humildade e a simplicidade. O desejo de poder e a busca dos próprios interesses fazem impossíveis a renúncia, a entrega e impossibilita o cristão a servir aos demais. Um cristão que não serve não serve como cristão. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. Para sermos felizes temos que fazer os outros felizes. A competitividade faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais.

Servir é adorar a Deus em ação. Servir é a oração e a adoração colocadas na prática do amor fraterno. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Renunciar a ser o servidor, a ser o pequeno significa renunciar Jesus, porque somente quem acolhe sua vocação de serviço como se acolhe um pequeno (criança), acolherá Jesus e o próprio Deus que o enviou. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. Um coração corrompido é ninho de discórdia. Uma mente obcecada nunca ilumina bem os caminhos.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

20/02/2017
 

TER FÉ E MANTER ORAÇÃO É VIVER NA SABEDORIA DIVINA

Segunda-Feira da VII Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Eclo 1,1-10

1 Toda a sabedoria vem do Senhor Deus. Ela esteve e está sempre com Ele. 2 Quem pode contar a areia do mar, as gotas de chuva, os dias do tempo? 3 Quem poderá medir a altura do céu, a extensão da terra, a profundeza do abismo? 4 Antes de todas as coisas foi criada a sabedoria, a inteligência prudente vem da eternidade. 5 Fonte da sabedoria é a palavra de Deus no mais alto dos céus e seus caminhos são os mandamentos eternos. 6A quem foi revelada a raiz da sabedoria? Quem conheceu as capacidades do seu engenho? 7 A ciência da sabedoria, a quem foi revelada? E quem compreendeu sua grande experiência? 8 Só um é o altíssimo, criador onipotente, rei poderoso e a quem muito se deve temer, assentado em seu trono e dominando tudo, Deus. 9 Ele é quem a criou no espírito santo: Ele a viu, a enumerou e mediu; 10 ele a derramou sobre todas as suas obras e em cada ser humano, segundo a sua bondade. Ele a concede àqueles que o temem.

Evangelho: Mc 9,14-29

Naquele tempo, 14descendo Jesus do monte com Pedro, Tiago e João e chegando perto dos outros discípulos, viram que estavam rodeados por uma grande multidão. Alguns mestres da Lei estavam discutindo com eles. 15Logo que a multidão viu Jesus, ficou surpresa e correu para saudá-lo. 16Jesus perguntou aos discípulos: “Que discutis com eles?” 17Alguém da multidão respondeu: “Mestre, eu trouxe a ti meu filho que tem um espírito mudo. 18Cada vez que o espírito o ataca, joga-o no chão e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente rijo. Eu pedi aos teus discípulos para expulsarem o espírito, mas eles não conseguiram”. 19Jesus disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando terei de suportar-vos? Trazei aqui o menino”. 20E levaram-lhe o menino. Quando o espírito viu Jesus, sacudiu violentamente o menino, que caiu no chão e começou a rolar e a espumar pela boca. 21Jesus perguntou ao pai: “Desde quando ele está assim?” O pai respondeu: “Desde criança. 22E muitas vezes, o espírito já o lançou no fogo e na água para matá-lo. Se podes fazer alguma coisa, tem piedade de nós e ajuda-nos”. 23Jesus disse: “Se podes!... Tudo é possível para quem tem fé”. 24O pai do menino disse em alta voz: “Eu tenho fé, mas ajuda a minha falta de fé”. 25Jesus viu que a multidão acorria para junto dele. Então ordenou ao espírito impuro: “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno que saias do menino e nunca mais entres nele”. 26O espírito sacudiu o menino com violência, deu um grito e saiu. O menino ficou como morto, e por isso todos diziam: “Ele morreu!” 27Mas Jesus pegou a mão do menino, levantou-o e o menino ficou de pé. 28Depois que Jesus entrou em casa, os discípulos lhe perguntaram a sós: “Por que nós não conseguimos expulsar o espírito?”  29Jesus respondeu: “Essa espécie de demônios não pode ser expulsa de nenhum modo, a não ser pela oração”.
-----------------

Viver Na Sabedoria Bíblica

Hoje e alguns dias para frente acompanharemos a leitura do Livro de Eclesiástico que serve como a Primeira Leitura de nossas celebrações semanais.

O Livro de Eclesiástico ou Sirácida foi escrito em hebraico uns duzentos anos antes de Cristo (no início do século II a.C) em Jerusalém por um judeu muito culto e sábio chamado Jesus Ben Sirá. Mais tarde um neto dele traduziu o livro para o grego em função ou beneficio dos judeus de Alexandria de Egito. Chama-se “Eclesiástico” pelo seu grande uso na Igreja primitiva.

O Eclesiástico faz parte dos livros sapienciais do AT que são um gênero comum para outras culturas vizinhas, mas nas mãos dos sábios crentes de Israel eles oferecem uma sabedoria muito rica e religiosa.

O Eclesiástico é uma serie de frases e pensamentos, ditos e refrões breves que nos ajudam a olharmos sabiamente as coisas, as pessoas e os acontecimentos da vida. O autor vai nos transmitindo com amabilidade e bom sentido prático as riquezas de seu pensamento e sua experiência humana e religiosa.

O texto da Primeira Leitura tirado do Eclesiástico faz o elogio da sabedoria divina: “Toda a sabedoria vem do Senhor Deus. Ela esteve e está sempre com Ele... Antes de todas as coisas foi criada a sabedoria, a inteligência prudente vem da eternidade. Fonte da sabedoria é a palavra de Deus no mais alto dos céus e seus caminhos são os mandamentos eternos”.

Segundo o Eclesiástico a sabedoria é a primeira criatura de Deus. Deus usa a sabedoria para criar o universo e a infundiu em suas criaturas. Portanto, a sabedoria aparece nos Livros sapienciais como um saber personificado, uma espécie de mediador entre Deus e o mundo. E, ao mesmo tempo, a sabedoria é algo do qual os seres viventes participam, algo que eles descobrem a partir de dentro uma ordem “sábia” de trabalhar e de viver. O homem que quer honrar seu titulo de “homo sapiens” (homem sábio), isto é, aquele que desejar ser “sensato” e preceder com acerto, há de começar a reconhecer a origem última da sabedoria que é o próprio Senhor Deus e há de recebê-la como um dom. Com este modo de viver o homem vai se amadurecendo na sensatez, nessa maneira de ser sábio segundo a Bíblia, e o homem vai descobrindo que a sabedoria sempre está em Deus e cada vez em maior participação naqueles que a amam.

A grande inquietude humana sempre foi e continua sendo a vida: o que é a vida, como aperfeiçoá-la, como Alcançar a imortalidade, a divindade ou a iluminação perfeita.

Para muitas pessoas, o sábio orienta seus esforços para fora, para as coisas, para o descobrimento do mundo físico. Mais que sua vida, nos importa sua ciência, seus inventos, seu saber. Mas para o oriental e para a Bíblia, o sábio orienta seu esforço para o descobrimento de si mesmo, para o segredo recôndito da vida humana como existência aqui e agora; para essa luz misteriosa que se chama o Divino, o Sagrado, o Transcendente, Deus. Nossos sábios são científicos; os sábios bíblicos são santos. Nossos sábios buscam a perfeição das coisas; os sábios bíblicos buscam a perfeição do homem.

A partir da Bíblia a sabedoria é a arte do viver bem. O verdadeiro sábio distingue o verdadeiro do falso, o justo do injusto. O sábio bíblico coloca como fundamento todas as grandes virtudes: prudência, moderação, trabalho, não violência, humildade, sinceridade, justiça, solidariedade, compaixão, amor. A sabedoria bíblica é uma reflexão sobre a existência humana, mas não uma reflexão abstrata e sim concreta, a partir da própria experiência. 

A sabedoria bíblica é uma palavra reveladora: a autêntica sabedoria vem do alto, não está atada ao interesse ou ao calculo humano. Ela é a verdade total que deve ser desejada e buscada pelo homem. A sabedoria é assim uma força geradora: ela dá origem ao homem, a sua história e a todo o ritmo da criação. A sabedoria é o conhecimento dos caminhos de Deus, de seu objetivo; indica ao cristão a direção em que ele deve caminhar, as normas às quais deve adaptar seu viver.

O Livro do Eclesiástico faz o elogia da sabedoria divina que “saiu da boca do Altíssimo e cobriu a terra como a neblina”. A sabedoria de Deus se manifesta como Palavra vivente e esta é a ideia retomada pelo evangelista João: Cristo é esta sabedoria-Palavra que existe desde sempre junto a Deus, mas saiu de Deus para atuar na criação, na história e no interior de cada homem (cf. Jo 1,1-18). Por isso, a Sabedoria-Palavra é uma pessoa: é o Sábio, o Homem cheio de luz, o Caminho, a Vida.

Etimologicamente, a palavra “sabedoria” vem da palavra latina “sapere” da qual derivam duas palavras: “saber” e “sabor”, duas palavras que indicam o mesmo: um saber que sabe saboreando a vida. É um saber que saboreia o fruto da vida, não um saber teórico sobre a vida. É o testemunho do experimentado, a experiência da vida mesma, de seu sabor de viver.

Sábio não é quem pensou a vida e sim quem deixa que a vida lhe diga, o que ele mesmo aprendeu vivendo a vida, quem deixa que a vida lhe entregue seu sabor e lhe revele seu sentido. Em geral, o homem sábio não diz sua sabedoria e sim a mostra. Sábio irradia sentido da vida e da convivência. O sábio é uma testemunha e não professor. O sábio testemunha uma experiência, ensina o que vive, não o que sabe. Em outras palavras, ele sabe viver testemunhando a vida.

Os sábios eram autênticos santos que, iluminados por uma luz transcendente, descobriram o caminho ou senda da vida, e, portanto, podiam ensiná-la aos demais homens tanto com seu exemplo como com sua palavra. Sábio era o homem prudente, equilibrado, reto, equânime e justo. É um exemplo para as gerações futuras.

Laotse, o grande sábio chinês do século VI a.C, descreve o sábio: “Os sábios perfeitos da antiguidade eram tão sutis, agudos, profundos, que não podiam ser conhecidos. Uma vez que não poderiam ser conhecidos, você só pode tentar descrevê-los: eles foram cautelosos, como alguém que cruza um córrego no inverno; cautelosos, reservados como convidado; compacta como um tronco de madeira; ampla como um vale; complexo como água turva. Abraça unidade e é o modelo do mundo...”.  

A Fé É Sustentada Pela Oração e a Oração Manifesta a Fé Viva

O relato do evangelho de hoje não é o dos mais fáceis. Mas mesmo assim captamos sua mensagem. Trata-se do relato sobre a lição da fé. A fé é muito importante para o seguidor para que ele possa estar em sintonia com Jesus e ser beneficiado de sua ação curadora e salvadora. A fé é onipotente porque nos une ao Onipotente.

O núcleo do relato do evangelho de hoje está nas seguintes frases: Primeiro: “Eles não conseguiram expulsar o espírito”. Esta frase é dita pelo pai do jovem epiléptico a Jesus. Segundo: “Por que não conseguimos expulsar o espírito?”. É a pergunta dos discípulos a Jesus. “Tudo é possível para quem tem fé”, é a resposta de Jesus que serve como frase central do relato. Tudo o mais serve para descrever a necessidade da fé. a escolha da fé é muito importante para estar em sintonia com Jesus e ser beneficiado de sua ação curadora e salvadora. Quem recorre a Jesus movido pela fé é sempre atendido.

Depois da transfiguração, momento glorioso embora momentâneo, Jesus desceu com seus prediletos discípulos para a planície. Ele está pronto para encarar a Cruz que ele vai carregar com honra e dignidade, pois trata-se de uma Cruz fruto de sua obediência à vontade do Pai. É preciso encararmos as crises de nossa vida com honra e dignidade apesar de nossas fraquezas.

Ao descer do monte da Transfiguração, Jesus cura um jovem epiléptico. Os discípulos não conseguiram curar o mesmo jovem de sua doença. Ao se questionar sobre o porquê dos discípulos não terem conseguido curar o jovem Jesus responde: “Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando terei de suportar-vos? Trazei aqui o menino”. Com suas palavras, Jesus sublinha, sobretudo, a necessidade da fé e da oração simultaneamente para poder vencer o mal. Por isso, no fim do relato Jesus acrescentou: “Essa espécie de demônios não pode ser expulsa de nenhum modo, a não ser pela oração”.  O exercício da missão recebida de Jesus requer muita fé. É preciso ter fé inabalável no poder de Jesus. Caso contrário, todos desistirão, pois não faltam cruzes nesse caminho. Quando a fé é pouca, a missão fica comprometida.

Ao curar o jovem, Jesus aparece novamente como o mais forte do que o mal, pois ele tem a força de Deus. Jesus está em Deus e Deus está nele. e Jesus sempre quer que seus discípulos reforcem sua fé. Neste sentido, a confissão do Pai: “Creio, Senhor! Mas aumenta minha fé!” serve de lição para os discípulos sobre a necessidade de fortificar a própria fé nos momentos difíceis de sua vida como aconteceu com o pai do jovem.

Nossa luta contra o mal, o mal que há dentro de nós, o mal que há dentro da comunidade e o mal dos demais, somente pode ser eficaz se cada um se apóia na força de Deus: “Confia teus negócios ao Senhor e teus planos terão bom êxito” (Provérbios 16,3). Somente pode suceder da fé e da oração, em união com Cristo é que se pode libertar o mundo de todo mal. Não se trata de fazer gestos mágicos ou de pronunciar palavras que tem eficácia por si só. Quem salva e quem liberta é Deus e nós, somente se permanecermos unidos em Deus pela oração. Esta é uma das lições que Jesus nos dá hoje.

O que acontece é que muitas vezes nossa fé é débil, como a fé do pai do menino epiléptico e a fé dos discípulos. Por isso, encontraram dificuldade em libertar os outros de seus males porque confiaram apenas em suas próprias forças. Muitas vezes nos fracassamos, como os discípulos de Jesus, porque confiamos somente nas nossas próprias forças e nos esquecemos de nos apoiar em Deus. O salmista nos convida a voltarmos a nos apoiar em Deus: “Em Vós, Senhor, eu me apoiei desde que nasci, desde o seio materno sois meu Protetor; em Vós eu sempre esperei” (Sl 71,6).

Jesus nos indica dois caminhos para que sejamos fortes diante de qualquer mal: a e a oração inseparáveis. A é onipotente porque nos une ao Onipotente. A nosum poder incrível, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, como podemos verificar na vida de tantos homens e mulheres ao longo da história da Igreja. A fé nos permite rezar de modo eficaz. Segundo Jesus, a verdadeira fé faz desaparecer qualquer impossibilidade, faz qualquer um caminhar na vida com serenidade e paz, com alegria profunda como uma criança nas mãos de sua mãe. A verdadeira fé liberta qualquer um do desapego de todas as coisas. Além disso, é importante para nossa vida comunitária ter em conta que a fé em Deus nos abre muitas possibilidades e qualidades que estão escondidas e adormecidas. Ao assumir pessoalmente a fé, começaremos a ser conscientes de nossas grandes reservas humanas, as quais devem ser postas para o serviço aos demais.

A oração, por sua vez, consiste em pensar em Deus amando-o, eleva-nos para o mesmo Deus, a partir de qualquer circunstância. Um aspecto da Natureza ou na sua íntegra pode nos levar a apreciarmos a sabedoria do Criador em criar tudo mesmo que não saibamos do para quê de tudo isso. Mas um sofrimento provocado por grave doença, qualquer crise que nos perturba física e psiquicamente, a traição de um amigo, um insucesso profissional também podem nos levar à Força Superior que é o próprio Deus. A oração nos humaniza e nos faz aceitarmos Deus como Deus. A oração nos coloca no nosso devido lugar como pó, mas um pó vivente, pois nele foi soprado o hálito de Deus que faz esse pó santo (cf. Gn 2,7; Jo 20,22; 1Cor 3,16-17). Nestas circunstâncias pode ser mais difícil elevar-nos para Deus, dar-nos conta do amor com que continua a nos envolver. Mas é possível, se tivermos a atitude do pai de que nos fala o evangelho. Em qualquer circunstância, cada um há que dirigir-se ao encontro do Senhor e falar-Lhe com humildade e confiança de nossa situação e falar-Lhe de nossa impotência diante de certas dificuldades encontradas na vida. É a oração que nos permite abrir o cofre dos favores divinos, pois nos põe em contato com o Deus vivo a quem, segundo o ensinamento de Jesus, dizemos: «Faça-se a tua vontade». Este abando a Deus é importante para nós, pois Ele sabe de tudo mais nos convém ou não nos convém. Rezar é, sobretudo, encontrar o acesso a Deus; é ligar a terra ao céu; é unir a força humana e a força divina que resulta no milagre da vida. Somente na oração é que podemos ter força maior para superar as dificuldades de nossa vida.

P. Vitus Gustama,svd