quinta-feira, 8 de dezembro de 2016


Domingo,11 de Dezembro de 2016
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OBRAS BOAS FALAM DE DEUS


III DOMINGO DO ADVENTO ANO “A”




Evangelho: Mt 11,2-11


Naquele tempo, 2 João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns discípulos, 3 para lhe perguntarem: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?” 4 Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: 5 os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados. 6 Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” 7 Os discípulos de João partiram, e Jesus começou a falar às multidões sobre João: “O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? 8 O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. 10 É dele que está escrito: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti’. 11 Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”.
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Na seção precedente (Mt 4,17-11,1) Mt apresentou de forma sistemática o anúncio do reino, manifestado nas palavras e nos sinais de Jesus, e difundido por seus discípulos. Agora, nesta segunda seção (Mt 11,2-16,20) todo o interesse se dirige até as atitudes que as distintas pessoas ou grupos tomam frente a Jesus. Nos últimos capítulos Mt Já mostrou esporadicamente algumas destas reações: a admiração diante dos sinais de Jesus (Mt 8,27.34; 9,8), a rejeição (Mt 9,34;10,25) e a perseguição contra seus discípulos (Mt 10,16-25). Nesta segunda seção, o relato é mais sistemático ainda. O começo e o final do mesmo indicam que o centro de atenção é Jesus. No início, os enviados de João Batista perguntam a Jesus se ele é o Messias (Mt 11,2-6), e no final, é Jesus quem perguntará a seus discípulos acerca de sua própria identidade (Mt 16,13-20). Esta segunda seção forma, então, o que se chamado inclusão.


Nesta seção, os capítulos podem ser divididos em três blocos: a rejeição de Jesus (atitude frente a Jesus) que conclui com a declaração acerca de sua verdadeira família (Mt 11,2-12,50); a explicação do mistério do Reino através de parábolas (Mt 13,1-52) e o Reino e a Igreja que conclui com o anúncio da Igreja edificada sobre Pedro (Mt 13,53-16,20).


O nosso texto faz parte, então, do primeiro bloco (Mt 11,2-12,50) da grande seção (Mt 11,2-16,20). O texto de nossa reflexão tem três partes: Primeira, a pergunta de João Batista, através de seus discípulos porque João Batista estava na prisão (encarcerado por Herodes Antipas, filho legítimo de Herodes Grande), a Jesus sobre o seu messianismo (vv.2-3); Segunda, a autodefinição de Cristo pelas suas obras, que são sinal eloquente da sua identidade messiânica (vv.4-6); Terceira, Jesus fala do perfil de João Batista (vv.7-11).


O evangelho deste dia quer enfatizar duas ideias principais. Primeiro, o Reino de Deus é uma realidade em nosso mundo, mas nem sempre captamos sua presença. Segundo, este Reino não destrói o mundo e sim repara o desajustado nele existente: “Os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,4-5).


Sintomas deste desajuste são a enfermidade, que é inevitável para qualquer ser humano, e a marginalização, que é uma injustiça intolerável e por isso, deve ser combatida permanentemente. Ninguém nasce marginal. É a sociedade que marginaliza. É a sociedade que coloca pessoas, famílias, raças à margem da vida sem dar-lhes vez e voz por causa dos critérios não humanos. Mas a pessoa não percebe que ao marginalizar alguém, ela se torna também marginalizada. Consequentemente, há ricos e pobres marginalizados. Há mestres e analfabetos marginalizados. Há religiosos e ateus marginalizados.


“Tenho direito à minha dignidade” é o grito de todos: da criança e do adolescente, do jovem e do adulto, do bebê e do ancião, do rico e do pobre, do religioso e do ateu, do analfabeto e do mestre. Deus não precisaria encarnar-se, se o homem tivesse um pouquinho da sensibilidade humana. Jesus não precisaria morrer na cruz, se todos aprendessem a viver como irmãos. Mas Jesus se dispôs a fazer tudo isso para que o homem voltasse ao seu estado primordial: ser filho e filha de Deus, e irmãos e irmãs entre si, consequentemente.


Além dos pensamentos acima falados vamos estender nossa meditação sobre outros pontos do texto lido neste dia.


1. Pergunta Dos Enviados De João Batista


João Batista está na prisão. Ele ouviu falar de Jesus e das suas obras. O comportamento de Jesus não responde ao ideal messiânico de João Batista que ele prega para as pessoas. Para João Batista, o Messias que há de vir é um guerreiro vitorioso, um juiz severo, um rei poderoso e vingador contra os malvados da terra com as severas imagens do machado, a vara e o fogo para insistir à conversão diante do julgamento iminente. Por essa razão João Batista envia seus discípulos para perguntar a Jesus se Ele (Jesus) é Messias esperado. Mais tarde é o próprio Jesus quem pergunta a seus discípulos acerca de sua própria identidade (Mt 16,13-20). A pergunta dos enviados de João Batista: “És Tu que há de vir?”.


Até certo ponto a dúvida do Precursor nos surpreende. Será que se sente defraudado por Jesus? Como João Batista, temos nossas interrogações sobre Deus e tantas outras coisas nesta vida.  O homem precisa se interrogar, interrogar e ser interrogado para encontrar o sentido da vida. Perguntar é o inicio da sabedoria. “Quem perguntar, ficará bobo durante cinco minutos. Quem não perguntar, ficará bobo eternamente”, diz um ditado oriental.


Apesar de suas interrogações, o homem precisa manter sua fé em Deus. O nosso cérebro é pequeno demais para entender a grandeza de Deus e seu infinito mistério. Deus cabe no nosso coração, mas não cabe no nosso cérebro. “O essencial é invisível aos olhos e só se pode ver com o coração. Eis o meu segredo: é muito simples, só se vê bem com o coração.” (Antoine de Saint-Exupéry: o Pequeno Príncipe). É melhor dizer o que Deus não é do que o que Ele é. Por isso, o homem precisa viver sobre a face da terra com fé. Ter fé significa confiar em Deus apesar de nossas dúvidas e obscuridades (Dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. A incredulidade é a ausência da crença). Ter fé em Deus significa ter coragem de agir apesar de nossos medos. Ter fé em Deus significa acreditar no amanhã apesar de nossos sofrimentos de hoje.


Em segundo lugar, não há, por acaso, muitos cristãos que pedem a Deus que intervenha para castigar os ímpios, esquecendo o que Jesus manda no Sermão da Montanha sobre amar aos inimigos e rezar por eles (Mt 5,44)? Não temos interpretado como castigos de Deus as desgraças que se abatem sobre pessoas, especialmente sobre as pessoas que consideramos más ou das quais não gostamos? Será verdade que Deus sente ira e prazer ao ver os maus sofrerem?


2. A Autodefinição De Jesus Como Messias Pelas Suas Obras


A resposta de Jesus aos enviados de João Batista é uma enumeração de obras que iniciou e fez em Israel, o que soa como paráfrase de Is 61,1-2 (cf. também Is 35,5s; 29,18s): “Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5).


Jesus não dá nenhuma explicação teológica, dizendo quem ele é. A resposta à pergunta de João encontra-se nos feitos que se tornam conhecidos em conseqüência ou resultado do ministério de Jesus. As obras em favor dos pobres e necessitados identificam Jesus como Messias. Nesta resposta Jesus de Nazaré em nada corresponde ao quadro sanguinário e violento descrito por João Batista. Pelo contrário, ele realiza o que o profeta Isaías profecia. Ele não destrói nada, e sim procura recuperar e consertar o que está quebrado. Ele não queima os pecadores, e sim muda o coração deles e os quer felizes a qualquer custo; ele tem palavras de salvação para todos aqueles que não têm mais esperança e que todos evitam como leprosos. Ele não desanima diante de nenhuma fraqueza do homem, não se entrega nem diante da morte. Todos são sinais da salvação, nenhum de condenação. Portanto, Jesus não tem nada a ver com o homem enérgico severo que o Batista espera. Todos os outros querem nos utilizar para alguma coisa ou vice-versa. Cristo quer nos libertar de tudo, até de nós mesmos, nas nossas dolorosas contingências, e nos abrir para a eternidade de Deus, que será a nossa. Em outras palavras, Jesus estava querendo dizer aos enviados de João Batista: quem me recebe, recebe o Deus da bondade e será bom como eu sou bom, e fará as bondades que eu faço. Quanto mais se faz bondade, mais ela cresce em nós. Toda obra boa para o bem da humanidade e sua salvação fala de Deus independentemente de quem a faz (cf. Mc 9,39-40).


Esta nova imagem e nova aproximação ao mistério de Cristo permitem um otimismo humano. Não é mais importante aquele que angariou maior poder ou maior glória neste mundo, e sim aquele que é mais aberto para a graça do Cristo. Este se torna mais humano, mais puro, mais confiante e mais irmão.


O Deus que se revelou em Jesus Cristo é muito diferente de nós, não pode ser medido pelos nossos sentimentos e pelos nossos cálculos humanos. Ele ama a todos, bons e maus, faz surgir o sol e envia a chuva sobre justos e injustos, porque todos são seus filhos (Mt 5,45). Um Deus assim, bondoso com todos, que não exclui ninguém, questiona nosso comportamento de exclusividade e de exclusão. Nós, muitas vezes, excluímos os outros se não se adaptam às nossas idéias e que não executam as nossas expectativas.


Por isso, podemos nos perguntar: a fé neste Deus, a adesão a Jesus Cristo, é compatível com as dúvidas, com as incertezas, com as dificuldades em acreditar? Que tipo de Jesus Cristo em quem acreditamos e vivemos no nosso dia-a-dia? Que imagem de Cristianismo as pessoas podem ter a partir do que eu faço? Respostas teológicas podem não ser entendidas e não vão parecer relevantes para muitos. Mas, se há sinais concretos como compromisso com a justiça e empenho na construção da paz, a ajuda aos necessitados, o testemunho pode ser mais cativante que qualquer discurso ou pregação. Isso vale para nós e para qualquer grupo, pois nenhum coração resiste à bondade.


Acreditamos que Deus está conosco. É verdade que ele está no meio de nós e jamais não abandona. Mas apesar desta presença que capaz de tudo transfigurar, o mundo segue o seu curso cheio de contradições, injustiças, doenças e mortes. Angustiamo-nos e perguntamos como São João Batista:” És tu aquele que há de vir ou devemos esperar por outro?” Ou devemos procurar outro Deus? És tu que vai nos libertar? Quando senhor e quando? A resposta que Jesus dá aos enviados de João Batista vem ao encontro de nossa pergunta e nos enche de esperança. Jesus pede que escutemos a sua mensagem e olhemos para as suas obras. Eles deixam claro: ”É Jesus Cristo é nosso Libertador, o nosso Messias e não devemos esperar por um outro. Não devemos procurar o outro. Ele pede para escutar e ler a sua mensagem e olhar para suas obras. Mas não basta ter uma esperança acerca do fim feliz e bom e garantido para todas as dificuldades e para toda a criação. Esta esperança tem que traduzir em esperanças concretas para os problemas concretos. Somos instrumentos vivos de Deus para isso.


Em quase todas as partes de nosso mundo existem vários tipos de problemas. Jesus pede a cada um de nós a ler sua mensagem e a olhar para suas obras. O cristão, aquele que é de Cristo tem que ter a mesma atitude de Jesus de ajudar onde pode e deve e participar na solução dos problemas onde é exigido.


3. Jesus Fala Do Perfil De João Batista


Depois que Jesus deu a resposta aos enviados de João Batista, Jesus começou a elogiá-lo perante a multidão. A declaração de Jesus sobre João Batista utiliza um recurso retórico conhecido: uma série de perguntas que convidam aos ouvintes a dar uma resposta. O povo considera João Batista como profeta (Mt 21,26), mas Jesus vai além: é mais que profeta (v.9). A declaração, que começa com uma referência ao AT (Ex 23,20; Mal 3,1) pretende esclarecer qual é a relação entre ambos e o lugar de João Batista no Reino: João Batista é o Precursor do Messias. João preparará o caminho para o êxodo definitivo, que será obra do Messias, e cuja terra prometida é o Reino de Deus.


Mas com uma introdução solene (“Eu vos digo”) Jesus estabelece uma contraposição. Mesmo sendo maior de todas as personagens da história que o precederam, João Batista é considerado por Jesus como o menor no Reino de Deus. Jesus marca assim a diferença entre a época do AT e a que começa com ele. João Batista estava às portas do Reino de Deus e os homens só podem entrar no reino pela adesão a Jesus. Pode-se dizer que João Batista vê já a terra prometida, mas não pode entrar nela. Os que entram no Reino através de seguimento de Jesus são maiores que João Batista.


João Batista realmente era um profeta cheio de humildade, apesar do seu temperamento austero, penitencial e radical. Ele sabia-se ser servidor da verdade. Por isso, foi sincero até a dureza e à falta de diplomacia; tanto que a sua retidão e amor à verdade lhe custaram a vida ao recriminar a Herodes Antipas por estar casado com Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe.


Além disso, ele foi um homem humilde e por isso, sensato, não cedeu à tentação de se mostrar importante. Ele sabia muito bem que a sua pessoa e atividade profética estavam em função de outro superior a ele: Jesus (Jo 3,29s).


A exemplo de João Batista, nós somos convidados à conversão efetiva ao amor e à justiça. Converter-se a Deus e ao homem. Comecemos a optar pela honestidade insubornável no aspecto pessoal e familiar, social e político, administrativo e empresarial, profissional e educativo etc. Pois a justiça social e a igualdade, o amor e o respeito pelos outros não se estabelecerão na sociedade automaticamente com leis e reformas estruturais, sem se converterem as pessoas mediante uma mudança radical de critérios e de conduta.


4.O Homem Foi Feito Para Ser Alegre E Expandir A Alegria


Este Domingo é conhecido como o Domingo Gaudete, domingo de alegria. Neste domingo se acentua o aspecto de “jucunda expectatio” que tem o Advento. O motivo desta alegria pode ser resumido na frase de Santo Agostinho: “Não me buscarias, Senhor, se não me tivesse encontrado”. Isto quer nos dizer que não esperaríamos com alegria a vinda do Senhor, se Ele não tivesse nos encontrado. De fato, o evangelho deste dia é uma proclamação da presença do Messias entre os homens. É o próprio Senhor Jesus quem se auto-anuncia: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,4-5).


O Reino de Deus é paz, amor e alegria. Também alegria, ainda que previamente tenha que passar por muitas contrariedades e sofrer muito, mas o último não é o sofrimento e sim a alegria indestrutível. A cruz é apenas um meio e não um fim. O mistério de alegria nasce de Deus, é um dom, não se compra em nossos mercados nem se encontra em nossas salas de festa. A alegria brota de dentro e tem sua origem no Espírito de Deus.


Se o Reino de Deus é paz, amor e alegria, o cristão deve ser testemunha de alegria: em seus talentos, em sua vida, em suas celebrações. É blasfêmia apresentar Deus inimigo da vida. O homem foi criado para expandir-se na alegria e é, por isso, chamado por Deus para expandir a alegria. Quem vive a espiritualidade de Advento descobre o sentido da alegria cristã. O Natal é a festa de alegria e de salvação, pois o Senhor veio para morar entre nós: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A alegria é a resposta ao grande anúncio, uma vizinha presença. As grandes felicidades somente procedem do céu (de Deus) e as pequenas, dos homens. Os céus do Avento fazem cair a chuva de alegria para todos e eliminam a contaminação atmosférica da tristeza anticristã.   


A alegria começa a partir do momento em que cada um de nós suspende seu esforço de busca da própria felicidade para procurar a dos outros. Para sermos felizes temos que fazer a felicidade dos outros sem esperar nada de troca. É simplesmente manifestação da minha entrega a Deus, pois Ele se entregou por minha causa. A entrega a Deus é a entrega à alegria. No coração do homem inquieto, a fome de felicidade é fome de Deus.


P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

08/12/2016

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IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA


08 de Dezembro


Evangelho: Lc 1,26-38


Naquele tempo, 26 no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27 a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 28 O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29 Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30 O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32 Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33 Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.  34 Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35 O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36 Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37 porque para Deus nada é impossível”. 38 Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.
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Não encontramos em nenhuma página do NT a concepção de Maria nem sobre seus pais (somente encontramos no proto-evangelho de São Tiago). Na festa da Imaculada Conceição de Maria lemos o evangelho da Anunciação (Lc 1,26-38) que não fala do concebimento de Maria, mas do concebimento de Cristo em Maria. A escolha de Maria como Mãe do Senhor (Lc 1,43) é muito preciosa que nos faz entender que quem dá valor a toda a existência de Maria é o Filho. Em outras palavras, Maria é redimida por seu filho e pela preservação divina. Maria é imaculada por ação de Deus em vista da redenção de Cristo. A sua imaculada conceição só pode ser uma participação na graça redentora do Redentor em função de sua maternidade em relação a Cristo.  Podemos afirmar que por causa da encarnação redentora do Verbo, Maria foi eleita desde a eternidade e, na plenitude do tempo, lhe foi enviado o anjo Gabriel com a mais inefável das saudações: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Em Maria Deus encontra “lugar” para estar sempre com a humanidade: “O Senhor está contigo”. E em Maria a graça divina encontra uma resposta de que Maria será o instrumento desta graça: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).


Da afirmação surge a pergunta, se Maria é redimida em vista da redenção de Cristo, como isto pode ser explicado porque Jesus nasceu depois dela? Para compreender tudo isto precisamos nos colocar na posição de Deus. Para Deus tanto o ontem quanto o amanhã são um eterno hoje (cf. Hb 13,8). Para Deus, a redenção futura de Jesus é um já presente. Em razão disto, Maria é isenta e preservada. Como dizia Dante: “Maria é filha do seu Filho, porque por Ele foi totalmente livre do pecado original e do próprio débito do pecado”.


Ao solenizar a Imaculada Conceição de Maria devemos estar conscientes de que não se trata da auto-salvação de Maria; trata-se da graça de Deus. A concepção imaculada não significa que Maria não teve necessidade de ser salva à semelhança de todos os homens; ao contrário, proclama o incomparável dom que lhe foi prodigalizado: ter sido agraciada sem ter provado a desgraça do pecado. A redenção de Maria acontece por preservação divina. Nisto Maria é a expressão máxima do poder de Deus. Ela é santa porque santificada pelo Espírito do Pai, emanado por meio do Filho. Diante da Imaculada, a Igreja celebra primeiramente a infinita misericórdia de Deus para com a humanidade inteira. Podemos dizer em outras palavras, Maria se beneficia mais abundantemente do que todos nós da misericórdia divina e do resgate. Pois maior misericórdia é ser preservado pela graça de Deus de pecados pessoais, do que ser perdoado de pois de termos pecado. A sua preservação do pecado é fruto unicamente da graça redentora. Ela nunca conheceu pecado.


Maria realiza o homem que Deus sempre quis: aquele que se ergue ao céu, sem se encurvar a nenhum pecado e sem cair na tentação de olhar apenas para o mundo; aquele que se abre ao outro, sem cair no isolamento do egoísmo, e aquele que se confraterniza com o mundo.


Maria Imaculada é sinal de Deus para nós. Um sinal é como um fulgor que antecipa a luz, como uma flor que antecipa a primavera, como uma premonição. O diálogo entre o anjo do Senhor com Maria é um sinal escolhido por Deus para nos assegurar que Deus não nos abandonará nunca, que não nos deixará a mercê das forças inimigas, que com Sua ajuda, o pequeno pode superar o grande e o débil pode superar o forte. É um sinal, e é um anúncio de vitória, que a salvação do homem está decidida, que a perfeição do homem é possível, que o paraíso não é utopia para quem se entrega a Deus como Maria.


As grandes promessas de Deus passam pela mulher chamada Maria. Por isso, ela faz possível a esperança. Quando o homem sofre crises de morte, aparece uma mulher em estado da graça, como anúncio e promessa.


O compromisso da vida cristã é deixar-se fecundar pelo Espírito de Deus, como Maria, escutando a Palavra de Deus que vem por meio de mensageiros, tendo em conta nossa situação e nossas forças, mas respondendo a Deus com confiança e interesse. O cristão deve deixar-se encarnar pela Palavra de Deus.


Através da cena da anunciação do Senhor a Maria o evangelista Lucas nos mostra um Deus revolucionário e libertador. A manifestação de Deus, nesta cena, não acontece no Templo, lugar considerado sagrado, como aconteceu com o anúncio do nascimento de João Batista (cf. Lc 1,5-25) e sim num lugar desconhecido: Nazaré. Deus é que faz um lugar importante. Nazaré é um lugar jamais mencionado no AT. Esse Deus não se manifestou a um sacerdote no templo durante o culto, como aconteceu com Zacarias, e sim no cotidiano a uma pessoa simples, pequena, a uma mulher: Maria. Na opção de Deus Maria se torna uma privilegiada.


A Virgem Maria, da perspectiva do evangelista Lucas é uma mulher que aceita a proposta revolucionária de que Deus possa nascer de seu ventre virgem, de seu corpo jovem, de seu coração feminino.


A mulher, naqueles tempos, não tinha acesso à Palavra escrita da Tora ou dos profetas. Na época tinha um dito: “É melhor queimar a Bíblia do que entregá-la nas mãos de uma mulher”. Agora Maria, uma mulher, tem em seu ventre materno a própria Palavra de Deus feita carne: o Emanuel, Deus-Conosco, Jesus Cristo.


A mulher, que não podia conversar com outro homem que não fosse seu marido, agora dialoga com sua consciência e toma decisão de ser a Mãe do Senhor. A mulher que vivia dependente de uma estrutura familiar rígida, agora escolhe e opta por ficar grávida milagrosamente. A mulher que tinha um acesso restringido ao culto, agora dialoga diretamente, cara a cara, com Deus. A mulher que devia cuidar de sua imagem de moralidade, sua virgindade até o matrimonio, agora decide enfrentar a sociedade de seu tempo e o mais importante: quem decide é ela.


Por isso, não podemos imaginar que Maria seja uma mulher passiva, imóvel e submissa. Ela é corajosa, valente e revolucionária: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”. Ela se compromete a partir de sua própria liberdade e libertação com a libertação de Deus. Ela é revolucionária com o Deus revolucionário. Quem tem sua força em Deus, quem acredita incondicionalmente em Deus tem força suficiente até mais do que suficiente para encarar tudo na vida porque ele sabe que a palavra final é a Palavra de Deus e não a do homem. Quem é devoto de Maria deve ser uma pessoa valente, corajosa e revolucionária como Maria. Para Deus e com Deus tudo é possível.


A partir da cena da anunciação não há que buscar Deus no ar, nas idéias, nos sonhos. Maria o encontra no seu ventre, no seu coração. O Deus que está no coração de Maria transforma seu corpo em instrumento para fazer Deus visível aos homens. Sua maternidade aproxima Deus ao ser humano para compartilhar a experiência de salvação. Para cada um de nós Maria quer mostrar que é possível ser instrumento para fazer visível Deus aos outros.


Para cada cristão trata-se de uma missão a ser cumprida neste mundo: fazer Deus visível através de nossa vida e de nosso modo de viver. “Vós sois a carta de Cristo”, relembra-nos São Paulo.


Além disso, na cena de anunciação Maria se considera a Serva do Senhor: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38.48). Serva é aquela que está totalmente à disposição do seu senhor. Maria se submete totalmente à sabedoria divina. Ela segue o ritmo de Deus, segundo seu projeto de amor. Por isso, Maria é a mulher crente, a melhor discípula de Jesus, a primeira cristã. O “sim” de Maria à Palavra de Deus expressa seu total compromisso, sua absoluta confiança no amor e no poder de Deus e pendura toda sua vida na Palavra de Deus, porque ela acredita que Deus nunca falha. Maria está totalmente vazia de si mesma e de toda sombra de egoísmo, para deixar Deus encher totalmente seu coração, o que dá sentido à sua vida. É uma fé que se traduz em doação completa de si mesma ao Pai (Lc 1,38). Por estar totalmente cheia de Deus, ela se torna um bem para a humanidade. Para sermos instrumentos de Deus para a humanidade é preciso que estejamos vazios de nós mesmos para que a graça de Deus possa nos inundar por inteiro.


Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.


De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de fé e motivo de esperança e de alegria.


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 3 de dezembro de 2016

DOMINGO,04/12/2016

O NOSSO SALVADOR VEM NOS DAR A ESPERANÇA

                                       Is 2,1-5; Sl 121; Rm 13,11-14; Mt 24,37-44

Os capítulos 24-25 de Mateus, onde se encontra o nosso texto deste dia, constituem o quinto e o último discurso de Jesus no evangelho de Mateus (o 1º Mt 5,1-7,29: o Sermão da Montanha onde Jesus proclama o Reino dos Céus e suas exigências; o 2º Mt 9,35-10,42: o discurso missionário onde se fala da extensão do Reino dos Céus; o 3º Mt 13,3b-52: o discurso sobre a natureza do Reino dos Céus em parábolas; o 4º Mt 18,3-34: o discurso eclesiológico onde se fala de como viver como uma comunidade que aceita o Reino dos Céus). Para compor este último discurso, Mateus elaborou notavelmente o chamado “discurso escatológico” de Marcos (Mc 13) e o ampliou com uma série de três parábolas e uma impressionante descrição do juízo final (Mt 25,31-46) cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a segunda vinda do Senhor conhecida como Parusia. 

O vocábulo grego parousia (de páreimi: estar presente, estar , chegar) é originalmente referido tanto para a descida ou manifestação de pessoas divinas na terra (por ocasião de uma festa religiosa ou por uma intervenção milagrosa), quanto para as visitas que reis e príncipes fazem às cidades submetidas ao seu império. O sentido principal do termo na cultura grega é de visita, chegada, advento de um soberano ou de uma divindade que se usa tanto no conceito político quanto religioso. O que sempre se destaca para a parousia é o seu caráter triunfal e glorioso. No NT, o conceito é utilizado para descrever a futura vinda de Cristo, Senhor de tudo e de todos (Pantocrátor) no final dos tempos. Por isso, geralmente a expressão parusia está ligada à idéia de fim do mundo e ao juízo final(cf. 1Ts 4,13-18) como se no evangelho deste domingo. Jesus virá com o poder e a glória para derrotar as potestades do inimigo e glorificar os que agora pertencem a Cristo.


Neste discurso, não se trata, como em Mc, dos sinais que precederam à destruição do templo (70 d. C), mas da vinda do Filho do Homem e das atitudes com que os discípulos devem preparar para essa vinda. A intenção de Mateus é responder à situação que vivia sua comunidade. Por um lado, perceberam que a segunda vinda de Jesus estava se atrasando e diante deles aparecia a história como espaço para o compromisso. Por outro lado, o evangelista contempla com preocupação os sinais de abandono, de negligência,  de rotina e de esfriamento que começaram a aparecer na comunidade. Nessa situação Mt descobriu que aquelas palavras de Jesus contém uma exortação dirigida aos cristãos que se fundamenta numa profunda convicção: a vinda do Filho do Homem é um fato certo, no entanto, não se sucederá em seguida. Por isso, é necessário preparar esse grande acontecimento vivendo segundo os ensinamentos de Jesus.

O estilo e as imagens desses capítulos podem provocar temor. Trata-se, porém, de uma forma de falar que era relativamente freqüente entre alguns grupos judios e cristãos da época de Jesus. Esta linguagem se conhece com o nome de apocalíptico, porque seu objetivo é manifestar uma revelação escondida(apocalypsis) com a seguinte idéia básica: o mundo não é eterno, terá fim juntamente com a humanidade à qual Deus oferece a sua salvação em Jesus Cristo cuja finalidade catequética é salientar a urgência da vigilância ativa. Este estilo de discurso quer recordar ao homem a sua condição finita não para levá-lo ao desespero e ao desânimo, mas para convidá-lo a uma conversão pessoal e comunitária. Em muitas ocasiões esta revelação está dirigida a grupos e comunidades que vivem uma situação de perseguição, com o objetivo de animá-los em suas tribulações. Por isso, não tem que ver neste texto uma ameaça, mas sim uma mensagem de esperança.

Aprofundemos nossa meditação sobre alguns pontos do texto! Mt 24,37-44

1. A vinda certa de Deus, porém imprevisível é a grande mensagem do Natal para o qual nos preparamos

Este Primeiro Domingo do Advento quer nos recordar o horizonte último da história, que se identifica com a vinda do Filho do Homem, Jesus Cristo. O texto reflete sobre uma concepção da história queresposta a uma pergunta existencial. A pergunta existencial indaga pelo sentido da história humana: “Para onde caminha o ser humano?”. O texto responde a esta pergunta afirmando que a história humana termina em uma peripécia (para um previsto), cujo protagonista é Deus. O texto quer nos dizer que tudo termina em Jesus Cristo, Deus-Conosco. Por esta razão, a história para o cristão continua sendo, desde o princípio ao fim, uma história de salvação. A vida do mundo, como nossa própria existência se verão expandidas por este encontro definitivo para o qual caminhamos. O ser humano vive sob o pólo de atração de Deus, que em um momento humanamente imprevisível, porém, certo, fará uma mudança repentina da atual situação ou da condição humana. Por isso, o texto quer inculcar a consciência desta peripécia universal, convidando todos a evitarem a atitude inconsciente de que nada muda nem pode mudar.

A vinda deste Deus em Jesus Cristo é imprevisível para nossa história, porém certa. Ele não cessa de estar presente no mundo de um modo muitas vezes impalpável e discreto, porém, seguro, como nos diz o Evangelho deste dia.  Cremos que Jesus se faz presente no mundo com uma presença real, ainda que seja discreta e misteriosa. Ele vem como ladrão, mas não para roubar e sim para nos resgatar. Pode-se dizer que trata-se de “ladrão” de corações. No fim dos tempos esta presença aparecerá no grande dia e não teremos que crer nele, pois O veremos. Neste dia estaremos inundados pela felicidade completa. Deus é aquele que logo nos mostra o final da história a partir daquilo que vivemos.

2. Advento é uma grande celebração da esperança crista        

Por tudo que foi dito acima, o Advento é a celebração da esperança cristã. Esperar é situar-se em estado de receptividade que é acompanhada pela esperança. A vinda salvadora de Deus, embora imprevisível, é a grande mensagem do Natal ao que nos preparamos. Deus, em Jesus Cristo, é a raiz da verdadeira esperança humana. A esperança cristã é segura, pois Deus sempre faz possível nossa vida de amor e de paz. Não sabemos o que passará amanhã ou com que mundo as próximas gerações se encontrarão, ou como encararemos problemas terríveis e insolúveis, mas nós cremos que Deus continua sendo fiel e hoje, amanhã e para sempre move ao amor e à paz. É a força do Advento cristão em nosso mundo. A Palavra de Deus não é uma ameaça e sim um anúncio alegre e uma promessa. Deus vem não para nos ameaçar, mas para nos dar promessa. Cada visita de Deus é uma libertação. E a esperança cristã deve ser resposta à promessa e à visita de Deus.

Por isso, essa segunda vinda do Senhor não é para criar o medo em cada um de nós porque sabemos que Deus nos ama e cremos firmemente no Seu amor. E o encontro de duas pessoas que se amam traz a alegria, a felicidade e a paz. E quando duas pessoas se amam profundamente o tempo aparentemente fica parado. Quando perdemos a noção de tempo, por causa deste amor, isto pode se chamar de eternidade ou Paraíso. O encontro com o Senhor é sempre o encontro de amor que nos deixa a paz, a felicidade e a libertação.

Mas quando convertermos o processo religioso da espera em algo comercial que logo pode converter-se em qualquer coisa, passamos, em verdade, a nada esperar, pois transformamos a esperança cristã em uma palavra vazia que, precisamente por isso, segue a lei do vazio de deixar-se preencher por outras esperanças caducas.

O Advento celebra o “Deus da esperança” (Rm 15,13) e vive a alegre esperança. O homem de esperança sempre acredita que tudo pode. Nesse “poder” há força. A esperança sempre repousa num poder que possibilita a transformação da existência. O canto que caracteriza o Advento é o do Salmo 25(24),1-3: “A ti, Senhor, eu me elevo, ó meu deus. Eu confio em Ti....pois os que esperam em Ti não ficam envergonhados” (Antífona da Entrada). Somente uma atitude de nos pode descobrir o sentido da história, e somente uma atitude de vigilância nos pode ajudar a viver, conseqüentemente, em um clima de espera e esperança. A esperança é vigilante e austera.

3. A vinda salvadora de Deus que é imprevisível nos leva a estarmos preparados e vigilantes

         “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia o Senhor virá” (Mt 24,42)


A imprevisão intencionada da vinda de Deus provoca a vigilância de nossa parte. Por esta razão toda a dinâmica do texto está em caminhada para o fator de surpresa. Daí o convite a estarmos vigilantes e estar preparados, duas expressões equivalentes, pertencentes ao campo da atenção e cujo oposto é a despreocupação. Entre ambos convites em imperativo: “ficai atentos” (M 24,42) há uma constatação em indicativo: “compreendei bem isso...” (Mt 24,43). Sublinha-se, então, a importância do que está em jogo: a nossa salvação e, por isso, constitui uma chamada à seriedade de vivermos sempre reconciliados com Deus e com o próximo. O cristão é um homem atento, desperto e lutador.

Vigiar significa escutar Deus e os demais sem viver com demasiadas seguranças humanas; olhar para os que sofrem sem passar adiante; trabalhar para levar o diálogo e a paz. O cristão, filho da luz (1Ts 5,4-8) não pode se alienar. Sua , sua esperança e sua caridade têm de ser vivas e dar seus frutos: bondade, justiça e verdade: “... sois luz no Senhor: andai como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda bondade e justiça e verdade” (Ef 5,8-9). As obras das trevas têm de ser denunciadas: “Procurai discernir o que é agradável ao Senhor e não sejais participantes das obras infrutuosas das trevas, antes denuncia-as...” (Ef 5,10-11; leia o resto do texto). Sua arma será sempre a Palavra de Deus: “Tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” (Ef 6,17).  A verdade e a justiça necessitam ser defendidas em cada instante; o amor e a solidariedade não podem descansar. Estar vigilante equivale a não pôr limite ao amor; a não deixar que nos distraiamos de nosso objetivo como cristãos; a estar sempre atentos para descobrir e lutar contra o que impede a fraternidade e apoiar com todas as nossas forças o que a favorece. Quem vive gloriosamente a vida, a possui e é possuído pro ela. Estar vigilante significa mover-se, manter-se ocupados em realizar o bem comum. A vigilância é o caminho de doação e não o da conservação:Aquele que acha a sua vida, vai perdê-la, mas quem perde a sua vida por causa de mim, vai achá-la”, diz o Senhor (Mt 10,39). Vigiar é preparar a casa e os caminhos para o homem novo; é descobrir a tarefa a realizar; é descobrir onde o Senhor está nascendo; é caminhar para Belém, onde uma família busca lugar para descansar, onde um imigrante pede trabalho, onde um esquecido necessita de uma presença, onde um pobre quer comer, onde todos os homens urgem amor. Vigiar é escutar a Palavra, ler em profundidade os acontecimentos, penetrar no mistério da pessoa e da história, captar a noção do Espírito de Deus. vigiar é crer, é comprometer-se. A Palavra de Deus sempre nos sacode, pois em todos os acontecimentosanúncios de salvação que temos que descobrir. A vigilância consiste em discernir os sinais dos tempos para reconhecer a presença de Deus e do seu reino nos acontecimentos. Cada cristão precisa estar vigilante não para esconder-se, mas para sair ao encontro do seu Salvador, Jesus Cristo.   

Vigiar é uma postura ativa, alerta para continuar com as tarefas cotidianas dentro da vontade de Deus, pois o julgamento de Deus acontece no cotidiano sem sinais espetaculares. A este julgamento ninguém pode escapar. A vigilância nos leva a reconhecermos a nossa condição de mortal. A consciência de mortalidade nos impede que supervalorizemos os bens terrenos, julgando encontrar neles segurança e salvação. A supervalorização dos bens terrenos é uma atitude indigna de um cristão. A vigilância exige desapego, partilha, relativização dos bens terrenos, de modo que o nosso coração fique totalmente disponível para Deus. A vigilância é a disponibilidade para a vinda do Senhor diariamente nos acontecimentos cotidianos dos homens. A vigilância nos leva a colocarmos em segundo lugar o quando, o como e o onde do dia do Senhor. O que importa é estarmos preparados. A chamada de Cristo ao seu seguimento requer uma disponibilidade total, vivendo desinstalados e desprendidos de tudo que se possui e usa. Vigiamos porque a não é um estado ou situação dada de uma vez por todas, mas uma vida e um processo de permanente evolução para responder, em cada instante, à Palavra de Deus que nos anuncia sua vinda. A Palavra de Deus nos recomenda que vivamos alertados para poder responder adequadamente aos sinais dos tempos através dos quais Deus nos fala. A Palavra de Deus permanecerá como luz segura para instruir os caminhos dos homens. Será como fogueira para aquecer os corações dos homens. Será um livro para saciar as mentes dos homens.

É preciso esperar a chegada do Senhor com humildade. Ser humilde significa aceitar a parte terrena que todos temos; significa descer, buscar e encontrar tudo o que somos, aceitando-nos tal e como somos. Quando o coração se faz humilde, ele é capaz de amar em abundância. Ser humilde é deixar a luz de Deus entrar no nosso coração para fazer desaparecer os maus sentimentos que produzem nossas misérias. Nunca serei compassivo, se eu não admitir minha dureza interior. Nunca chegarei a ser criativo, se eu não for capaz de reconhecer toda a minha mesquinhez que se esconde no meu coração. “Humildade é a honesta confissão do ser pecador. É melhor um pecador humilde que um beato orgulhoso” (Sto. Agostinho).

        “Eu amo a Jesus que nos diz: Céu e terra passarão.
         Quando céu e terra passarem, minha palavra ficará.
         Qual foi, Jesus, Tua palavra?
         Amor? Perdão? Caridade?
        Todas Tuas palavras foram uma palavra: Vigiai”. (Machado de Assis)

O cristão ideal não vive mergulhado nos prazeres que alienam, nem se deixa sufocar pelo trabalho excessivo, nem adormece numa passividade que lhe rouba as oportunidades. O cristão ideal está, em cada minuto que passa, atento e vigilante, acolhendo o Senhor que vem de várias maneiras em sua vida, respondendo aos desafios, cumprindo sua missão, empenhando-se na construção de um mundo mais fraterno.
 

4. A pessoa do meu lado, como eu, permanece misteriosa antes do julgamento final


 Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem” (Mt 24,40-41.39b).

Relata-se aqui, neste texto, que um será tomado, o outro será deixado. Há dois verbos usados aqui: “tomar” e “deixar”. Os dois verbos são os verbos que se referem ao julgamento final. O verbotomar” (cf. Mt 2,13.14.20.21) indica salvação do perigo. Em Mt 20,17; 26,37 o sujeito do verbotomar” é o próprio Jesus e os discípulos são seu objeto. O verbodeixar” indica julgamento ou a exclusão da salvação (cf. Mt 23,38; 24,2). O texto quer nos dizer que o julgamento divino nos detém no ponto em que nos encontramos no relacionamento com Deus e com os homens: ódio e amor, bondade e malícia, egoísmo e generosidade ficam imobilizados no instante em que cessa a nossa vida. O encontro derradeiro com Deus será de alegria (será tomado) ou de infinito desespero (será deixado) conforme o sentido que cada um tiver dado à própria existência.

Quem será tomado? É o justo que vive e pratica o amor fraterno (cf. Mt 25,34-40). Quem será deixado? É o injusto que não tem a vivência do amor fraterno (cf. Mt 25,41-46).


Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada” (vv.40-41). Esta imagem nos apresenta como uma grande interrogação para a consciência cristã. Primeiramente, porque o texto da Bíblia mostra que o juízo de Deus tem em si uma real dimensão de surpresa. Existe em mim o que será tomado e eternamente conservado por Deus? Ou toda a minha vida será deixada e dolorosamente destruída? O homem ou a mulher ao meu lado, a mulher ou o homem que passa à minha frente, quem são eles? Quem poderá afirmar com segurança que será levado/eleito ou deixado/abandonado? A palavra de Jesus é tão grave, tão franca, que nos coloca perante a real possibilidade duma perdição eterna. Ninguém sabe quem é no pensamento de Deus, o seu próximo, que está ao seu lado. A vigilância é, por isso, tão importante que é dela que depende de a sorte, de perdição ou de salvação que vai tocar a cada indivíduo.

 

P. Vitus Gustama,svd